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bem vindo e bem vinda. este é um labirinto herege: um desafio para medir a astúcia de quem me visita; um convite à exploração sem mapas e vista desarmada. aqui todas as direções se equivalem. as datas das postagens são irrelevantes. a novidade nada tem a ver com uma linha do tempo. sua estrutura é combinatória. pode começar de onde quiser. seja de uma imagem, de um texto, de um vídeo ou mesmo de uma música. há uma infinidade de escolhas, para iniciar a exploração, para explorar esse território e para finalizá-la. aproveite.
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novo e-livreto: dOnA dIAbOlUs & sEUs dUAs mArIdOs

[terceiro e último e-livreto da série de intromissões nas cartas de marcia tiburi: - desta vez transfigurei o "diálogo | cinema" em "diabolus | cinema". a diferença deste é que não retirei seu interlocutor. minhas intromissões foi para ambos.]

[para baixar meu e-livreto "dona diabolus e suas dois maridos (diabolus|cinema)": https://goo.gl/ioUMzP]

***

"não há outro real além do secretado pelas ilusões coletivas. no entanto, há possibilidades de as ultrapassarmos: a dimensão fracionada entre a sedução e o artifício. dimensão esta que, no presente caso e possibilidade de ultrapassagem, se presta a ser uma composição de palavras sobre a restituição de um fluxo óptica de pensamento – oposição radical à realidade (subjetiva ou privada) como destino: o cinema. composição verbal de um(a) diabolus, que além do humano, se deita na cama e desposa duas maridos, para, desta vez, em ato pornográfico, meter-se, intrometer-se e ser metido, por marcia tiburi e julio cabrera."

***

tiburi, marcia; cabrera, julio: diálogo|cinema – são paulo: editora senac são paulo, 2013. - [http://goo.gl/z5h8wk]

***
trAIlEr:


agora em e-livro: o retorno do diabolus: missão fotográfica (respondências à marcia tiburi)

sim, juntei as oito (cor)respondências, que enderecei à marcai tiburi em diabolus à seu livro "diálogo|fotografia" (http://migre.me/eduXR), num e-livro, leia aqui: 

O rEtOrnO dO dIAbOlUs - mIssÃO fOtOgrÁfIcA - léO pImEntEl (2013) 
ou
http://migre.me/edvaz
ou
baixe em pdf:
 http://pt.scribd.com/doc/137202542/O-rEtOrnO-dO-dIAbOlUs-mIssAO-fOtOgrAfIcA-leO-pImEntEl-2013-2

abrazos
léo pimentel, amante da heresia


08 [(cor)respondência oitava – game over] - o retorno do diabolus à marcia tiburi

08 
[(cor)respondência oitava – game over]


assim falou marcia: “o passado não se move para mim (...) vejo que a fotografia e a filosofia tem em comum esse anacronismo, é como se o dentro e o fora da história correspondessem a algo sempre presente e, ao mesmo tempo, desde sempre ausente. mas somente esse anacronismo é capaz de captar o devir das coisas.” 

marcia, aproximando a fotografia da filosofia desse modo, é interessante ver o ponto desde onde você promove essa horizontalidade: o anacronismo. algo que também usei, mas de modo um tanto louco, em minha respondência segunda à ti. que inclusive o exercitarei como uma radicalidade política. sim, pois pelas vias do anacronismo irei dizer algo sobre essa captação das coisas ao mesmo tempo presente e ausente que você aponta e do confronto dos idos e dos foras.

“o passado que não se move” posso pensar que é o outro lado do espelho que é a fotografia e a filosofia. é o lugar onde acontece, outra história, numa espécie de cronologia paradoxal (anacrônica) de uma lógica da rebeldia contra modelos. esse outro lado é um olhar para trás que nos faz caminhar para frente. (tal qual faz a atual modernidade indígena contra a medieval mentalidade oligárquica da atual agroindústria.) olhar para uma fotografia funciona como uma dupla memória: próxima e distante. pois uma insurge permitindo uma série de atualizações de uma história próxima; ao mesmo tempo a outra convoca-me para aquilo que a fotografia trouxe e que não acabou – atualizações de uma história distante. 

“presente ao mesmo tempo ausente” apenas como uma história enquanto complexo sistema de devires. onde os devires da memória próxima se reformula pelos termos dos devires da memória distante e vice-versa. darei um exemplo: uma fotografia tirada ontem em são paulo, de pessoas trabalhando numa grande área de plantação de cana-de-açúcar. que passado nela não se moveu? que presente e ausente nela estão? será que trabalho escravo, exploração fundiária, monocultura nos diz algo sobre ontem e hoje? ah... fotografia anacrônica de memória anfíbia!

assim falou marcia: “o que a fotografia faz é dar ao presente a sensação de sua ilusão à medida que confronta com a imagem de um ido ou de um fora.” 

e quanto às ilusões dos idos e dos foras? limites da visualidade do outro lado do espelho? instantes fluidos aonde dentro e fora, ido e vindo, interagem? reversão da cegueira do olhar que opera por estereótipos! sim, aquilo que a fotografia, enquanto análoga à filosofia, capta a aparência invisível para nossos olhos. devemos para ver, desaparecer enquanto ser-espectador/a e aparecer enquanto estar-aí que compartilha a experiência com seu tempo (memória próxima), com sua história (memória distante), com o tempo e história também de quem fotografa. a imagem fotografada não mais se presenteia como meros universos visíveis, mas antes, como universos sensíveis, mas, também, sem muito acreditar em sua “realidade”, já que nenhuma iconicidade é uma representação análoga do mundo e da temporalidade. nessa experiência paradoxal crônica e anacrônica “ver” torna-se o mesmo que “fazer ver em perverter”. mas enquanto tivermos olhares apressados, que antes de ver tudo já está definido, dado, estaremos nessa ilusão que tu dizes, marcia. 

para nós, marcia, hereges, a fotografia filosófica ou a filosofia fotográfica destitui o puramente visual para tornar-se uma globalidade tanto do sentir quanto da práxis. se, como diz nosso amigo julio cabrera, o cinema é logopático, e logo a fotografia, temos que ir um mais longe que ele. temos de pensar que, ambos, cinema e fotografia, não se reduzem a apenas essas duas dimensões, que imageticamente poderíamos imaginar que correspondem ao cérebro e ao coração, mas que antes, há um terceiro ideologicamente excluído aí, as mãos! ou seja, a fotografia é algo logo-pático-práxis (ver-sentir-fazer).

léo, amante da heresia



passarela subterrânea entre as quadras 111 e 211 – asa norte – brasília | léo pimentel | 2012


07 [(cor)respondência sétima] - o retorno do diabolus à marcia tiburi

07 [(cor)respondência sétima]


assim falou marcia: “literatura não é roteiro, fotografia não é frame.” 

marcia, gosto dessa demarcação de território que você faz entre literatura e roteiro e entre fotografia e frame. porque isso raramente é problematizado. o cinema e seus outros. a fotografia e seu outro em ilusão de movimento. mas, antes, algumas palavras tangenciais. sempre penso que, quando um/a cineasta, que é ao mesmo tempo roteirista e diretor/a, ganha um prêmio de melhor roteiro, é como se dissessem a ele/a que sua peça literária é melhor que sua peça cinematizada. algo nessa linha também penso sobre a coisa da “melhor fotografia” em um filme. pois é um reducionismo impressionante estabelecer que, a concepção da imagem cinematrográfica, deva ser tal qual a concepção fotográfica. é como se dissessem que há apenas uma forma válida de conceber tal tipo de imagem: a forma geradora de situação de crença conduzida pela condição fotográfica. sim, situação de crença, já que a fotografia opera, em sentido moral, numa lógica de verossimilhança, mesmo que remota, com o mundo – aquilo que faz com que, ao vermos uma fotografia, confundamos representação com a realidade. 

