sugestões de uso deste blog

bem vindo e bem vinda. este é um labirinto herege: um desafio para medir a astúcia de quem me visita; um convite à exploração sem mapas e vista desarmada. aqui todas as direções se equivalem. as datas das postagens são irrelevantes. a novidade nada tem a ver com uma linha do tempo. sua estrutura é combinatória. pode começar de onde quiser. seja de uma imagem, de um texto, de um vídeo ou mesmo de uma música. há uma infinidade de escolhas, para iniciar a exploração, para explorar esse território e para finalizá-la. aproveite.
Mostrando postagens com marcador revisionismo insurgente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador revisionismo insurgente. Mostrar todas as postagens

ep: BOÇALCRACIA - aCIMA dE tODOS (out.19)


décimo ep de meu projeto de break[A]punk pUnk[A]l_sUlUk

por um lado, uma avalanche caiu sobre nós. um mar de chorume saído dos esgotos, nos soterrou após o rompimento de uma específica barragem: a do neoliberalismo | neopentecostal | conspiracionista | burraldo. tal mar podre e fétido recebeu o nome de BOÇALCRACIA. e o seu lema: aCIMA dE tODOS.

por outro lado foram as mutações genéticas anti-humanas que tal mar trouxe à tona: porcos-pastores, patos-patriotas, jegues-filósofos e hienas-criadoras de fake news.
mas nem tudo está perdido, há os gAtos e as gAtAs prEtAs levantando barricadas para bloquear a passagem dessas mutações e do mar de merda que trouxeram.




"Grande Amante da Heresia estou aqui implodindo meu cerebelo ouvindo suas desconstruções desarmônicas repletas de ruídos provocativos! Percebi que você adotou de vez os seus textos no contexto dos EPS com narrações na tradição "spoken word". Sua seleção hipnopunk de colagens marotas e sagazes implode a tessitura do caos contemporâneo, criando conexões inusitadas e impactantes! O pUnk [A]l-sUlUk é o pós-ruído de um retorno à cultura arcaica pós-apokaliptiKa, e o novo EP BOÇALCRACIA.: aCIMA dE tODOS é o hino do nada que nos lambe com sua língua lasciva!" - - - [assim falou Ciberpajé]
 


o bEIjO qUEEr de mInhAs IdEIAs-ArAnhAs

pensar

aqui não tenho de onde começar se não da ideia de que todo pensar sempre é a tentativa de destruir a ordem de deus, seja a da produção (espetáculo, mercado, capital) seja a do desejo (única sexualidade, única libido, de estrutura forte, discriminante e centrada na materialidade do corpo eleito como normal).  desse modo o ‘pensar’ acontece como o ‘viver formas de vida’, de tal modo que nos obriga a re-pensar a criação (arque-genealogia) e a natureza (moral, política, epistemológica, etc.) dos conceitos; onde uma forma de vida necessita de um trecho da visão de outra(s) forma(s) para criar um horizonte/contexto/rede/ecossistema de organização vivencial/afetivo/intelectual. e, é exatamente na tentativa de apreender uma forma de vida em um de seus trechos de visão é que se pode transmitir pensamento, dialogar. fora disso o pensamento se encontra em toda parte, exceto no próprio pensar. 

pensarpolítica

há um “pensarpolítica”, não uma política do pensar ou um pensamento político. pensarpolítica é a forma dominante de uma forma de vida obrigatória onde o que ali se pensa não tem como função o pensar mesmo. é um pensar em práticas e com determinados códigos que entra no design do poder – como o pensar promovido pelos meios de comunicação de massa (“pensarás isto ou não pensarás nada”) e produzidos pelos meios de circulação e ensino do pensamento especializado das universidades (“pensarás isto ou não há o que pensar”). é um pensar que faz de todo pensamento, fala e discurso, tecnologias de normalização e controle das formas de vida – administração e gestão calculada do pensar como um regime-pensamento direcionado para a indiferenciação e para a neutralização. tecnocracia destinada a produzir pensares sem pensamentos. fora desse cálculo em administração e gestão, o que há é pensares anormais, pensares variantes, pensares queers – pois para estes, pensar é viver como forma(s) de vida(s) e travestismo(s) afirmativo(s) que reduplicam o ser como potência(s) política(s).

transpensar

transpensar é a insurgência do pensar sobre o pensarpolítica. é insurgência contra qualquer pensar totalizante da história, da realidade social, da cultura, da linguagem e dos fenômenos subjetivos. é insurgência contra as tendências que universalizam de imediato sua criação/invenção/composição de pensamentos. se o pensarpolítica quer se assegurar como lugar estrutural de desdramatização (ocultamento dos conflitos de interesse em todos os níveis), o transpensar se move com explosivos pronto para qualquer implosão. prontidão esta que se compõe como peculiares ironias de práticas artificiais (o artificial não é o oposto do natural, mas sim o mais natural do natural), desidentificação (transbordamento da identidade pelas suas margens), identificações estratégicas (desnaturalizar diferenças identitárias), desvios (mimese desviada, paródia, performance, margens) e desontologizações (liberar pontos fixos que interrompem a liquidez, o fluxo, a incerteza, o acaso, a aposta e a circulação do psíquico, do sexual, do pensar).   

transpensamento

um transpensamento é uma criação/invenção/composição desde um conflito reflexivo dramatizado (nada de melodrama) entre o sujeito deslocado da enunciação científica, com a multiplicidade de sujeitos possíveis que insurgem contra os saberes/vidas sujeitados/as. é um gesto à experimentação (crua e, muitas vezes, indigesta) e ao risco (dual e antagônico). é linha de fratura que desafia operando transfigurações. é variante e instaura outras ordens de materialidade, como por exemplo, uma linguagem/manifesto/ação queer que desmistifica conceitos, que desontologiza sujeitos da política, e nos alerta sobre a sobremitificação de mitos usados, tanto pela cultura “nativa” quanto pela cultura globalizada, para fins de oprimir corpos e ideias. não é preciso ser especialista, ou fazer parte de um grupo privilegiado, ou ainda, ter qualquer espécie de pacto social ou de gueto, para ser capaz em ter sucesso no deciframento de tal criação/invenção/composição. mas é preciso um determinado esforço reflexivo, um engajamento epistemológico. no entanto, é válido lembrar que um transpensamento não está condenado nem ao silêncio, nem ao calar-se forçadamente, mas sim a uma surdez voluntária que atua como violência da coisificação – preconceito cínico do fazer desaparecer. surdez esta que estigmatiza o transpensamento com uma resistência à “importação”, tratando-o como imigrante clandestino e ainda, reduzindo-o, antropológica e etnologicamente, à expressão de minorias exóticas e condenadas à circulação de guetos.  

três exemplos

[1] o famoso aforismo einsteniano ‘deus não joga dados’ (gott wuerfelt nicht) adquire, em português, um significado ainda mais profundo que o pretendido. einstein quis dizer que os ‘dados’, isto é, pedras de jogar, não são protótipos dos fenômenos da natureza, porque esta obedece a regras preestabelecidas. em português surge o segundo sentido de ‘dados’ como matéria-prima do conhecimento. menciono isto a título de curiosidade, como exemplo de uma ironia (quem sabe sabedoria?) espontânea da língua. – vilém flusser (“língua e realidade”, 2007)

[2] “a sexualidade é muito comparável às línguas. aprender outra sexualidade é como aprender outras línguas. e todo mundo pode falar as línguas que quiser. há apenas que aprendê-las, igual à sexualidade. qualquer um pode aprender as práticas da heterossexualidade, da homossexualidade, do masoquismo...” – paul b.preciado (“manifiesto contrasexual”, 2002)

[3] “in my language” (video) de amelia baggs: “the first part is in my "native language," and then the second part provides a translation, or at least an explanation. this is not a look-at-the-autie gawking freakshow as much as it is a statement about what gets considered thought, intelligence, personhood, language, and communication, and what does not.” (2007)


léo pimentel, amante da heresia, outono, 2015

Uns cAUsOs dE E-mAils fAntAsmAs

uns causos de e-mails fantasmas

ouve-se daqui e ali relatos assustadores, avisos, conselhos e alertas: não enviar e-mails a ermo depois de meia noite! há muitos becos e ruelas virtuais que cruzam, por antigos roteadores, casarios de servidores mal-assombrados, perto dos cemitérios dos correios eletrônicos que pertencem às sobras assustadoras que, principalmente na madrugada, escondem mensagens que ninguém quer ler. verdade? mentira? só se deixa de sentir arrepios pela coluna quando o despertador toca, anunciando um novo dia.