parece-me que a fotografia não sendo frame, é um fato do passado e não um fato passado, como é um frame. desse modo ela adquire uma maior liberdade para mostrar: o presente das coisas passadas (memória), presentes (atual) e futuras (expectativas). 

assim falou marcia: “o fotógrafo é a testemunha que luta contra o esquecimento. mas que tipo de esquecimento é esse contra o qual luta a fotografia? que memória é a memória da imagem?.” 

ah, adorarei responder estas questões! pois adoro pensar o esquecimento. esquecer é, existencialmente, perder informações, e politicamente, esquecer é ocultar, deshistoricizar. o primeiro tipo de esquecimento está relacionado à memória curta (consciência temporal), àquela relacionada ao tempo de vida que vai do nascimento e a morte de alguém; já o segundo tipo está relacionado à memória longa (consciência histórica), àquela relacionada ao tempo das coisas que estão para além de nosso tempo de vida. 

o esquecimento relacionado à consciência temporal aparece como certa comodidade diária: diversão, entretenimento, prazer, etc. já o esquecimento relacionado à consciência histórica aparece como algo radicalmente incômodo: preconceitos, discriminações, ocultamentos, dominações, etc. partindo daqui, entendo que o esquecimento, pode ser pensado, antes de tudo, como o próprio objeto pelo qual batalham fotógrafos e fotógrafas. assim como o poder político é o objeto pelo qual batalham a esquerda e a direita. mas, contra quem eles e/ou elas lutam? eu diria contra si mesmos/as. sim, é como se houvessem fotógrafos/as que militam pela fotografia de comodidade diária (fotografias onde vigília e sonho se equivalem – publicitária, de glamour, etc.) em confronto com aqueles/as que militam pelos “mortos” incômodos (fotografias gerando a história e esta gerando fotografia). 

e nesse campo de batalha, o espólio de guerra seria a memória da imagem mesma. cujo tipo que você pergunta, marcia, seria a traiçoeira: memória traiçoeira da imagem. sim, aquela cuja traição é sempre realizada por cansaço, por tédio, ou por inércia. e por tal, necessitam de uma permanente auto justificação, de um monte crescente e denso de explicações e auto-engano. sim, pois ao fim da batalha, após contar os/as mortos/as, vê-se que somente as imagens permaneceram vivam. e somente permaneceram assim, por que traíram seus fotógrafos e suas fotógrafas! os/as traíram dizendo para nós que traíram para se salvarem da morte e para escapar do horizonte do esquecimento. pois se perguntam entre si: o que de memória e o que de sonho somos compostas? é possível destacar da memória nosso sonho ou o pesadelo? 

assim falou marcia: “a fotografia é uma ‘forma’ em relação à qual o conteúdo é apenas um vestígio.” 

pensarei essa ideia acrescentando a afirmação de jean-luc godard em “histoire(s) du cinéma", vol 3 – la monnaie de l’absolu. une vague nouvelle, que “a forma pensa”. com esse acréscimo, marcia, sim, concordo contigo que o conteúdo seja vestígio da forma. sim, pois, é pela sua forma que a fotografia alcança o ver; que alcança todo seu poder ideário. alcance sistêmico entre eu, você, o contexto, a imagem, quem a fez, quem a contempla, dentro de um espaço-tempo histórico e a-histórico. é forma viva que participa de sistemas de pensamento. e por isso, ótimas para mentir; ótimas para trair. 

interessante isso do conteúdo como vestígio. pois são os vestígios, de qualquer conteúdo, o que mais intimamente está ligado aos discursos ideológicos: dependem do tipo conservador de realização das associações politicamente arbitrárias e convencionais. é se mais fácil assimilar uma ideologia, quanto mais a forma for sutilizada. quanto mais padronizada é uma forma, ou quanto mais se está confortável formalmente, maior é o convencimento e mais fácil é a assimilação de um valor ideológico. como eu disse: ótimas para mentir; ótimas para trair. 

assim falou marcia: “a fotografia revela apenas a si mesma.” 

ah... essas traidoras... por vezes vão se deitar guerrilheiras e acordam agentes do governo... por vezes vão se deitar agentes do governo e acordam guerrilheiras... 

léo, amante da heresia



passarela subterrânea entre as quadras 109 e 209 – asa norte – brasília | léo pimentel | 2012 

06 [(cor)respondência sexta] - o retorno do diabolus à marcia tiburi

06 [(cor)respondência sexta]


assim falou marcia: “percebi que a literatura e a fotografia eram mais afins do que eu poderia imaginar. também o escritor quer salvar a alma das coisas, de uma história, de um tempo, de uma memória, de um sentido possível...” 

curiosa essa aproximação que vc faz, marcia, entre literatura e fotografia: ambas como resultado de intenções salvacionistas! já que ambas as tecnologias intelectuais seriam geradas com o propósito de salvar, de uma espécie de pecado original – a degeneração diabólica – o instinto vital “das coisas, de uma história, de um tempo, de uma memória, de um sentido possível...”. 

essa curiosa aproximação me faz lembrar um artigo de isaac asimov, chamado “os robôs que conheci”. nesse artigo, asimov nos diz que antes dele (1940), apenas um enredo sobre robôs era viável: o da perigosa criatura mecânica. depois dele, tal melhorou consideravelmente, por uma simples reviravolta de perspectiva criada por ele: a de que robôs não deveriam mais ser considerados imitações diabólicas ou artefatos de maldição da alma dos seres humanos, mas sim máquinas sofisticadas. tal reviravolta é conhecida como “as três leis da robótica”.

asimov? por que eu trouxe aqui tal físico e escritor de ficção científica? robótica? o que tem a ver com a literatura e a fotografia? para sugerir que, analogamente, farei o mesmo: sugir aos/às salvacionistas mergulhados/as na literatura e na fotografia que ambas, tanto não são ferramentas de salvação, quanto não há nada para ser salvo, mas sim que ambas são meras tecnologias intelectuais, bem ou mal projetadas. engraçado, é que existencialistas e outros/as místicos/as, ficarão extremamente incomodados/as com tal sugestão, mas isso aqui pouco importa, inventarei, assim mesmo, aqui minhas “três leis da literatura e da fotografia”, tais quais as da robótica de asimov. mas claro, não perderei de vista que toda lei é inventada, apenas para ser quebrada. vamos lá:

primeira lei: uma literatura e uma fotografia não podem nada salvar, pois não há coisa alguma que possa ser melhorada, corrigida ou sublimada.

segunda lei: uma literatura e uma fotografia devem ser mero suporte possível de pensamento-escrito e pensamento-imagem arbitrariamente e ao bel-prazer de quem escreve e de quem fotografa, a não ser que entre em conflito com a primeira lei.

terceira lei: uma literatura e uma fotografia devem ocupar papel central apenas na imaginação no funcionamento da inteligência, a não ser que essa ocupação entre em conflito com a primeira ou com a segunda lei.

estabeleço que estas leis acima estão firmemente implantadas em cada palavra e imagem da literatura e da fotografia. o resto nasce aqui. – opa, acho que já li esta frase em algum lugar... ah! sim! é o artigo sétimo da lei contra o cristianismo de nietzsche.


assim falou marcia: “enquanto a fotografia nos dá uma memória da morte, a sociedade visual nos dá uma enganação sobre a morte que nos mata.” 