uma coletânea de e-mails meus enviados depois da meia noite. quem sabe, se com essa publicação eletrônica meus destinatários não resolvem sair das profundezas dos mistérios das antigas caixas de correio eletrônico?




links para baixar o e-livro:

ou

qUEImAndO mIssÕEs frAncEsAs – Um mItO InspIrAdO pOr gAbrIEl

lÉO pImEntEl – 2014

assim como o ezln (ejército zapatista de liberación nacional) se fez um exército que visa desaparecer, na leitura do texto “o que fazer das missões francesas” de gabriel antunes (http://fibral.blogspot.com.br/2014/05/o-que-fazer-das-missoes-francesas.html), me fiz um filósofo que visa desaparecer enquanto tal. já na escrita, me tornei filósofo desaparecido. analogamente à resposta dada por felipe quispe huanca, do egtk (ejército guerrillero tupak katari), ao lhe perguntarem em coletiva de imprensa, porque ele tornara-se “terrorista” “porque no quiero que mi hija sea su sirvienta, tampoco que mi hijo sea sua cargador de canastas”. desse modo, esta presente escrita, segue os passos de rebeldia nas montanhas e nas florestas.

§1. expedições francesas

chove. as nuvens carregadas cobrem são paulo. antecipam a noite. a arquitetura helênica greco-romana mal feita molhada convida a se conformar, a não reagir, a deixar acontecer. encharcado e com uma pequena bolsa trazendo a revolução francesa convertida em fonte abstrata de discursos sobre a liberdade, um galo abre as asas para chamar a atenção. bandeirantes paulistas abrem as portas e as janelas de sua mais famosa universidade para a ave entrar. o galo irritado com aquela chuva tropical esbraveja:

– a aristocracia tem a vantagem de concentrar a ação do governo nas mãos menos perigosas e menos inaptas que as de um povo ignorante. (1)

a nova classe urbano/industrial em ascensão sente-se orgulhosa, pois a questão religiosa e as fragilidades da primeira república brasileira demonstrava fraqueza frente à modernidade. a ave infla o peito e deposita sua pequena bolsa no chão molhado da usp (universidade de são paulo). soberba e já mais calma, ajeita suas penas e, em tom solene pergunta

– como um país “sem história” descobre sua historicidade?

de pronto, corujas brasileiras que foram estudar na europa responderam:

– simples! importando cultura além-mar; copiando leis a partir de modelos europeus, plagiando marcha militares e traduzindo versos para nosso hino nacional!

o antigo galo que em 1500 aqui chegou e, desde aí, com sua coroa, iniciou a condição sistemática da ocupação do território, agora dá espaço para o novo galo (2). este que chega fazendo aliança com a “elite esclarecida” para ser propulsor da realidade nacional. assim a antiga colonização, material, oligárquica e primitiva, adquire ares imateriais, modernizador e profissionalizante. 

§2. um aldeamento francês

os galos têm muitos instrumentos de ataque. agora, com o voo profissionalmente institucionalizado, suas filhas adotivas, as corujas paulistas, querem acabar com outras formas de vida; querem assassinar as memórias de araras-vermelhas, de flamingos, de uiarapurus, de mutuns, de curiós, de uiraçus, de inhumas, de tachãs, de jabirus, de seriemas, de quero-queros, de arapongas (3), assassinar as memórias que as fazem ser o que são. como animal doméstico de seu espírito, o galo e as corujas paulistas, passaram a ter uma mula; passaram a pensar desde um empacamento fundamental. 

a mula empacada, com uma pata enterrada na terra mole da usp, ouvia insistente questão do tuiuiú (4):

– como um país cuja identidade foi imposta desde fora pelos galos invasores, constrói sua própria identidade

irritada e mexendo a orelha, a mula gritava respondendo, tentando tirar a pata enterrada

– mediante o estudo do passado da filosofia europeia que se instaura o filosofar universal como identidade histórica brasileira!

no entanto, perto daquele aldeamento, entre a cruz de pedra que os jesuítas fizeram construir, e um montinho de sementes de abóbora, passava por ali, um antigo carcará que assistia a tudo. mais atrás havia um camaleão brincando com fogo. o carcará dividido, não sabia se ia até o galo, as corujas paulistas, cujos espíritos de mula empacara, e o tuiuiú que os desconfortava, ou se ia brincar com o fogo que o camaleão brincava. mas logo o camaleão lhe faz várias questões

– estamos aqui ou somos um espelho aquilo é nossa realidade ou é apenas um reflexo aquilo é uma luz ou é apenas um centelha é algum caminho ou são apenas alguns passos aquele galo e corujas são guias ou são apenas uma de tantas picadas que levam ao futuro do pretérito

§3. queimando missões francesas

mordicando, o céu arranca a aurora que já floresce na copa das palmeiras, dessa nossa pindorama colorida. distraído com a dança das nuvens, o céu que mordisca sussurrava aos rios voadores (5):

– o que fazer agora do que fizemos de nós querendo seguir às missões francesas mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis

sussurros úmidos desde a bacia amazônica. 

sussurros úmidos que faziam chover sobre a cidade de são paulo. 

– o que fazer agora do que fizemos de nós querendo seguir às missões francesas mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis

sussurros úmidos que encharcavam a cultura filosófica uspiana. 

– o que fazer agora do que fizemos de nós querendo seguir às missões francesas mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis

o camaleão ainda mantinha o fogo aceso. o carcará querendo comer carne cozida. alguns sapos mamelucos que estavam ali às voltas, tinham água na boca. vez ou outra, disfarçada e sorrateiramente, sopravam água no fogo. e sempre fugiam para a água. de lá coaxavam

– mimeses... mimeses... mimeses... mimeses... mimeses... mimeses... mimeses... mimeses...

e isso foi a noite toda. noite que ainda não terminou. 

mas conta-se que, quando a aurora tenta se levantar, ela é sempre impedida pelo chefe do galo e pelas suas subalternas corujas paulistas, mas que, mesmo assim, consegue sussurrar aos rios voadores para que levem a seguinte mensagem

– ou faz-se das missões francesas (e eventuais outras) ocasião de libertação do pensar ou rompe-se com elas.

e o camaleão em resposta segue cantando

– queimemos as missões francesas. e impedir com as brasas que a memória se apague. enquanto a noite não acabar pergunta e responde burn, baby, burn!

_____

notas: 

1. aforismo de napoleão bonaparte.
2. o animal símbolo, tanto de portugal quanto da frança, é o galo.
3. aves que são símbolos dos estados brasileiros.
4. ave símbolo do pantanal (mato grosso do sul), também conhecida como “jaburu”, representa a própria tristeza – (ver “a lenda dos tuiuiús”).
5. os rios voadores são “cursos de água atmosféricos”, formados por massas de ar carregadas de vapor de água, muitas vezes acompanhados por nuvens, e são propelidos pelos ventos. essas correntes de ar invisíveis passam em cima das nossas cabeças carregando umidade da bacia amazônica para o centro-oeste, sudeste e sul do brasil.
_____

para baixar o texto em pdf:

O fAlsO prIncÍpIO dA brAsIlIdAdE - mInhAs ÚltImAs pAlAvrAs sObrE O AssUntO


(texto escrito em forma atonal, como na música de stravinsky


(agitato)
o acaso d’eu ter sido nascido no brasil, me faz um brasileiro? curioso que “nascer” e “nação” remontem ao latim “natus”. o que faz com que, em termos etimológicos, eu seja direcionado a uma questão filosófica de ética negativa a qual, desde já, ambas me convergem para uma mesma obrigação de pertencer e, custe o que custar, persistir em uma “natureza” (“natus” de novo) intrinsecamente dolorosa e trágica – lembrando que a necessidade de natureza sempre supõe algo transcendente à ordem das necessidades factuais e arbitrárias. no entanto, há um indigesto fracasso em toda “mostração” da natureza: é sempre e infalivelmente orientada por temas morais. o que faz com que, ao mesmo tempo, “nascer” e “nação” guardem o caráter insignificante e efêmero delas mesmas: são entropias com pretensões a não desaparecer. é desde aqui que começo a me responder.