antes, longe de as minhas leis limitar a imaginação inventora elas servem como inspiração. e para testar isso marcia, esta sua ideia é muito boa. primeiro porque desenha um triângulo obtuso (fotografia, morte e sociedade visual) que nos serve como variáveis mínimas para o teste, e depois, porque a morte é nosso horizonte utópico de representação absoluta. 

trecho seu, marcia, “enquanto a fotografia nos dá uma memória da morte...”, trecho de minha primeira lei, “a fotografia não pode nada salvar...”, portanto, nosso primeiro teste, a morte. é possível termos uma morte melhorada, corrigida ou sublimada? ah... quanta religião, filosofia, arte, pseudociência foi inventada para esse propósito? alguma delas conseguiu melhorar, corrigir ou sublimar acontecimento tão inadiável? segundo minha primeira lei, a resposta é não. e ainda acrescentaria que tais invenções, no máximo, conseguem ocultar para o auto-engano! 

seguindo, é possível termos memória da morte? a fotografia passa pela minha segunda lei, já que ela nos serve como suporte possível de pensamento-imagem arbitrariamente e ao bel-prazer de quem fotografa. pois, é impossível uma memória autêntica, já que só quem lembra é quem está vivo. mortos/as não tiram foto. a memória no caso é um lembrete, um tipo de memória artificial (arbitrária), do que logo irá acontecer, a morte. e nesse sentido, a fotografia como memória/lembrete “ocupa papel central na imaginação no funcionamento da inteligência”. 

marcia, agora, vamos ao segundo trecho de sua ideia, “a sociedade visual nos dá uma enganação sobre a morte que nos mata”. hahahaha, veja que curioso! tal é a própria expressão do conflito com minha primeira e segunda lei. pois a intenção enganadora da sociedade visual que tu dizes, é o que logo acima eu disse como “ocultar para o auto-engano”. pois sozinho/a e vivos/as fotografamos. como um/a morto/a não pode fotografar, uma sociedade também não. a “morte que nos mata” é a própria mortalidade constitutiva de qualquer vivente: do/a fotógrafo/a, da fotografia, seja ela impressa ou em condição digital. e como aqui assumi uma posição mais mecanicista, a lá asimov, e menos moralista, a lá salvacionista, tanto um/a morto/a quanto uma sociedade são desprovidos/as de inteligência em funcionamento. ou seja, não possuem imaginação para tal (minha terceira lei), o único que ocupa papel central é o “ocultar para o auto-engano”. 

assim, levada em consideração a aplicação que fiz de minhas três leis, uma última sugestão, no caso, uma correção: para que uma sociedade visual abandone sua perspectiva enganadora/ocultante e limitante/auto-engano, ela deve se tornar uma associação visual; tornar-se uma associação para o visual, como comumente se fazem uma associação para o crime, ou seja, trazer para dentro de si a terminalidade própria de quem fotografa (nada poder salvar, arbitrariedade, imaginação inventora) e da fotografia mesma (suporte de pensamento imagem, memória/lembrete). 

léo, amante da heresia




rosto de árvore tombada – asa sul – brasília | léo pimentel | 2010



05 [(cor)respondência quinta] - o retorno do diabolus à marcia tiburi

05 
[(cor)respondência quinta]


assim falou marcia: “a vida produtiva de um fotógrafo é sempre o testemunho complexo que nos põe em conexão com a própria função da memória.” 

uau! essa afirmação é uma descrição genial de “um sistema para se especificar uma ênupla de escalares a cada ponto num espaço n-dimensional”, ou seja, uma bela descrição de um belo sistema de coordenadas. sendo a primeira coordenada, a relação entre “vida produtiva” e alguém que a vive, no caso, um fotógrafo; a segunda, nós em relação ao que fora produzido ao longo dessa vida e; como espaço n-dimensional, a memória. disto podemos pensar, de forma bem imaginativa, coisas muito interessantes sobre a função-memória da fotografia. seria ela algo assim? uma série de fourier?


porque esta fórmula? pela razão de que ela trata da soma de infinitas séries de variáveis independentes de modo a poder determinar seus períodos constantes, chamadas de harmônicas. e disto possibilitar a lida com coordenadas muito complexas. e falando nisso... será que compliquei algo? não, mas confesso que intimei nossas imaginações a responder por seus próprios limites. sim, achei a série de fourier adequada para ilustrar (sim, ilustrar) sua frase, marcia, pois vejo a matemática muito pouco utilizada para favorecer a imaginação e principalmente, a memória. mas claro, há uma brincadeira embutida nessa intimação. é a ideia do modo como lidamos com o caráter dinâmico e flexível das coisas que nos rodeiam. e tais também se encontram nessas suas palavras. principalmente nas palavras “produtiva”, “conexão” e “função”. 

sigo: o que você sugere, marcia, é que não há uma doutrina da memória, ou seja, não ela é mais uma função variável que opera sobre um fundo de simbologia prática, a fotografia, expressada por um fotógrafo de modo quase imperativa, que substitui a funcionalidade das descrições estáticas e inflexíveis de um registro obsessivamente objetivo. as formas (variáveis independentes) de uma vida fotográfica (primeira das coordenadas) tem uma dinâmica circunstancial determinada pelo fundo simbólico (também variáveis independentes) ao qual pertencem. pois não vai ser igual à configuração pessoal de quem (recorrências infinitas) vê a fotografia. e tudo isso operando em séries e se revelando, mesmo pela soma de infinitas recorrências, em períodos constantes. estes os quais, comumente, nomeamos como memória, o próprio espaço n-dimensional desse sistema de coordenadas “marcianas”: imagens que guardam lembranças e, no entanto, relutam em revelar que se lembra de algo. a função memória torna-se harmônica com a função fotografia, e assim, ambas as funções se revelando como constructos de uma das dimensões do espaço n-dimensional, o inconsciente pulsional óptico. 

imaginemos! coordenadas entre linguagens que vão adquirindo uma grande plasticidade exponencial em seus suportes ao mesmo tempo em que amplificam o sentido comunicacional em tempos e espaços diferentes relacionando nós com todos os outros nós.

assim falou marcia: “mostrar o singular resistindo à dominação do geral.” 

e seguindo a imaginação acima sugerida caberia outra concepção matemática a esta sua frase, marcia? sim! subsequentemente poderíamos atribuir à ela a ideia de “homologia singular”: a fotografia “mostrando o singular resistindo à dominação do geral” seria é um funtor (homomorfismo, formato – composição) covariante (probabilidade de valores esperados entre duas variáveis aleatórias reais – imagens, no caso) entre a categoria (generalização do sem-sentido abstrato) dos espaços topológicos (convergências, conexidade e continuidade) e aplicação contínuas (correspondências entre as variações dos objetos e as variações em suas imagens) e a categoria dos grupos graduados não-abelianos (que dependem da ordem dos elementos do grupo) fotografados e os homomorfismos de grupos graduados abelianos (que não dependem da ordem dos elementos do grupo) fotografados.

complicado? bem, para melhor imaginar a descrição dada no parágrafo anterior, façamos, em paralelo, como o pessoal da matemática faz: sejamos intuicionistas! e para tal, aqui sugiro o seguinte: escreverei, a seguir, uma que corresponderá à nossa atitude, que estamos pensando a fotografia, e em parênteses, como os matemáticos intuicionistas pensam a matemática: o mostrado (a verdade) em uma fotografia (de uma frase matemática) consiste na nossa habilidade de pensá-lo (prová-la) e não de que o mostrado (a verdade) consiste em sua correspondência com a “realidade” objetiva. voilà.