(vivace)
em termos oficiais e, portanto, normativos, minha “nacionalidade” é o vínculo jurídico-político que me une a um determinado estado – no meu caso por acaso, o brasil . ou seja, depois de terem me feito nascer (“jus sanguinis” – direito de sangue), me condenando à existência, a um conjunto de pessoas provindas de um mesmo lugar, a uma etnia, tradição, história e idioma, para que eu, involuntariamente, faça parte de um povo, agora, jurídico e politicamente (“jus solis” – direito de solo) me condenam à nacionalidade – já que ser trago à existência não contém mais sentido suficiente, sou lançado para dentro de quórum mínimo de sentido para que minha vida não seja reputada como absurda; inserção da existência em um sistema. ou seja, me obrigam a receber uma segunda herança arbitrária, na forma de dívida apenas, para que eu faça dela outra grande missão e razão/causa de meu viver e morrer: moralização (jus sanguinis) e jurisprudência (jus solis) das ideias de primitividade, de autenticidade e de “puro” precedendo a poluição – aquisição da nacionalidade originária (art. 12, inciso i da constituição federal do brasil).


(con fuoco)
brasileiro nato... nascido aqui, logo brasileiro... brasil: nascimento, nacionalidade e natureza. cidadão brasileiro! gozador dos direitos políticos de votar e ser votado! pois bem, mas, de qualquer modo, essa capacidade civil só me é dada como retribuição ao esquecimento obrigatório de que sou construído historicamente, por jus sanguinis, um filho bastardo. minha bastadia é histórica! história de coisa nenhuma para a memória oficial. por parte de mãe, sou filho de indígenas estupradas e assim também de africanas sequestradas em suas terras e feitas escravas para trabalhar por este solo. e meu pai, ou pais genealógicos, quem seriam? algum africano tornado escravo e arrastado para cá? algum indígena sobrevivente, integrado à ferro, fogo e jurisprudência? seria algum imigrante voluntário buscando melhores condições de vida? algum refugiado político? ou seria algum invasor e violador português? ahá! em todo caso, brasileiro naturalizado, ordinária (involuntário), extraordinária (voluntário), tacitamente (casando) ou infraconstitucionalmente (estrangeiro admitido no brasil durantes os primeiros cinco anos de vida)! impressionante que a eficácia jurídica dos conceitos de “brasileiro” e de “naturalizado” é proporcional às suas imprecisões existenciais. feliz ambiguidade dos termos e de suas respectivas correspondências que contribuem para torna-los vulneráveis e assim tornar esta minha investigação seu maior inimigo: não busco a “verdade” do “ser brasileiro”, busco a “precisão” do “ser brasileiro”.


(bruscamente)
a imprecisão é própria do “ser brasileiro”, pois é uma existência incerta inserida em um sistema de certezas oficiais para que, assim, sua “brasilidade” seja a única experiência, adquirida de tal forma, que se impossibilite qualquer avaliação. ou seja, que jamais se engane quanto aos critérios de seu existir nacional. um tipo muito particular de impossibilidade, pois é a evitação resultante do faltar-se ao conteúdo imediatamente avaliado (dado valor). é algo como um imperativo do tipo “amar coisas vagas e inexistentes sobre todas as coisas”. curiosa falta não destinada à insignificância, ou seja, a não ter a “que coisa” amar. pois não é falta de afeto, mas sim excesso de afeto e imprecisão a “que coisa” apreciar, dar valor. e, amando, excessivamente, se é sempre indiferente ao erro e ao engano – abster-se de avaliar. tal indiferença é o que assegura ao “ser brasileiro” seu maior poder: a invulnerabilidade indiferente ao conteúdo, ou seja, ao “que coisa” amar. para ser brasileiro, o amor (afeto máximo e, portanto, afetividade paranoica – afeto que sobrepõe o “isso não me agrada” ao “isso não deve existir”) basta a si mesmo. pois nada mais além dele mesmo se espera, goza ou aprecia. não há nenhuma experiência para se atormentar, se afligir e sofrer, muito menos se confirmação intelectual. o futuro, projetado como somente amor, substitui o passado, projetado como somente dor e como violações necessárias para o florescimento do amor. a história é substituída pelo amor e pelo esquecimento do que amar, torna-se mero acidente incontornável ao desenvolvimento na radiante nação brasil. eis o significado da expressão “brasil, um país do futuro”. 


(maestoso)
assim sendo, não há brasis (múltiplas culturas ou múltiplos povos ou histórias clandestinas). muito menos um brasil, como um ente (objeto indeterminado) ou um ser (sujeito incerto), para o qual lhe é direcionado várias perspectivas concorrentes, como por exemplo a do/a indígena violada/o, a do africano/a tornado/a escravo/a, a do imigrante voluntário/a (burguês/a ou proletário/a) ou a do invasor português (aristocracia). o que há é um brasil, dado ao mesmo tempo como ente e ser, trago à existência desde uma única perspectiva: a da invulnerabilidade indiferente ao conteúdo (excesso afetivo – subjetividade intransponível), que instaura, por racionalização paranoica (jus solis) e sua práxis irracional violenta (respostas militares). ou seja, a da história oficial. e tal é a própria repetição, um eterno retorno do mesmo, de um ato artificial fundante, sugerido como ato sem alternativa (“natural”), “não-planejado” (“descobrimento”) realizado, oportunamente, sempre como efeitos de um esquecimento (liquidação mágica do passado) e de uma abertura incondicional ao amor (adesão paranoica ao futuro) que se basta em sim mesmo (aceitação do reino estabelecido sem o caráter usurpador ainda presente). e assim, para que eu seja brasileiro, devo esquecer, não avaliar (“dar valor”) e me entregar a um afeto que jamais se engana, para reduzir minha existência a uma mera condição repetidora do ato fundante – já que toda avaliação (sinal de abertura de um agir) e sofrimento (luta corpo a corpo contra os limites e pressupostos oficiais) podem cometer erros. 


(com brio)
para minha presente busca de precisão ao o que é “ser brasileiro”, que querem que eu tome como missão de minha vida, a invulnerabilidade indiferente (a realidade nunca está errada), desmemoriada (reminiscência sem conhecimento) e amorosa (afetividade paranóica) do ser brasileiro, deve não mais guardar silêncio, nem se manifestar como ser oculto e “insondável” para dizer algo sobre:


(gravíssimo)
1. origem do mito chamado brasil: chegou-se em terras que não se conhecia antes. o que fazer? quem responde? um herói culto que quer conhecer? um padre que quer confirmar suas crenças? um aventureiro ou comerciante que quer enriquecer? um soldado analfabeto que obedece cegamente seu capitão aristocrata que está ali por mando e financiamento de seu rei? sim, quem responde?
1.1. princípio original: da certeza moral e do futuro como nostalgia dos jesuítas à sistematizar a ocupação do colonos civis e militares. 
1.2. fixar um modelo para repetição: toda guerra levantada contra povos indígenas são justas, pois não há civilização sem subjugação e estupro. a humanidade é mesmo violenta e tem que prosperar violentamente. – mas o que é “humanidade” mesmo cara pálida?
1.3. repetição e cópia: é natural, “feito por deus”, os/as escravos/as. tanto é assim que pessoas tornam seus/suas próprios/as pares, escravas?


(grave)
2. rito, restaurar o mito: empreendimento da colonização “espiritual” (usar a vida contra os vivos) e territorial (territórios indígenas são terra de ninguém). como fazer?
2.1. focos iniciais de povoamento: engenhos de açúcar, fazendas de criação, sítios agro-extrativos, missões jesuítas, seringais, fazendas de café, de cacau, charqueadas, salinas e, por fim, postos militares. – mas, cara pálida, já não há aqui ocupações?
2.2. tribunais do santo ofício e proibição do tupi para o fortalecimento da língua portuguesa; – mas há aqui alguma heresia ou algum pecado, cara pálida?
2.3. resposta militar contra as resistências indígenas e a formação de quilombos; contra os movimentos messiânicos e os “banditismos” sociais; contra as revoltas populares, ligas camponesas e contra qualquer manifestação diferente da causa nacional oficial;


(adagio)
3. recompensas à eficácia material tornada metafísica da repetição: como garantir que o mito, mesmo sem os ritos subsequentes, perdure? independência!
3.1. receber um estado pronto de portugal: fugindo de napoleão, a família real portuguesa instala-se no brasil importando-o para cá; – ahá! então, cara pálida, o brasil saiu na frente de seus irmãos latino-americanos?
3.2. independência reconhecida mediante pagamento à inglaterra; – ah! outra originalidade brasileira! 
3.3. incentivo imigratório para instalação de colônias estrangeiras no brasil; – é permitido ao estrangeiro tornar-se proprietário de terras assim como há um incentivo para o estabelecimento de colônias. – e onde fica, por exemplo, cara pálida, a colônia africana ou afro-descendente com a abolição da escravatura? ou mesmo um território indígena como coletividade regional autônoma ou uma entidade federada no brasil tornado república? 


(adagietto)
4. viver no esquecimento secular: pós-princípio original (invasão e ocupação), pós-restauração do mito (independência) e pós-recompensas da repetição (brasil soberano). o que está havendo? ah... esses lobbies históricos...
4.1. criação do serviço de proteção ao índio (spi) – regime tutelar do índio – onde povos inteiros são considerados incapazes por si sós a destinar-se comunitariamente, a se dirigirem enquanto pessoas e a administrar seus bens – após uma série de denúncias a nível internacional;
4.2. leis trabalhistas “outorgadas” por getúlio vargas – pacificação messiânica-positivista da luta e das contradições de classes na qual somente a lei tem liberdade de ação em prol da convivência harmoniosa entre classes sociais;
4.3. “marcha da família com deus pela liberdade” – apoiada e incentivada pela igreja com o discurso civil “esperado” pelos militares e outros setores alarmistas da intelectualidade de que o brasil estava rumando em direção a uma “república sindicalista”;
4.4. o movimento pelas “diretas já” – joão figueiredo trabalha, pacientemente, no convencimento dos membros do sistema militar, este já quase morto pelo cansaço, conseguindo o ambiente necessário para a transição pactuada: nova lei eleitoral (eleições livres), seis partidos em substituição aos dois desde o golpe (sistema político democrático) e congresso independente;
4.5. impeachment do presidente fernando collor – a “inabilidade” de estimar os membros do congresso para a mobilização a seu favor, e a ilusão de uma comunicação direta com o povo que tinha tal presidente, ambas aliadas ao forte poder de articulação e pressão de seus adversários resultou a abertura do processo de impeachment;
4.6. até mesmo na “nova república”, do pmdb detancredo neves e josé sarney, passando pelo psdb de fernando henrique cardoso e chegando até o pt de luis inácio lula da silva e dilma russef, o brasil jamais se revolucionou. a única esquerda e direita, sejam elas políticas ou intelectuais que existem, é a que pulou para dentro de um mesmo coisificado como dado, o neo-liberalismo; 


(con fuoco)
pois bem, ter um destino traçado pelo itinerário do jamais se revolucionar, do jamais padecer pelo não oficial, do jamais descentralizar-se etnicamente, e a partir disso, lançar essa minha questão existencial de ser ou não-ser brasileiro para dentro da problemática de “como se dá à existir filosofia no brasil”, tal somente pode se dar positivamente. ou seja, e/ou pelas vias políticas pactuadas (como por exemplo, ocorreu na independência em 1822 ou no fim do terrorismo de estado militar em 1984), e/ou pelas vias intelectuais da importação (estado pronto, 1808, estabelecimento de colônias, 1808 à 1888, e jovens que concluem seus estudos na europa e nos estados-unidos), e/ou pelas vias do amor que basta a si mesmo do/a brasileiro/a, produto da mestiçagem colonial, de um “a que se deve amar” vago e inexistente (afetividade paranoica que cria necessidades de liberação que coincidam com a história oficial do esquecimento). e assim, positiva, afirmativa, amorosa e, portanto oficialmente, a filosofia realizada desde o brasil não é, senão um novo meio imaginado por um grupo de imigrantes “naturalizados brasileiros” – ao ponto de se tornarem natos brasileiros, para perpetuar o ocultamento, a ferro, fogo e pactos (até ao ponto de uniões conjugais endógenas ou com outras famílias de renome) – das múltiplas realidades trágicas, negativas, pessimistas e avaliativas regionais sob uma ordem abstrata e melodramática nacional.


(con brio – para finalizar)
o acaso d’eu ter sido nascido no brasil, não faz de mim um brasileiro! o acaso d’eu ter sido mestre em filosofia pela unb, não faz de mim um herdeiro e defensor da filosofia! nem o brasil, nem a filosofia estão acima de meu pensamento!

léo pimentel (2014)

gUIA prÁtIcO pArA IndIgEnIzAr-sE

há anos venho rastreando o processo de brasilerização dessas terras: reconstruindo as pegadas daquilo que poderia ser um "pensamento brasileiro"; procurando as pistas mais expressivas para a formação de suas paixões, afetos e pré-conceitos. encontrei tantos tesouros, fantasmas e lendas ao mesmo tempo em que encontrei tantas coisas inclassificáveis. e nestas constitui minha realidade: é preciso abandonar o mito de ser "brasileiro/a"! por razões fáceis de serem vistas, inclusive desde já numa olhadela mais superficial:
  1. a língua oficial é a do invasor: português;
  2. a religião dominante é a do invasor: cristianismo;
  3. a arquitetura clássica é de um helenismo greco-romano mal feito;
  4. sua constituição federal é uma cópia de modelos europeus;
  5. as leis são romano-portuguesas costuradas com o direito germano;
  6. o hino nacional é um plágio de marchas militares europeias com versos traduzidos;
  7. a inspiração republicana é a revolução francesa;
  8. a economia e tudo o que gira a seu redor são determinadas pelo mercado internacional;
  9. os temas de discussão filosófica e seus filósofos são todos alegremente importados.
o mito de ser brasileiro/a corresponde ao eterno correr a trás, feito por uma minoria rancorosa com pretensões transnacionais, de algo veloz, difuso e escorregadio chamado "mundo ocidental". mundo este em decadência deste sua gestação. mundo este que jamais deixou de ser um delírio pós-império turco-otomano e cuja práxis é a violação de outros mundos: deixou de ser periferia com a pilhagem das américas tornando-se centro irradiador de violências para com outros estares humanos. 

e se parássemos de ter de correr a trás? o que aconteceria? pelo o quê corremos tantos? estamos perdendo alguma coisa que no exterior já é um ganho? há o quê para se ganhar? e se deixássemos de lado esse mito de ser brasileiro/a o que aconteceria? pois bem, abriríamos mão das distopias ansiosas e distantes de futuros promissores irrealizáveis e abraçaríamos utopias que estão acessíveis ao toque, até mesmo por distração, no presente, no dia a dia, na cotidianeidade. 

sendo assim, que tal a liberdade? vamos experimentar? que tal fazermos de nós mesmos/as um experimento? um invento? e se não der certo? não tem problema, tentaremos outra coisa. e então? vamos?