léo, amante da heresia



guindaste abandonado em viñas del mar -  chile 
| léo pimentel | 2012


04 [(cor)respondência quarta] - o retorno do diabolus à marcia tiburi


04 [(cor)respondência quarta]


assim falou marcia: “o advento da fotografia mudou nossa relação com o olhar e o mundo do visível e do não visto. a fotografia constrói a vida das pessoas em todos os sentidos. fotografia e pensamento tem poderes intoxicantes ou curativos.” 

interessante pensar: assim como há experimentos de radiação com seres humanos, pesquisas com armas étnicas, medicina organizada, também há fotografias experimentais testadas em nossos olhos-cobaias. já que a compilação de dados, neste caso não pode ser feita testando em ratos. fazendo um exercício de imaginação de analogia, se a fotografia tem poderes intoxicantes ou curativos, ela deve ser uma espécie de droga por si mesma. assim, sendo, quem fotografa deve desenvolver testes pré-clínicos dessa específica droga aos nossos olhos-cobaias. 

imaginemos um/a fotógrafo/a realizando uma triagem de genotoxidade: como fizeram  alexandre rodtchenko e lászló moholy-nagy que afirmavam ser produtores de imagens, lá pelos anos de 1902 na russia e na alemanha. o primeiro desses fotógrafos escolhia pontos de vista do alto para baixo, de baixo para cima e diagonais. já o segundo optava por visões fraturadas, perspectivas oblíquas e enquadramentos inusitados. essa triagem serviu para que se desenvolvesse um perfil farmacológico da droga-fotografia que mais tarde serviu para a determinar a toxidade aguda da droga por toda a espécie humana. a fotografia alcançara a dimensão industrial. onde estudos de sua toxidade de curto prazo puderam ser realizados com as revistas ilustradas em meados do século xx. 

aqui o problema da droga-fotográfica se encontra no objetivo de testes para a obtenção de dados de segurança e eficácia. imaginemos a revista brasileira “o cruzeiro”, surgida em 1928, partindo dos testes de triagem de genotocidade de rodtchenko e moholy-nagy, para a criação do que ela mesma chamou de pedagogia do olhar. pedagogia!? não foi platão que fizera essa relação entre pedagogia e pharmakon? sim, marcia, vc tem razão estão fazendo testes de laboratório com a gente e não estamos sabendo disso.

assim falou marcia: “as imagens críticas são aquelas que convidam a pensar, não tentam convencer, mostram mas não obrigam a crer.” 

sim, marcia, para tal é preciso desassociar fotografia de pharmakon. ou seja, é preciso desassociar a fotografia da pedagogia e afastá-la de platão... e de aristóteles também! a fotografia não revela dimensões invisíveis do real nem mesmo possuem a correspondência das tabelas de verdade entre proposição e mundo. sendo assim, a nossa experiência visual é que deve ser deseducada até a má educação: não é instrumental, nem racionalizável, nem essencialmente abstrata. desse modo estaríamos sem a obrigação de sermos urbanos/as civilizados/as. teríamos a bela experiência visual selvagem e anarco-primivista de não darmos conta de um mundo repleto de imagens e signos. 

desconfio que imagens críticas não existam, já que a tecnologia nos exige cada vez maior destreza e rapidez para realizar suas tarefas e para assimilarmos suas informações e imagens de estímulo ao consumo. tais destreza e rapidez nos tornam pessoas arrogantes, já que nos sentimos capazes de julgar todas as coisas de modo imediato. para mim toda imagem é inocente. pois ela é incapaz de fazer algo. no entanto, nós videntes, não! pois nos constituímos incapazes de suspender juízo, de guardar silêncio, de nos mantermos retirados/as, de escutar, de ver. vivemos em um tempo em que ninguém pensa, mas todo mundo tem suas opiniões “próprias” e “pessoais”. 

assim falou marcia: “a questão central da obra de sebastião salgado é a mistificação que transforma o sofrimento em objeto de consumo. a fotografia só tem sentido quando ela respeita o silêncio e o que não cabe em sua lógica.” 

aqui também assumo a perspectiva reversa do parágrafo anterior. não penso que seja a fotografia a guardar silêncio, mas sim quem a vê. pois é preciso ruminar o silêncio. ver não exige uma certa afinidade topológica entre a imagem e quem a vê. exige-se uma vitalidade. quem vê não pode ser o resultado uma organização topográfica hierarquizada. deve sim, ser resultado de disposições anímicas mais profundas: personalidade, vivências, instintos, entranhas e humores. as imagens não pensam. um cérebro sem estímulos também não. somente há pensamento no intervalo entre esses coexistentes, no silêncio do cérebro a partir do que gritam as imagens. sim, as imagens não passam de gritalhonas.

aqui podemos resignificar o “olho-gordo”. sem ruminarmos o silêncio, este tempo de metabolismo, se dá o sedentarismo da visão, cujo resultado é a obesidade mórbida do olhar. pois se retém demasiado. 

léo, amante da heresia



estação ipanema/general osório - rio de janeiro | léo pimentel | 2012

03 [(cor)respondência terceira] - o retorno do diabolus à marcia tiburi



03
[(cor)respondência terceira]


assim falou marcia: “ao que não podemos dar nome nos amedronta. (...) talvez o ser da fotografia é a flutuação.”. 

marcia, por vezes me pego pensando nessa coisa da estrutura fundamental disto ou daquilo. e logo vejo a armadilha que se abre sob nossos pés: isto ou aquilo deve ser ele mesmo e não um outro. e isto é o que lhe dá valor e finitude.

mas... e estas coisas, como a fotografia, que como você diz, “flutuam”? seria uma propriedade delas, nossa, ou da interação? princípio da incerteza de heisemberg? flutuação quântica? se assim for, a fotografia é algo muito interessante, pois possui, pelo menos, mais de um “observável” ou... “nomeável”. ela mesma guarda uma incapacidade de deciframento; mas não um vazio completo. o que poderíamos chamar, parafraseando a física quântica, de “decifração mínima”. algo que pode implicar o naufrágio da nomeação como parte de uma explicação progressiva, mas jamais um estado zero dela. para nomear, é preciso escolher, para que, ao escolhido, nos preparemos com algumas ferramentas para tal. pois para decifrar uma fotografia deve-se escolher um observável de cada vez: ou que ela represente algo (uns já a denominaram de “o instante decisivo”, outros de “o teatro do instante”) ou que o mundo conceitual é seu universo de significado (como as “imagens técnicas” de flusser). o melhor da escolha do “observável” é que a fotografia torna-se uma visão de mundo e um mundo – ela mesma e uma outra coisa. a ela escapa o inconveniente de ser insubstituível.

a fotografia jamais se sente sozinha para brincar (decifrar/nomear/explicar). ela é travessa. não precisa se desculpar por existir de modo imperfeito e impreciso. seu campo da incompletude e da flutuação é sua propriedade fundamental mínima de que, ela não pode ser qualificada univocamente. ela é duas com pretensões de ser três: o/a espectador/a está integrado naquilo que é observável. interessante dessa decifração mínima da fotografia é que ela exige, qualquer que ela seja (desportiva, subaquática, publicitária, jornalística, aérea, retrato, macro, micro, de glamour, ou artística), um viver a fotografia, não apenas observá-la. o que faz com que embaralhemos os tipos de fotografia e os atribuímos a nós enquanto vivência. assim, posso viver publicitariamente uma fotografia jornalística. do mesmo modo que posso viver um retrato como sendo desportiva. ou uma aquática como sendo aérea. e por aí vai.