"guia prático para indigenizar-se"  


[1] para baixar em pdf:

[2] para visualizar como livro virtual: 


dica de trilha sonora para essa publicação:

invasores, colônias e suas crias ou brasil, a violência dos sobrenomes


antes de qualquer coisa, começo aqui com três lições históricas da invasão e da condição sistemática da ocupação do território hoje chamado república federativa do brasil:

1. o brasil ainda não tem história por optar contar a historieta da saga estatal militar, cuja minoria opressora, em auto-homenagem,  vêm empreendendo sua invasão e colonização;

2. a única causa da miséria indígena e da miséria negra é a violência arcaica do estado colonial e seu discurso desenvolvimentista de tecnocratas e seus ideólogos;

3. os povos indígenas jamais foram e são vistos como protagonistas centrais de suas lutas pela liberação.


léo pimentel, amante da heresia


Por uma Contramemória Histórica numa Cidade Desmemoriada: Brasília - UmA ArquEOlOgIA pOlÍtIcA




Introito: 

Para fazer uma arqueologia política de Brasília é preciso a capacidade de se desprender da Brasília atual e adotar pontos de vistas distintos e distantes dela. Desprendimento, de alguma maneira estranha a seu tempo próximo como condição necessária desse tipo de arqueologia. Sendo assim, podemos nos desprender de Brasília e retroceder até o início do século XVIII, onde temos registro da primeira menção a uma possível capital brasileira no interior do país. Essa escavação política na história nos permitirá uma avaliação filosófica sobre a invenção desta cidade, considerada, ao mesmo tempo, tanto paraíso pós-histórico do desenvolvimento e de bem estar, quanto incubadora de descontentamento, e inferno de violência arcaica e repressiva. 

Este é um olhar para trás, pelo mirante da história, que acompanha uma visão adiante, até outro futuro social. Mas até lá, as demandas e os ocultamentos deste tempo, deste atual que pertence à Brasília, têm, como pano de fundo, os anseios de elites conservadoras que se apropriam de identidades, que não lhes são próprias, como por exemplo, a de protagonismo social, para destituí-las como representação política e, para encobrir as práticas de exclusão mais sutis e implacáveis de uma cidade idealizada, planejada e construída conforme os ideais políticos da invasão colonial militar-religiosa-industrial: cultura política profundamente excludente, monocultural, monolinguista e urbanocêntrica.

"vOU-mE EmbOrA prA cYbOrgÂnIA" pOr cYbIOntE 0 - mItOlOgIA cYbIOntE


vou-me embora pra cyborgânia
lá sou rei anarquista
lá sou a sexualidade que eu quero
no espaço-tempo que escolherei
vou-me embora pra cyborgânia

vou-me embora pra cyborgânia
aqui eu não quero essa felicidade
lá a existência é risco e aposta
de tal modo delinquente 
que silvia rivera cusicanqui
quíchua e anarquista
nem precisa ser insurgente
da antifamília que nunca tive

e como farei barricadas
andarei com molotovs
montarei em coronéis
subirei pelas ruínas desse país
tomarei a liberdade nas mãos!
e quando estiver aborrecido
farei uma rave na beira do rio
para celebrar com a mãe-d'água
pra refazermos toda a história
que no tempo que eu civilizado
indígenas vinham me contar
vou-me embora pra cyborgânia

em cyborgânia tem tudo
está para além da civilização
tem caos, acaso e artifícios
para impedir a ordem e o progresso
tem tecnologia reciclada
tem energia para as máquinas à vontade
todos somos prostitutas bonitas
para todos por lá namorar

e quando eu estiver mais alegre
mas alegre de não ter jeito
quando de madrugada me der
vontade de me matar
— lá sou rei anarquista —
lá sou a sexualidade que eu quero
no espaço-tempo que escolherei
vou-me embora pra cyborgânia.


____________
reconstrução insurgente do poema de manuel bandeira, "vou-me embora pra pasárgada.







cangaço intelectual

cangaço intelectual – contribuição contra o coronelismo intelectual e seu serviçal


em 4 de março de 2012, marcia tiburi nos presenteou, em seu blog, com um interessante tesouro: “9 teses contra o coronelismo intelectual”. à época, retribui tal guerrilheiro gesto generoso, com o seguinte comentário: 

marcia, genial estas tuas 9 teses. o coronelismo intelectual vem se sofisticando a cada momento. principalmente com a situação hoje de que ele foi tornado uma espécie de bem-feitor; um guardião da moral e dos bons costumes de cativos e cativas do pensamento. é só dar uma boa olhada no que se anda produzido (estilo literário e conteúdo) para cumprir as normas e pontuações da capes, cnpq, etc. e mais, no mercado editorial brasileiro (que já começa suspeito por ser mercado) tudo o que já foi dito milhares de vezes e tudo aquilo que não precisa ser dito é exatamente o que se publica. o que deve ser dito não tem espaço (claro, que às vezes escapam algo, como os seus livros e uma publicação aqui e outra ali publicada pelo bolso de quem escreve). concordo contigo e tomo como inspiração primordial, o combate que tu apontas contra esse protagonista perverso que é o coronel intelectual; o antagonista necessário dessa relação agonista: o cangaço intelectual (sua sexta tese) – lampiões e marias bonitas do pensamento brasileiro, uni-vos! (para não perder essa boa frase – rs). 

o pensamento seguiu e, em 15 de junho de 2012, marcia nos presenteou novamente. desta vez com o texto intitulado “coronelismo intelectual”. e assim, novamente, quero retribuir-lhe. só que desta vez, desenvolvendo mais o que lhe atribui como sendo resultado de sua sexta tese (“o coronelismo intelectual odeia a invasão dos sem ideias no território das ideias prontas. contra ele todo assalto é desejável.”) o antagonista necessário, o “cangaço intelectual”. 

cangaço 

o cangaceiro e a cangaceira nada conserva. no entanto, há muitos cuidados. cuidam por não nos revelar a verdade interna das suas vidas. mas que nos deixam rastros: seus modos de combate, o que cobiçavam, o terror que semeavam quando passavam, suas festas, seus jogos e seus lugares preferidos. e são nestes rastros que me entregarei a uma verdade do cangaço como inimigo à altura da verdade do coronelismo intelectual: a falta da vaidade em dar sentido a sua própria morte – armados e armadas da cabeça aos pés, com a insurgência vertiginosa sendo sua dimensão original confundida com o seu ser: ser-no-mundo enquanto apropriação radical da liberdade transformada em sua própria fatalidade. eis-me aqui, enquanto cangaceiro intelectual, ora como anarquia, ora como socialista selvagem, ora como niilista determinado. nenhum coronelismo intelectual pode conter (universitalizá-lo – aldeamento da titulação), cortar suas presas e unhas (pacificar – ocupação permanente do comentário) ou mesmo se apropriar (martiriza-lo – torna-lo herói trágico de uma produtividade acadêmica) desse tipo especial de ser-no-mundo. 

cangaço intelectual 

rastro 1 – modos de combate: o cangaceiro e a cangaceira intelectual, ambos são insurgência luciferina ou do apocalipse contra a ordem coletiva de silêncio e de debate inexistente; são insurgência utópica ou da liberação territorial contra o feudalismo de especialistas; são insurgência brutal ou instintiva contra o fundamentalismo exegético; são insurgência social ou marcha coletiva rumo ao livramento da sacrossantificada informação dos “discursos verdadeiros”. 

rastro 2 – o que cobiçam: os mitos revolucionários são purezas celestiais. os mitos de insurgência cangaceira são libertinas; possuem o cru como transcendência; preservam belos tons negros na alma; possuem a pureza do inferno; e lapidam sua perfeição no desespero do ser. desse modo pilham as mercadorias da contra-reflexão e as usam, não como descrições das coisas, mas como expressões de vontades. não se perguntam se uma titulação pode lhe trazer ou não vantagens diretas numa diplomacia habilidosa, mas se perguntam o que resultam de sua introdução no pensamento livre e da autocrítica. 

rastro 3 – o terror que semeavam quando passavam: inesgotáveis sequências de monstros (mostram o quanto se idolatram livros, temas e palavras) e de insensatos (desprezam o lugar que a autoridade ocupa no mundo), de quimeras (criaturas perversas do fim dos tempos divididas entre a aceitação e a recusa), de dragões (singularidades da revolta de dolorosas maturações cujas ideias têm a violência de um corisco), de górgonas (entregue ao exílio irreversível já que o regresso é proibido) e de licórnios (se trabalham é para ganhar a vida sem trabalhar). não é hereditário, nem envelhece. 

rastro 4 – suas festas e seus jogos: festas e jogos de contra-sociedades. exploram a superfície do universo onde o acaso o fez nascer. não planta nem edifica. detestam a sociedade policiada de seu tempo e espaço. parodiam professores, professoras, estudantes, sábias, leigos e todo tipo de lacaice intelectual. viram do avesso o próprio futuro. impõem à reprodução do mesmo uma forma grotesca acentuando o ridículo burlesco das consequências do coronelismo intelectual. colocam-se acima das leis do autoritarismo intelectual respondendo às ofensas que essas leis lhes fizeram. 

rastro 5 – seus lugares preferidos: todos aqueles que servem como espaços de agir sobre o presente. lugares libertos dos procedimentos de discussão corriqueiros entre políticos, filósofos, ou pessoas ditas autoridades com pretensões à ciência prática. agrestes intelectuais que se definem como liberdade, natureza, supra-sociedade, abertura e horizonte. estar à vontade nas anomalias. é o espaço dos sonhos de infância estregue à perversão: a vida como um jogo perverso de recusa ao lugar no mundo dos adultos. emancipação de toda tutela (educação, robotização e plastificação) e de toda maioridade como simples ordenamento e proibição.

léo pimentel - amante da heresia

atos de escuta



há uma tensão na história do pensamento entre dois modos de pensar e de se seguir pensando: escritura e oralidade. na primeira, pensa-se sobre o que se escreve; na segunda, sobre o que se fala. da escritura formam-se sociedades “históricas” (invenção da escrita), da não presença (distanciamento), do simulacro (a visão como percepção central), da escrita como índice de lei e do poder político como coerção. da oralidade formam-se sociedades “pré ou a-históricas” da presença (proximidade), da memória viva (a fala e a escuta como percepções igualmente centrais) e da oratória como tarefa de transmissão cultural e de poder político não coercitivo. do primeiro tipo social, pensar se estabelece como atos de fala; do segundo tipo, como atos de escuta. 

empiricamente, o curioso é que, nas sociedades “históricas”, quanto mais se escreve e se fala, menos se tem o que dizer – portanto menos se tem para ler e ouvir – e quanto mais se escuta, nas sociedades “pré ou a-históricas”, mais se tem aberta a possibilidade de se ter algo a dizer. interessante inversão nessa curiosidade: pois, o que ocorre, é o exato inverso do que as sociedades letradas costumam pensar sobre as sociedades da oralidade: escrever está muito mais para repetir o que já foi dito, do que na oralidade. a memória mumificada pela palavra escrita é menos plástica e dinâmica do que a memória viva da palavra falada. um excelente exemplo disso é a relação estática, conservadora e normativa das gramáticas e dos dicionários com a língua e a relação dinâmica, fluida e descritiva da linguagem nas prisões e nas periferias. 

do exemplo acima, toda a filosofia da linguagem dirige sua atenção: tem o discurso e a argumentação como ponto de partida, por considerar que a fala é algo muito mais ativo do que a escuta em um diálogo. dessa perspectiva, a fala está para a filosofia da linguagem como um ato e a escuta não. mesmo que ela aponte à pragmática (usos), aos efeitos e às consequências dos atos de fala como relevantes para a discussão filosófica. no entanto, tem-se para análise, uma predileção pelas condições de realização e pressupostos de um ato de fala, em seus aspectos formais (abstração dos usos específicos do significado dos termos) e semânticos (consideração do significado dos termos independente de seus usos) do que propriamente pelos seus aspectos informais (variáveis), indiretos (implícitos), incompletos (fragmentários), oblíquos (multiplicidade) e dialógico (consideração da linguagem em uso em sua polissemia dos termos e sua multiplicidade de contextos). 

como é o pensamento e não a filosofia que mais me interessa, farei de meu pensar um experimento na tensão entre escritura e oralidade, para afirmar, a escuta como um ato de múltiplas dimensões. e como tal, tão importante quanto à fala para uma futura filosofia da linguagem. não há implicaturas conversacionais se escutar não for algo ativo, na mesma medida que o falar. falantes e ouvintes atuam ao mesmo tempo de modo fragmentários/as, indiretos/as, implícitos/as e variáveis. tanto falar quanto escutar são ações interativas, não uma simples relação entre alguém que emite e outro que recebe. e o mais interessante aqui, para uma futura filosofia da linguagem, é a impossibilidade de semantizar a análise dos atos de escuta – como se costuma fazer quando se trata dos atos de fala. analisar os atos de escuta é, antes de tudo, estabelecer um método crítico e reconstrutivo – pragmático, portanto – que torna explícito os implícitos da ação de escutar. assim o farei.

[continue lendo o texto aqui: http://pt.scribd.com/doc/94083661/atos-de-escuta]

pessimismo e otimismo no sentido extra–moral



há uns bons anos, venho fugindo dos espaços de senhores de engenho filosófico e de seus diplomados capitães do mato. fuga em que a saída foi a abertura de quilombos em meu pensamento. o problema insolúvel é que isso está longe de se constituir algum espaço confortável. um quilombo tem seus infernos tanto quanto um engenho. é mais ou menos como a escapada da caverna de platão. só que, sendo a caverna um inferno, se escapo desta, certamente, caio em outro tipo de inferno. deste modo infernal, e deste conhecimento diabólico (e não simbólico), estive presente no seminário sobre pessimismo e otimismo moral, acontecido nos dias de 19 e 20 de abril de 2012, na unb. o infernal desse seminário foi o moral, e o meu foi o sentido extra-moral. 


de meu quilombo pude apontar duas considerações gerais e três particulares. estas que me fizeram repensar minha própria posição dentro de meu quilombo de pensamento. das considerações gerais são uma de presença e outra de ocultamento. a de presença foi a própria impossibilidade filosófica do diálogo – os discursos estavam bem ensaboados, tanto no sentido de higienizados, quanto na condição de que escapavam a toda tentativa de serem pegos. a de ocultamento, foi uma espécie de niilismo simbólico ou niilismo conceitual de teor conservador – discursos que invalidavam todos os conceitos, de modo que tal invalidação servia como estratégia de desvio, onde conceitos já estabelecidos, sorrateiramente, permaneciam intocáveis. curiosa situação: tentativas de não-ser enquanto que se é algo – como uma cerveja sem álcool ou um café descafeinado. das considerações particulares aponto três ideias: a de “vida pós-ética, pós-moral”, a de “manual de sobrevivência” e a de “mais-vida à gozar”. pois bem, sigamos com passinhos de bebê. 


das duas considerações gerais: 

discursos ensaboados: o que assim nomeio é a argumentação como arte de fazer malabarismo com sabonetes molhados, onde os sabonetes são os próprios “pontos de partida” – mas que também funcionavam como naquelas famosas cenas de desenho animado, em que as personagens correm sobre uma superfície escorregadia sem conseguir sair do lugar. pontos de partida escorregadios, sempre colocados como incompletos, o qual lhes qualificavam como seguros, pois lhes dotavam de mistérios como os vícios das questões religiosas. princípios seguros, porém difíceis de segurar. impossíveis de serem surpreendidos por uma situação crítica, já que sempre escorregavam da precisão. tudo era falível, menos os pontos de partida. espécie de toque que põe em contato escorregadio certo sujeito e certo objeto. discussões condenadas ao fracasso desde já, se se criticam esses dois polos do ponto de partida (sujeito e objeto) e não seu modo de ligação. fracasso crítico endereçado ao objeto: isto sobre o qual se fala nada se pode falar. fracasso crítico endereçado ao sujeito: não és mais tu mesmo, já que hoje falas sobre o que ontem tu não dirigias uma só palavra. ora a crítica aos pontos de partida seria mais interessante se abandonássemos as abstrações dos dois termos (eu falo/penso sobre isto) para nos concentrarmos mais ao que os liga. se tanto sujeito quanto objeto são “eternamente” incertos e indeterminados – excessivamente importa quem fala e excessivamente importa sobre o que se fala – então direcionemos nossa atenção ao certo e ao determinado que os conecta, os pontos de chegada. não se escolhe de onde partir, escolhe-se sim partir, como no conto de kafka, “a partida”. 

ordenei que tirassem meu cavalo da estrebaria. o criado não me entendeu. fui pessoalmente à estrebaria, selei o cavalo e montei-o. ouvi soar à distância uma trompa, perguntei-lhe o que aquilo significava. ele não sabia de nada e não havia escutado nada. perto do portão ele me deteve e perguntou: 