léo, amante da heresia



pixinguinha - travessado ouvidor - rio de janeiro | léo pimentel | jan | 2012


02 [(cor)respondência segunda] - o retorno do diabolus à marcia tiburi


02
[(cor)respondência segunda]


assim falou marcia: “a fotografia, não apenas como superfície que guarda uma memória, é ela mesma um gesto de memória”. 

marcia, hum... fotografia... mais um suporte de comunicação... o que ela é enquanto superfície? letargia? e enquanto gesto? brincadeira de estátua? penso que faríamos um bem danado à fotografia se a libertássemos da memória enquanto tempo da história. e assim, livre ela seria apenas forma de outro tipo de tempo. forma mochileira de invenção mítica, ou seja, de pensamento. desse modo a fotografia e sua mochila nos faria pensar (tempo profundo e transversal – revivente e anacrônico) e não apenas lembrar (tempo superfície e histórico – cansado e crônico). a memória sem matizes anacrônicas é algo pesado e ama respeitar as fronteiras. o pensamento não. no entanto, o crônico é necessário. pois é ele quem vai deixando o rastro de nossa revivência. fotografia mochileira e cigana. fotografia caminho e caminhante. fotografia processo vivo que já foi somente enquanto continua sendo. 


assim falou marcia: “a fotografia nos ensinou a ver”.

marcia, assim como nos des-ensinou a ver? o que vemos e o que não vemos? ostentação e descrição? um instante decisivo e arranjo teatral do fotografado? o dentro e o fora da cena? o olhar de quem fotografa e o olhar de quem vê a fotografia? detalhes invisíveis à atenção e o acaso previsível de algum fenômeno? referência e mediação? iconicidade e representação? ver e fazer ver? retenção de tempo para o movimento do olhar? visibilidade e vivenciabilidade? sim, é preciso um pensar crítico e atuante sobre uma possível pedagogia do olhar e do ocultar; sobre mais esta brincadeira de criança; sobre esta pedagogia industrial e de infantilização; sobre este dia a dia ilustrado que induz a um mesmo pensar (deixar de pensar sobre o mundo) e a um mesmo agir (pensar apenas sobre o ilustrado); sobre este reforço da normalidade. precisamos de um olho que pensa; de uma visão que não fetichize suas próteses; de um olho que desconstrua a realidade da fotografia em sua pretensa objetividade e veracidade. mesmo destas que compõem “nossas” memórias artificiais, como o facebook, por exemplo. 


assim falou marcia: “a vida digital dispensou o analógico que já tinha iniciado a dispensa do corporal”.

marcia, penso o corporal sempre como a nossa dimensão do vivido. do lado da fotografia, penso o corporal como sendo a dimensão dela que nos suga, enquanto a estamos vendo, para dentro de sua dimensão imagética. um ato de sucção que constrói os nossos sentidos. desse modo, tanto o incorpóreo do analógico e do digital, somente assim o são, enquanto puramente visual, ou seja, enquanto exigência de presença para mera visualidade; enquanto o visual não for realizado enquanto globalidade do sentir. do outro lado, a dispensa do corporal é de inteira responsabilidade nossa. nós somos quem estabelece os limites de nossa visualidade mesma. dois bons exemplos disso são: aquelas irritantes faixas amarelas nos chãos dos museus que nos impedem de lambermos as obras de arte, e aquela pressa que temos de pensar que já sabemos, pela simples olhadela, o que está presente numa fotografia. 


assim falou marcia: “enquanto a fotografia revela o inconsciente óptico, a filosofia revela nosso inconsciente conceitual”.

marcia, adorei esses dois tipos de inconsciências reveladas! ainda mais por me fazer pensar nessa “revelação” como sendo o resultado de um processo químico, como o da fotografia, e não um processo divino, como o da religião, ou um processo de desvelamento como o de aletheia, como o na filosofia tradicional. como você colocou, a filosofia torna-se química pura. também na medida em que dizemos que há uma química entre duas ou mais pessoas. você sugere que fotografar e filosofar tem este tipo de química profunda, mais do que a situação de que um ato serve de metáfora para o outro. você sugere que há um processo químico que revela nosso inconsciente conceitual! e este processo, poderíamos reconstruir da seguinte maneira: há, pelo menos um conceito latente registrado em nosso “filme” inconsciente que vem à tona por concentração ou diluição de algum agente (química entre alguém e aquilo que a faz pensar), temperatura (seu estado de humor), agitação (o corporal enquanto dimensão do vivido) e tempo (aquele cônico e anacrônico falado acima). para além da metáfora, um exemplo aplicado a você, marcia: o conceito “filosofia cinza” estava registrado em seu “filme” inconsciente erótico, onde seu corpo é um texto, que veio à tona por concentração do agente “evisceração”, da temperatura “melancolia”, da agitação “desvio e isomorfia” e tempo crônico da investigação e do anacrônico “do acaso da descoberta”. 

léo, amante da heresia 


estátua de sapho - praça pública em ilhéus | léo pimentel | out|2012

o retorno do diabolus: missão fotográfica

diabolus|fotografia: uma [re]volta – sim, todo mundo pode tirar fotografias, editá-las e compartilhá-las! sim, notas imagéticas do dia a dia! mas... como pensamos com elas? pensamos com elas? se por fotografia entendemos: reviver experiências vividas (memória); um conjunto mais ou menos articulado de imagens sobre algo (conhecer); um tipo particular de força ou de intensidade que atua como modelo de comportamento (valorar); e fazer isto e/ou aquilo de acordo com as possibilidades dentro do universo fotográfico (agir); então a fotografia é um dos principais meios de robotização do pensamento. porém, o que marcia tiburi pretende, em diálogo|fotografia com luiz eduardo achutti, é a inquietude diante dessa robotização. excelente catalizador de nossas perplexidades. saborosa forma de indisciplina para continuarmos pensando. femme qui courent avec les loups.

tudo ia bem no diálogo, se não fosse, mais uma vez... a outra parte... sim, ao fim de minha leitura do livro, acabei por preferir somente as cartas de marcia – femme sauvage. e, em meio a esta preferência, ele novamente saltou em minha frente, intrometido, impulsivo, sorrateiro e dançarino. quem? o diabolus! sim, o diabolus! ele voltou! um brinde de rum com chá preto, eu o saúdo!

de imediato, apaguei de minha memória todas as cartas que luiz achutti tinha respondido. amnésia voluntária e interesseira. em seguida me coloquei em seu lugar. e assim, foram inventadas estas páginas, estas segundas respondências, as quais nomeei de "o retorno do diabolus: missão fotográfica"!

eis a primeira!


01
[primeira (cor)respondência]

assim falou marcia: “a morte da fotografia teria que ser compreendida como a morte da técnica junto da morte da arte”.

marcia, gosto muito de pensar a morte das coisas. a terminalidade de cada coisa que um dia foi iniciada. e falar sobre isso é como contar histórias de fantasmas para adultos. desse modo, começar a falar sobre a fotografia a partir de seus aspectos noturnos me interessa muito. chego a pensar, tal qual schopenhauer em seu “ensaio sobre as visões de fantasmas”, que a fotografia pode ser uma espécie de condutora ao reino telúrico, obscuro e tenebroso da psique, um reino sempre eclipsado pela claridade da razão, luminosa e solar, que de vez por outras, deixa escapar uma obscura beleza à luz dos pálidos raios lunares, origem de toda arte. a fotografia em seu lado noturno. a fotografia em sua morte. então vamos lá:

morte da fotografia: morte do inconsciente óptico em seu constructo técnico que veicula um pensamento, um pathos, um agir;

morte da técnica: morte do como das coisas em seu circuito total que inclui ferramenta, ao menos duas pessoas e um ambiente;

morte da arte: morte de uma quimera mitológica que aprendemos a chamar de “eu”.