– para onde cavalga senhor? 
– não sei direito – eu disse –, só sei que é para fora daqui, fora daqui. fora daqui sem parar; só assim posso alcançar meu objetivo. 
– conhece então o seu objetivo? – perguntou ele. 
– sim – respondi – eu já disse: “fora-daqui”, é esse o meu objetivo. 
– o senhor não leva provisões – disse ele. 
– não preciso de nenhuma – disse eu. – a viagem é tão longa que tenho de morrer de fome se não receber nada no caminho. nenhuma provisão pode me salvar. por sorte esta viagem é realmente imensa. 

franz kafka – a partida 

niilismo-de-conceitos, conservador: é como nomeio a estratégia de ocultamento geral para a permanência de determinados discursos. aqui é se dado muita ênfase à invalidação de todos os conceitos, ao mesmo tempo em que, sorrateiramente, deixavam intocáveis os conceitos que sustentavam tais discursos – cujas sustentações já nos eram antigos conhecidos. ocultamento com dois aspectos curiosos de paradoxo: o primeiro sendo que só existe discurso a partir do momento em que não há mais nada para se discursar, e o segundo sendo que só existe discurso a partir do momento em que não há mais sujeito para discursar. do primeiro aspecto de paradoxo, tudo aquilo sobre o qual se discursa é um risco para o próprio discurso. e a segurança (neste caso por escorregamento) que o constitui estaria ameaçada, desde já, pois significaria que se deveria desocultar o compromisso com o discursado em particular. já que, o melhor afazer para conservar algo é sempre coloca-lo em outro lugar onde não mais se pode alcançar. por exemplo, muito se disse sobre a historicidade das coisas, no entanto, em tentativas de apropriar-se do tempo para fazer durar algo já dito; muito se disse sobre os discursos sempre parciais sobre as coisas, no entanto extraindo sua certeza não de uma relação com a coisa, mas da ausência de coisa – certeza pela adesão e não pela persuasão. dizer sobre isto ou aquilo não é nada, dizer sobre a ausência disto ou daquilo é tudo. e do segundo aspecto de paradoxo, quem discursa também é risco para o discurso. pois este é histórico, sofre mudanças de humor, pode mudar de ideia, ontem se comprometia com isto, hoje com aquilo, etc. assim a segurança por escorregamento estaria sendo ameaçada pela própria condição de mudar de quem se quer em segurança. neste segundo aspecto, o escorregadio aparecia sempre como liquidação mágica da condição de mudar do sujeito. vez por outra, a noção de “subjetivo” aparecia como porto seguro-escorregadio para garantir o discurso acima dos sujeitos que discursam. a mudança no tempo era magicamente substituída pelo instantâneo estendido. por exemplo, a “avaliação” deste ou daquele sujeito não podiam ser confiáveis, mas a tautologia “avalia-se ou não avalia-se”, sim. estranha forma de exclui do discurso quem discursa. 


das três considerações particulares: 

vida pós-ética, pós-moral: a ideia de “impossibilidade da ética” ou “inabilitados para a ética” foi o grande fantasma que pairou sobre nós ao decorrer dos dois dias de seminário. digo fantasma no mesmo sentido em que schopenhauer diz no seu texto “ensaio sobre as visões de fantasmas”: sim, existem fantasmas, não há dúvidas, as pessoas os veem o tempo todo, no entanto, isso não significa que existe vida após a morte. os fantasmas dizem mais sobre os vivos do que sobre os mortos. desse modo a ética existe, não há dúvida, no entanto, mais do que ela nos conduzir para a claridade luminosa e solar da razão, a ética nos conduz à claridade pálida dos raios lunares da vontade e do desejo. a ética como algo que mais tende a fazer parte de um reino crepuscular e telúrico do que de um reino aurorar e celestial. desse modo a esperança, a nostalgia e a resistência apareceram como a tonalidade dessa aparição fantasmática da ética. 

esperança: o grande consolo – o tempo todo era trago à tona a ideia de que o prazer era uma poderosa perspectiva para avaliação, pois não constituía um efeito, uma consequência, mas sim uma causa, um estado primordial. seu poder, ou privilégio, consolador jamais poderia ser ameaçado, pois, até mesmo na sua ausência haveria um estado de neutralidade (ausência de dor e ausência de prazer) que lhe fazia parceria oculta para destituir o mal-estar, até mesmo, como possibilidade de ser considerado um ponto gerador de argumentação. a todo momento a argumentação negativa tentava ser neutralizada pela ideia de prazer ou de neutralidade. pois na esperança de manter ao menos a soma = 0 (condição de equilíbrio e de ameaça zero), por falta de consolo de soma +1 (a mais-vida à gozar que tratarei daqui a pouco), é melhor se calar sobre qualquer possibilidade de soma – 1 (fatores limitativos). 

nostalgia: saudades de um já vivido ou saudades de um futuro que jamais será vivido – aqui a saudade por um estágio de indeterminação era o grande recurso e estratégia para não se impossibilitar ou para não nos tornarmos inabilitados e inabilitadas para a ética. ora, a aparição da ética se dava como uma condição histórica evolutiva de reação contra um passado terrível já ultrapassado (seja pensado em termos de “primitivo”, como espécie, ou “infância” como espécime), ora se dava como uma condição histórica futura onde o risco de uma vida pós-ética ou pós-moral, estaria fundamentada ou num agir/não-agir regulado por alguma solução totalitária, como o direito pautado apenas pela sua dimensão de lei, ou por uma possível extinção da espécie humana – um mundo sem ninguém. estranha nostalgia por uma realidade alternativa, de outra noção de tempo e situação geográfica – por meio de uma presunção de similaridade, induzir nossa condição de uma qualificação de viver (nasci e morrerei) a uma qualidade de vida (há vida antes e depois da vida). 

resistência: força que se opõe ao movimento – no caso do discutido no seminário, o movimento da terminalidade. aqui posso até evocar o que lévi-strauss diz, em seu “tristes trópicos”, ser uma ciência mais refinada e precisa que a antropologia: a entropologia – disciplina dedicada a estudar, em suas mais elevadas manifestações, o processo de desintegração dos povos (sociedades humanas e a própria humanidade). a ideia a qual se resistiu muito, ao longo desses dois dias, foi a de que “o fim está contido tanto no início quanto no meio do processo”. em todo caso, se aceitou o processo, no entanto, resistindo à consideração de que haja algum tipo de movimento que conduz a gradação desse processo. resistência tal qual os quatro argumentos de zenão contra o movimento. a flexibilidade, a falha, os exemplos favoráveis, o ignorar de indesejadas exceções à regra, a padronização arbitrária levada ao seu paroxismo, o meio termo entre covardia e coragem ao fazer afirmações, eram os álibis mais comuns para salvar uma vida ética sem a afirmar diretamente. no entanto, se movimenta, se movimentou. o fantasma foi materializado em frankenstein. este adorável renascido que somente se tornou um monstro quando se viu que jamais pode ser outra coisa – não importa quantas vezes se nasça, ouçamos o que este monstro da condição humana tem a dizer. 

manual de sobrevivência: gosto muito desta ideia por uma condição náutica, e não cabreriana, digo isso para não me acusarem de que fiz uma má leitura de cabrera, pois eu não li ainda, o texto no qual julio cabrera a usa. assim não posso tomar partido ou criticá-lo. desta ignorância mais nada falarei. Parto, portanto, de minha condição náutica. como metáfora posso dizer o seguinte: a ética é para mim um titanic (em consideração ao centenário de seu naufrágio), a impossibilidade ou a inabilidade, me é a minha própria condição de náufrago e, o “manual de sobrevivência”, uma espécie de “diário de bordo”, mesmo não estando mais a bordo, como este que estou fazendo ao relatar minhas impressões sobre o seminário sobre pessimismo e otimismo moral. o que quero com isso? 