três mortes do despertar e do promover ideias, ideações, movimentos do pensamento, formas que pensam, que nos põem a pensar – no entanto, morte de nossa suspeita de que elas nos formatam. história(s) morta(s) da imagem, da imaginação, do saber olhar. continuemos...

na arte e na técnica da fotografia parece que, em seu aspecto diurno e auroral, nos importa o que elas, enquanto sistema, pensam ou o que nós podemos pensar sobre elas. no entanto, em nossa história de visões de fantasmas, nossa opção pelo aspecto noturno e crepuscular, nos importa mais, o que com arte/técnica/fotografia, contra arte/técnica/fotografia ou a partir de arte/técnica/fotografia somos capazes de pensar/sentir/agir – ver em direção ao desconhecido, para além de uma hermenêutica do visível. nesta morte anunciada por marcia, que neste momento de anúncio adquire a imagem de um corvo, há um desmonte dos pressupostos hermenêuticos da conservação da tradição, da constituição de uma comunidade e da formação dos indivíduos. um anúncio de um para além da formação [forma(t)ação] e do sujeito [(as)sujeitamento]. marcia anuncia que a arte/técnica/fotografia morre cada vez melhor. porque sua(s) morte(s) continua(m) produzindo visões novas, visagens nunca vistas. assim como há ressurreições do mesmo cada vez piores, como por exemplo, a “retomada” (1995-2005) do cinema brasileiro – mas esta é uma outra história de fantasmas para adultos...

léo, amante da heresia


foto tirada no cemitério de salobrinho em ilhéus | léo pimentel | out|2012

cangaço intelectual

cangaço intelectual – contribuição contra o coronelismo intelectual e seu serviçal


em 4 de março de 2012, marcia tiburi nos presenteou, em seu blog, com um interessante tesouro: “9 teses contra o coronelismo intelectual”. à época, retribui tal guerrilheiro gesto generoso, com o seguinte comentário: 

marcia, genial estas tuas 9 teses. o coronelismo intelectual vem se sofisticando a cada momento. principalmente com a situação hoje de que ele foi tornado uma espécie de bem-feitor; um guardião da moral e dos bons costumes de cativos e cativas do pensamento. é só dar uma boa olhada no que se anda produzido (estilo literário e conteúdo) para cumprir as normas e pontuações da capes, cnpq, etc. e mais, no mercado editorial brasileiro (que já começa suspeito por ser mercado) tudo o que já foi dito milhares de vezes e tudo aquilo que não precisa ser dito é exatamente o que se publica. o que deve ser dito não tem espaço (claro, que às vezes escapam algo, como os seus livros e uma publicação aqui e outra ali publicada pelo bolso de quem escreve). concordo contigo e tomo como inspiração primordial, o combate que tu apontas contra esse protagonista perverso que é o coronel intelectual; o antagonista necessário dessa relação agonista: o cangaço intelectual (sua sexta tese) – lampiões e marias bonitas do pensamento brasileiro, uni-vos! (para não perder essa boa frase – rs). 

o pensamento seguiu e, em 15 de junho de 2012, marcia nos presenteou novamente. desta vez com o texto intitulado “coronelismo intelectual”. e assim, novamente, quero retribuir-lhe. só que desta vez, desenvolvendo mais o que lhe atribui como sendo resultado de sua sexta tese (“o coronelismo intelectual odeia a invasão dos sem ideias no território das ideias prontas. contra ele todo assalto é desejável.”) o antagonista necessário, o “cangaço intelectual”. 

cangaço 

o cangaceiro e a cangaceira nada conserva. no entanto, há muitos cuidados. cuidam por não nos revelar a verdade interna das suas vidas. mas que nos deixam rastros: seus modos de combate, o que cobiçavam, o terror que semeavam quando passavam, suas festas, seus jogos e seus lugares preferidos. e são nestes rastros que me entregarei a uma verdade do cangaço como inimigo à altura da verdade do coronelismo intelectual: a falta da vaidade em dar sentido a sua própria morte – armados e armadas da cabeça aos pés, com a insurgência vertiginosa sendo sua dimensão original confundida com o seu ser: ser-no-mundo enquanto apropriação radical da liberdade transformada em sua própria fatalidade. eis-me aqui, enquanto cangaceiro intelectual, ora como anarquia, ora como socialista selvagem, ora como niilista determinado. nenhum coronelismo intelectual pode conter (universitalizá-lo – aldeamento da titulação), cortar suas presas e unhas (pacificar – ocupação permanente do comentário) ou mesmo se apropriar (martiriza-lo – torna-lo herói trágico de uma produtividade acadêmica) desse tipo especial de ser-no-mundo. 

cangaço intelectual 

rastro 1 – modos de combate: o cangaceiro e a cangaceira intelectual, ambos são insurgência luciferina ou do apocalipse contra a ordem coletiva de silêncio e de debate inexistente; são insurgência utópica ou da liberação territorial contra o feudalismo de especialistas; são insurgência brutal ou instintiva contra o fundamentalismo exegético; são insurgência social ou marcha coletiva rumo ao livramento da sacrossantificada informação dos “discursos verdadeiros”. 

rastro 2 – o que cobiçam: os mitos revolucionários são purezas celestiais. os mitos de insurgência cangaceira são libertinas; possuem o cru como transcendência; preservam belos tons negros na alma; possuem a pureza do inferno; e lapidam sua perfeição no desespero do ser. desse modo pilham as mercadorias da contra-reflexão e as usam, não como descrições das coisas, mas como expressões de vontades. não se perguntam se uma titulação pode lhe trazer ou não vantagens diretas numa diplomacia habilidosa, mas se perguntam o que resultam de sua introdução no pensamento livre e da autocrítica. 

rastro 3 – o terror que semeavam quando passavam: inesgotáveis sequências de monstros (mostram o quanto se idolatram livros, temas e palavras) e de insensatos (desprezam o lugar que a autoridade ocupa no mundo), de quimeras (criaturas perversas do fim dos tempos divididas entre a aceitação e a recusa), de dragões (singularidades da revolta de dolorosas maturações cujas ideias têm a violência de um corisco), de górgonas (entregue ao exílio irreversível já que o regresso é proibido) e de licórnios (se trabalham é para ganhar a vida sem trabalhar). não é hereditário, nem envelhece. 

rastro 4 – suas festas e seus jogos: festas e jogos de contra-sociedades. exploram a superfície do universo onde o acaso o fez nascer. não planta nem edifica. detestam a sociedade policiada de seu tempo e espaço. parodiam professores, professoras, estudantes, sábias, leigos e todo tipo de lacaice intelectual. viram do avesso o próprio futuro. impõem à reprodução do mesmo uma forma grotesca acentuando o ridículo burlesco das consequências do coronelismo intelectual. colocam-se acima das leis do autoritarismo intelectual respondendo às ofensas que essas leis lhes fizeram. 

rastro 5 – seus lugares preferidos: todos aqueles que servem como espaços de agir sobre o presente. lugares libertos dos procedimentos de discussão corriqueiros entre políticos, filósofos, ou pessoas ditas autoridades com pretensões à ciência prática. agrestes intelectuais que se definem como liberdade, natureza, supra-sociedade, abertura e horizonte. estar à vontade nas anomalias. é o espaço dos sonhos de infância estregue à perversão: a vida como um jogo perverso de recusa ao lugar no mundo dos adultos. emancipação de toda tutela (educação, robotização e plastificação) e de toda maioridade como simples ordenamento e proibição.

léo pimentel - amante da heresia

agora, em versão livro! diabolus|desenho - léo pimentel - 2011


num diálogo comum, duas ou mais pessoas falam e escutam intercaladamente. marcia tiburi e fernando chuí assim se propuseram em seu projeto diálogo/desenho. falaram e escutaram, mediante a troca de correspondências. a intenção de ambos era a da troca de percepções, experiências e reflexões sobre a questão do desenho. o resultado é fantástico. muito inspirador. porém...

em todo o momento de minha leitura, eu era tentação inquieta. sentia-me um terceiro excluído. eu queria falar. ser um inturmão, como dizem. um intrometido. meter o nariz onde não é chamado. mas... eis que de repente, não mais que de repente, saltei de minha inquietação. saltei como um intervalo de três tons correspondente a uma quarta aumentada. uma entoação difícil. um trítono – como os medievais diziam – saltei como um “diabolus in musica”. insurgência diabólica. meti o bedelho bem no meio desse profícuo diálogo. pura má educação; perturbação dos bons costumes. assim, arbitrariamente, escrevi um diabolus/desenho. Já que o símbolo é aquele que une e o diabolus aquele que separa, divide. dividi. sem permissão, omiti todas as correspondências de fernando chuí. o silenciei para ficar em seu lugar. o silenciei para ficar apenas com as escritas pela marcia tiburi. ah... belíssimas e inspiradoras idéias! 

eis as minhas cartas às de marcia.

léo pimentel, amante da heresia






o nascimento de uma quetzalcoátl :ou: dos cinzeiros de uma medusa cúbica invertida


após diabolus/desenho (experimento inturmão com o diálogo/desenho [1]), fui presenteado, pela própria marcia tiburi (http://filosofiacinza.wordpress.com/), com um exemplar de sua obra-prima “filosofia cinza – a melancolia e o corpo nas dobras da escrita” [2]. já fiquei fascinado (canto de sereia) desde o título. assim, ébrio, abri o li. adoravelmente uma dedicatória saltou em mim (mensagem ao mesmo tempo futura e póstuma). sua técnica de ataque foi a mesma de uma vespa-do-mar [3]. tentáculos ágeis me envolveram e me inocularam saboroso e mortal veneno. porém, marcia me alertara: “toque de medusa ao contrário”. sim, primeiro “toque de medusa”, que ao invés de cobras tinham delicados tentáculos saindo de sua cabeça. que ao simples contato com minha pele, abriu-me feridas e inoculou-me cinzas e brasas. em seguida “ao contrário”: ao invés de um colapso generalizado em meu corpo, fui tornado quetzalcoátl [4]. com essa nova pele e forma, “serpente emplumada”, “pássaro serpente da guerra” (para astecas, toltecas e maias) voei sobre a filosofia cinza de marcia tiburi em busca da melancolia e do corpo nas dobras da escrita.

notas:
[1]  tiburi, marcia e chuí, Fernando. diálogo/desenho. são paulo: senac, 2010.
[2]  tiburi, marcia. filosofia cinza – a melancolia e o corpo nas dobras da escrita. porto alegre: escritos editora, 2004.
[3] tão bela como letal, a vespa-do-mar (chironex fleckeri) é uma medusa cubozoária. famosa pelo poder de seu veneno. tão poderoso que pode matar uma pessoa em 2 minutos. tal eficácia torna o resgate muito difícil. um única vespa-do-mar carrega veneno suficiente para matar aproximadamente 60 homens adultos.
[4] inventor dos livros e do calendário; doador de milho para a humanidade; às vezes um símbolo da morte e da ressurreição 

diabolus/desenho: la última [cor]respondência

à carta XXVII
(décima quarta e última [cor]respondência)

márcia,

chego ao fim. esta como experiência da terminalidade de todas as coisas (minha ausência logo será preenchida por uma outra coisa). a última [cor]respondência. nenhuma saudade ou nostalgia de começo (é preciso rir da fênix). rir e seguir. sigamos assim, livres, portanto, sem esperanças (nem passadas nem futuras). márcia, em sua última carta você a começa pensando a cópia (preocupada com a possibilidade de repetir aristóteles). pois bem, não sejamos antifilosóficos nem antidialéticas. pensemos uma única situação de cópia: elmyr de hory (brilhante falsificador de arte do século xx). sua contribuição para pensar a cópia foi a de torná-la limítrofe (serve como portões do plano material da arte para sua sutileza e espiritualidade). suas falsificações não continham a certeza absoluta; continham a multiplicidade imanente de uma natureza fantástica. elmyr não falsificava obras já existentes de pintores célebres. elmyr pintava obras originais fazendo uso dos estilos de pintores célebres. de forma genial sua copia era a do estilo. ato mágico do traço (vivifica). [continue lendo o texto aqui.]

diabolus/desenho: 13ª [cor]respondência

à carta XXV 
(décima terceira [cor]respondência)


márcia,

foi nesta tua carta que me tornei diabolus. foram duas oportunidades. duas pausas. temor supersticioso da música medieval cristã (não que tua carta seja algo parecido) em dose dupla. essa que não abria brechas. caso abrisse (sequer uma) o diabo entrava e tomava conta (perigo eminente de um exu alegre) foi o que fiz. esperei uma pausa. entrei e tomei conta (sorrateiramente tomei de assalto seu diálogo/desenho). logo após você ter afirmado que “desenho é jogo” (do tipo nem isolado nem fictício). do tipo que comunica com o resto da vida. liga a vida ao jogo e o jogo à vida. que segue o ritmo de uma festa (não aquelas que obedecem a um calendário). festa e jogo desmedidos de riscos consentidos; de riscos desejados. ora jogo de competição (agon, agonia, agonista). ora jogo de acaso (alea, aleatório, apostador). ora jogo de simulacro (mimicry, ilusão, ilusionista). ora jogo de vertigem (ilinix, instabilidade, desequilibrista). e assim,  márcia, nessa carta-música cujo prelúdio se anunciava, como um desenho quanto atividade livre, incerta e improdutiva... uma pausa. associado à vertigem de um jogo de azar, escapei para dentro do dialogo/desenho. não ocupando nenhum espaço reservado e nenhum tempo excluído. ansiosamente, aguardei o segundo momento: o momento em que você discute o rolo compressor do “cotidiano e suas obrigações” e o “desenho com a forma da mercadoria” (tendo a arquitetura como fantasmagoria desta). concordo contigo, a arquitetura é um tipo de fantasmagoria que nos estende um espelho cego. lhe darei um exemplo perto de mim: setor noroeste (novo bairro de Brasília). é o bairro o qual se tem o metro quadrado mais caso do brasil. dizem que os edifícios serão inteligentes (desconfio que seja a de algum tipo de verme). será o primeiro bairro completamente ecológico (para tal desmataram um cerrado inteiro). e, ainda um bairro politicamente correto (que ainda briga na justiça para a retirada de uma pequena aldeia indígena, fulni-ô, que lá está desde a formação de brasília). arquitetura e infra-estrutura alienadas e alienantes (tipicamente brasiliense). [continue lendo o texto aqui]