neste momento do texto, quero nomear este meu relato como, algumas páginas que compõem um diário de bordo impressionista de um náufrago acerca da ética e, esclarecer algumas posições que estou considerando para escrever estas poucas páginas. pois bem, muito se falou sobre a condição de já estarmos-aí como sobreviventes. no entanto, não somos os/as primeiros/as nem os/as últimos/as a sobreviver, mesmo no sentido de hume, de que nada do visto anteriormente garante que o/a próximo/a a nascer, ou alguém já nascido jamais venha a morrer. sobreviver é uma noção muito mais interessante que viver. isto se dá por uma razão metodológica simples: sobreviver está pouco impregnado pela tradição metafísica. pensa-se em viver intensamente, mas não em sobreviver intensamente. sobreviver é colocado como algo de instância menor ao viver. até mesmo em algo que se opõe ao viver intensamente. de minha parte a sobrevivência vem como um dado para o jogo do viver. e assim, enquanto dados de um jogo, estabeleço a dimensão perspectivista do sentido extra-moral anunciado no título: se a ética é algo que não está no mundo, então para sermos pessoas éticas, temos que nos colocar fora do mundo. mas como a única coisa que tenho em jogo para garantir minha sobrevivência somente é aquilo que está no mundo, aceito a condição colocada por julio cabrera de que, a ética é uma maneira de se viver no mundo dentre tantas outras maneiras, histórica e geograficamente. ou seja, a ética pode servir como nutrição para a sobrevivência. como a celulosa é nutrição para animais ruminantes e não é para nós seres humanos. para mim a ética em nada serve para minha nutrição. 

como naúfrago, sem deus, sem patrão e sem estado, não me é necessário fazer uso da ética, seja ela religiosa, naturalista, ou eclética. mesmo que muitas vezes, por tal desnecessidade, minha vida foi posta em risco (sobrevivência com bandidos, marginais e policiais), foi posta em dúvida (sobrevivência com muçulmanos e grupos indígenas) e, posta sem sentido (sobrevivência com anarquistas, niilistas e céticos). caso eu tivesse algum tipo de ética ao meu lado, eu não estaria aqui escrevendo estas linhas. viver extra-moralmente, não significa que levo uma vida acima de qualquer moral, significa que apenas levo a vida de outra forma que a moral. do ato de pensar, portanto, do ato de medir, não dou a cada coisa e a cada um/a o seu justo valor. não tenho valores, tenho apenas considerações. para mim, fazer avaliações é fazer generalizações, e levar em consideração é se aproximar ou se afastar disto, daquilo, dele e dela. pouquíssimo me interessa para uma qualidade de vida, mas muito me interessa para qualificar minha sobrevivência. sem nenhum problema posso ficar doente por não comer, beber água ou dormir se me é mais importante escrever estas linhas ou assistir ao volume 3 da coleção “histoire du cinema” de godard. ao mesmo tempo em que posso me prostitui (ganhar a vida) para conseguir um lugar onde eu possa escrever estas mesmas linhas ou assistir ao filme mencionado. neste meu caso, o sentido extra-moral, ou seja, minha forma de levar a vida é meu modo de abandonar como nutrição, o alcançar uma avaliação geral às custas da dissolução do objeto mesmo da avaliação. pois, os objetos e as pessoas, que levo em consideração, são aquilo que me mantêm vivo; que me garante a sobrevivência. 

se assim os vejo, o pessimismo e o otimismo no sentido extra-moral, tais me são dados como polos de consideração disto e daquilo para a qualificação de minha sobrevivência. assim sendo, o pessimismo no sentido extra-moral me garante muito mais a sobrevivência do que o otimismo no sentido extra-moral. o pessimismo extra-moral é minha consideração trágica de uma condição que me acompanha, desde o meu nascimento, intrinsecamente dolorosa (no sentido de mal-estar) e patética – no qual concordo plenamente com julio cabrera. viver no sentido extra-moral, não avaliando, mas considerando, é ser uma espécie de herói trágico que dá cotoveladas em vão no patético que é o viver cotidiano. a tragédia não é porque morremos, mas sim, é por que continuamos vivos/as. o caráter único, irremediável, inapelável e entrópico do dia-a-dia é o patético o qual se luta tragicamente. quanto tempo sobrevivemos pensando no que deveria ter sido feito e no que devemos fazer? quanto tempo sobrevivemos se levamos isto, aquilo, ele e ela em consideração? e o otimismo extra-moral? este é a consideração nutricional apostadora. pouco me interessa se a “banca sempre vence” ou se apostei errado, já que são lances de sorte e azar, muito me interessa apenas se apostei ou não. ah, e se a consideração não é um tipo de avaliação? não, não é. considerar é como a relação de quem está na miséria com o que comem: não importa o sabor da comida ou mesmo se tenho condições de estoca-la, importa se tenho a barriga cheia agora, pois saco vazio não atinge seu objetivo: “eu já disse: ‘fora-daqui’, é esse o meu objetivo”. 

mais-vida à gozar: uma situação curiosa muito recorrente ao longo do seminário foi a dilatação, que aqui inverto para ficar mais claro, do que zizek diz do mais-gozar a vida – isto que ele chama da obrigação pós-moderna de que “sobre aquilo do qual podemos falar, deve ser dito para que o façamos obrigatoriamente” – você pode, logo você deve. a situação que inverti para fins ilustrativo é a seguinte: sobre aquilo do qual podemos falar, não deve ser dito para que não o façamos obrigatoriamente – você pode, logo você não deve. o “aquilo” é o gozar. no “mais-gozar a vida” descrito por zizek, se podemos falar sobre o gozar, assim o fazemos para que nos obriguemos a tal – como por exemplo, a atual obrigatoriedade masculina de fazer sexo após o viagra. no “mais-vida a gozar”, dito aqui, esta obrigatoriedade é lançada como o estender o tempo de viver – se é obrigado a viver mais para que haja mais possiblidade de gozar a vida, no entanto, se estendina no tempo, a obrigatoriedade de gozar a vida é colocada como condição obrigatória a qualquer custo. assim, somos levados/as ao ponto de que somos obrigados/as a gozar até mesmo nas condições mais degradantes de sobrevivência – como, constantemente se obrigam pessoas, com doenças terminais, a gozarem por si mesma a “luta pela vida”. não se pode viver, no entanto, deve-se gozar como se pudesse sim viver. 

fiz esta brincadeira ilustrativa apenas para fins didáticos. pois a impressão que eu tinha a cada réplica à ética negativa, ou à impossibilidade de qualquer ética, ou à situação de que estamos inabilitados a ela, era a de que, a capacidade de suportar até a mais miserável forma de viver, era a natureza suprema do viver. e como tal saltava diante de nós como o argumento mais dourado e fatal do otimismo, ou da covardia em fazer afirmações ariscadas pessimistas contra qualquer possibilidade contrária ao “mais-vida a gozar”. por exemplo, ora a “mais-vida a gozar” aparecia como vontade da espécie em perpetuar em detrimento da vontade de não perpetuar de um e/ou uma espécie (naturalismo ideológico – ciência), ora aparecia como possibilidade de condenação à heterossexualidade (naturalismo conservador – moral), ora aparecia como obrigação a suicidar-se (“se pode, deves” – naturalismo perverso – psicanálise), ora aparecia como impossibilidade de afirmar a vida (naturalismo revolucionário – vitalismo), ora aparecia como pré-condição a santidade (naturalismo místico – agnosticismo e ceticismo). assim como vi, todas as formas de aparecimento do “mais-vida a gozar”, para se manter o pensamento dentro do horizonte do já pensado tradicionalmente, se davam como formas de naturalismos, estrategicamente para permanecerem intocáveis, disfarçados de pensamentos anti-naturalistas, abertos e anti-teleológicos: como se as condições de acaso, de inércia e de artifício fossem aceitos apenas como garantia e permanência e não como incerteza, dúvida e possibilidade de mudança. o qual posso, freudianamente, posso afirmar o seguinte sobre tal disfarce: naturalismo como o presente de uma ilusão (mais-vida a gozar).


léo pimentel – 21 de abril de 2012 

------
quando falamos "eu penso que...", quem será que escondendo? a voz do pai? da mãe? dos/as professores/as? padres? policiais? da moral burguesa ou proletária? ou as idéias de alguém que já lemos? escutamos? ou...
 
[A]m[A]nt[E]:|:d[A]:|:h[E]r[E]sIA © Copyright 2009 | Design By Gothic Darkness |