diabolus/desenho: 12ª [cor]respondência

à carta XXIII 
(décima segunda [cor]respondência)
márcia,

desconfio de nós, olhos atuais. suspeito do não termos tempo. tenho dúvidas sobre nossa capacidade de guardar silêncio. tomo cuidado com as boas coleções de opiniões próprias. minha pergunta aguda no momento se dá sobre as condições de nossas vistas (acompanhar linhas e pontos): olho fixamente em meus próprios olhos e me pergunto: quem é este que olha? logo minha experiência do ver se desloca para além da compreensão do significado do visto. a experiência do ver se dá como um vivê-lo. um eu vivo. só que um “eu” superfície. um “eu” resultado de certa organização hierárquica de intenções (sentidos, disposições corporais, vivências passadas, instintos, temperamentos e entranhas). todas em disposições anímicas. dá-se o mesmo processo quanto a um eu vivo que traceja. tal qual o gato de alice (no país das maravilhas). ver e traçar viventes. ambas expressões de uma persona (personalidade enquanto sistema hierarquizado de intenções). o artista do traço é o mesmo artista do visto. um desenho não pretende transmitir um conteúdo de verdade. não se pretende ser um saber que enfrenta outro saber. nem mesmo pretende instruir um olho. um desenho é expressão de intencionalidade (força que se combine com outras forças). intencionalidade que não visa impor nada. pois sabe, por comparação a si, o quão inútil é (ética e estética) legislar universalmente. esse desenho cheio de intenções tem apenas a tarefa de multiplicar perspectivas. intenções de abrir os ouvidos. intenções de apurar o olfato. intenções de aprimorar o gosto. intenções de sensibilizar o tato. intenções de dar tempo. intenções de fazer do traço e do olhar uma aventura (doses de inocência, sensibilidade, coragem e até um pouco de maldade). o resto é temperamento, estado de ânimo, persona. ah, márcia, nesta altura de suas cartas, vejo seus insetos não só com os olhos. vejo-os também com o olfato, com os ouvidos, com o gosto, com as minhas entranhas. aprendi com elas que ver bem é ver com todo o corpo (mesmo que o desenho, corriqueiramente, se comunique com a visão). eu até chamo seus insetos de “insetos-intenções”. [continue lendo o texto aqui]

diabolus/desenho: 11ª [cor]respondência

à carta XXI
(décima primeira [cor]respondência)


márcia,

quando o desenho, o esforço de olhar assemelha-se ao esforço de pensar: “o traço a escolher é como a melhor palavra a ser usada”. esse melhor traço a ser usado é o nosso incômodo. nos incomoda por estar à espreita a redução de uma engenhosidade a um constructo básico. um poder de reduzir para facilitar ao crítico e ao leitor. reduzido o pensamento não é mais pensado: espaço aberto para o costumeiro. no entanto, o incômodo pode ser insurgente. insurgência de um pensamento em ato. este não conhece nem reprodução nem fotocópia. lança-se adiante. assume o risco de se perder para encontrar alguma coisa. um nome me vem à cabeça: miyamoto musashi (famoso ronin japonês criador do estilo de luta com duas espadas “niten ichi ryu”). considero esse ronin (samurai sem mestre) um dos maiores filósofos do traço (inclusive treinei por dois anos este estilo de luta). sua filosofia do traço concentra-se em seu único livro: gorin no sho (o livro dos cinco anéis). uma interpretação costumeira percebe o gorin no sho como um livro de estratégia militar. interpretação ilusionista já que musashi não serviu a nenhum feudo. [continue lendo o texto aqui]

diabolus/desenho: 10ª [cor]respondência

à carta XIX
(décima [cor]respondência)

márcia,

percepção (pessoal e própria) e  representação (impessoal e cultural): como se relacionam? eis que partes de uma relação conflituosa. conflito. seria uma luta? um jogo? ou um debate? no primeiro tipo, ou a percepção, ou a representação, faz mal a sua adversária (forças cegas e/ou arte da guerra). caso seja um jogo, uma quer ser mais esperta que a outra (como na bolsa de valores e/ou sorte). e se for do terceiro tipo, a percepção faz a representação viver em sua pele, ou vice-versa (perspectiva e empatia). como sentimos esse conflito? como tudo acima misturado? tu propõe que sim. aceito tua pele: “entender o lugar da relação entre elas, perguntando sobre aquela percepção que ultrapasse a representação”. considero isso com e de muito bom gosto. pois o destino que nos aguarda (transformações destinadas) é o desaparecimento: impossibilidade da volta (entropia e caos).  [continue lendo o texto aqui]

diabolus/desenho: 9ª [cor]respondência

à carta XVII
(nona [cor]respondência)

márcia,

dom e índole. onde teriam sentido estas palavras (desejosos por escapar de serem tomado como conceitos) senão na ordem da religião? na ordem das questões pelos fins e pelos inícios absolutos. é nesse ordenamento que uma questão (sorrateira) nos espreita: enquanto espírito (alma, mente, ou seja lá o nome escolhido) devo nutrir um desprezo pelo mundo. porque nos espreita? pela razão de que isto é um dos piores poderes que tentam exercer sobre eu e tu: símbolos que se apoderam (acoplam virulentamente) de minha carne e ossos. apoderamento (muitas vezes simbióticos) que acaba por gerar a idéia de que, possuído, torno-me um ser espiritual. um tipo especial de ser (de entendimento e coração) que jamais será oprimido ou amedrontado pelas coisas deste mundo. assim, dom e índole fazem sentido em mim: apenas enquanto me vejo refletido num absoluto qualquer. eis a origem da obra de arte: teste e prova de que estou para além de mim mesmo; ou, teste e prova de que este corpo (em constante decadência) possui um espírito em constante ascendência. individuação possível pela tomada de posse de mim pelos símbolos (como numa espécie de golpe de estado imaterial). concordo contigo márcia, o dom, nada mais do que, uma espécie de sorrateiro ocultador do processo de criação; e a índole, nada mais do que, outro sorrateiro ocultador. a índole oculta critérios, medidas e intenções para com o/a outro/a. sem ocultar (e sem perder a maestria na ironia e no despiste) tento dizer algo que já mal pode ser dito sem densas confusões sobre a figura traga à discussão: hitler. não tenho o menor problema com tal (pois minha indiferença é radical). tenho problema sim com todos os/as anônimos/as ativistas de sua política (estes/as sim estão loucos/as para saltar em minha goela). pergunto: porque hitler é, “em sua índole”, o grande vilão (oculto e insondável) e não seus apoiadores? um fantasma (ou símbolo) não pode ser vilão de nada. não é nenhum eu sem corpo que assombra o universo. esse assombramento é toda uma educação orientada para produzir em nós certos sentimento. [continue lendo o texto aqui]

diabolus/desenho: 8ª [cor]respondência

à carta XV
(oitava [cor]respondência)


márcia,

adoro pensar o tema da micropolítica (nenhum novo absoluto, ideal). pois implica a insurgência e a rebeldia de um em-si-mesmamento (cuidado de não se deixar cair no erro da religião: transfigurar o indivíduo em humanidade que tem uma destinação). insurgência contra qualquer princípio de um querer fazer de nós (cada uma de nós) alguma coisa (cristão, cidadã, etc.). rebeldia contra a insatisfação do “sujeito abstrato” atual (do “deveis ser perfeito”). assim amplio sua percepção para meu diabolus emergente: diabolus/desenho como exercício de micropolítica. não estou aqui trazendo um novo ideal, uma nova aspiração, novos tormentos, uma nova devoção, uma nova divindade, uma nova contrição. aposto na exclusividade. aqui sugiro, enquanto método, o desrespeito ao dever de considerar sagrada a não intromissão. um diálogo não deve ser entendida como propriedade em sentido burguês (propriedade sagrada). que eu tenha de respeitar a “tua” propriedade” ou a “dele” (me permito aqui uma generalização de ti, márcia, e do fernando). [continue lendo o texto aqui]
quando falamos "eu penso que...", quem será que escondendo? a voz do pai? da mãe? dos/as professores/as? padres? policiais? da moral burguesa ou proletária? ou as idéias de alguém que já lemos? escutamos? ou...
 
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