sugestões de uso deste blog

bem vindo e bem vinda. este é um labirinto herege: um desafio para medir a astúcia de quem me visita; um convite à exploração sem mapas e vista desarmada. aqui todas as direções se equivalem. as datas das postagens são irrelevantes. a novidade nada tem a ver com uma linha do tempo. sua estrutura é combinatória. pode começar de onde quiser. seja de uma imagem, de um texto, de um vídeo ou mesmo de uma música. há uma infinidade de escolhas, para iniciar a exploração, para explorar esse território e para finalizá-la. aproveite.

ecOAções humanas demasiada humanas

desResenha em invencionice de ECOS HUMANOS (HQ de ciberpajé & eder santos)
por lÉo pimEntEl {[A]m[A]nt[E]:|:d[A]:|:h[E]r[E]si[A]}



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reverberações: o humano, a forma reiterativa. a moral, o que persiste após a extinção da emissão de sua fonte, o humano. suas ondas percorrem os tempos, compensam o atraso evolutivo e chegam aos nossos ouvidos. ouvidos?

reverbs sinestésicos: processo acústico ocular, para além da transformação de música em arte visual. algo mais profundo como um abismo e mais intenso como um arrepio na espinha. o ensurdecedor modulado graficamente.
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a onda humana foi emitida. seu tempo de reverberação é o coeficiente de absorção de cada ser-no-eco. reflexão múltipla do macro ao micro: ondas gravitacionais na curvatura do espaço-tempo: mergulho cósmico, homens-guará, manga, poça d’água, tempestade...

a reflexão múltipla humana ocorre para todas as frequências: inabilidade de perceber a dualidade; hábil apenas na percepção do que é contínuo: o perigo da diferença. moral emitida em direção perpendicular ao plano da sobrevivência: é preciso um som cru, quase indigesto: sem tempero, nem cozimento: cru e cruel, o mesmo contínuo: morte:fome:morte; asas insuficientes, invólucro/córneo/troféu, manga, mais asas imóveis, mais mangas...

– alto lá! onde achas que vais? mulher suçuarana! aqui reina o silêncio mais ensurdecedor!


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a percepção do humano em um cosmos depende da intensidade e da relação temporal entre a humanidade direta e a humanidade indireta refletida por todos os não-humanos deste cosmos. neste a reverberação é ruído que favorece a amalgama. a humanidade direta não demora à sua primeira reflexão: a escassez. logo a humanidade indireta se faz reverb sinestésico: o cosmos também é um contínuo entre o cru e o cruel. contínuo pendular: tempestade & impotência; calmaria & agarrar-se aos últimos acordes da sobrevivência: o fim está próximo... mas o fim de quem? da humanidade direta? carne e osso? da humanidade indireta? símbolos e história? [...] devora-te a ti mesmo!


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uma boa distribuição do que reverbera se dá pela difusão através das mais variadas superfícies refletoras irregulares. a melhor delas é produzir sombras reverberantes: ser & não-ser simultaneamente sob a penumbra visionária de teonanácatl. entre o corpo e seu entorno não há fronteiras: a morte de seu entorno prenuncia a morte de seu corpo; o insondável do seu corpo reflete o insondável de seu entorno. coma a carne-dos-deuses!

qual o preço de digerir divindades cruas? oshumaré! serpente da visão, que nos presenteia com a mobilidade devorando o peso da história. psicopompos do cerrado! ajuruetês indicadores da transição, que nos presenteia com pequenas mensagens-frutas de saborosos futuros.
– venha! venha! não olho mais com os olhos! mulher suçuarana! não trazes pra mim uma vigança?
– não. não lhe trago nada em especial! apenas a mera vida... apenas a existência pegajosa... e uma via láctea inteira em meio seio.
– sim! eu estive cego...

a trajetória do humano foi refratada, atenuação e intensidade. desperto, voltas à ver com os olhos. os sons do mutismo descolorido voltam nas mais altas frequências: dor & memória; desespero e história; ficar/ossos/certezas ou seguir/carne/dúvidas em frente. é preciso contestar as verdades da cabeça. é preciso se abrir às dúvidas dos pés. o cosmos precisa ser redimensionado. é preciso perder e abrir mão de tudo para ser realmente livre. mas, cuidado! lembra-te! entre o corpo e seu entorno não há fronteiras: tu es homem-guará: ainda carregas em ti a marca da humanidade: as cicatrizes da guerra consigo mesma e com todas as outras espécies.

e assim, diante do maravilhoso e da exuberância recém descoberta, ainda se ouviu, no vento vindo do oceano, um pequeno ruído demasiado humano que vem reverberando há séculos e saltando dentre realidades pós-humanas alternativas...

– “oh, meu deus! (...) eles conseguiram, os idiotas destruíram tudo!”
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projeto k[A]l3utun 0v[E]rdriv3 – ep#01: h4ck1ng f[A]nt[A]sm[A] & 0utr4s brux[A]rias d0 C40s


o projeto k[A]l3utun 0v[E]rdriv3 foi criado para contar histórias de [A]n[A]rquism0 f[A]ntástic0 desde futuros proibidos. contação com atmosfera ruidosa cyberpunk:|:ancestrorebelde:|:negríndia.
eis o primeiro volume:  
h4ck1ng f[A]nt[A]sm[A] & 0utr4s brux[A]rias d0 C40s
na forma de ep lançado pelo selo 
Dionysian Industrial Complex 
{Experimental Beauty. Devotional Noise. Technoshamanism}

para ouvi-lo há três vias de acesso:
para saber um pouco mais, baixe o zine do projeto aqui. nele vc encontrará o que é contado nesse volume 01:https://goo.gl/JMBBFo
 
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O punk é uma erupção. Não deixa pedra sobre pedra. É uma negação da classe social e do privilégio. Nem deuses! Nem mestres! Energia bruta e explosiva. Mas energia para o quê? Como o punk pode contar estórias? Fazer histórias? Construir novos mundos?

Nos anos de 1980 e 1990, escritores como William Gibson e Bruce Sterling nos deram uma resposta para tal pergunta. Cruzaram o punk com a ficção científica, e assim criaram o "cyberpunk": histórias falsas, histórias futuras. O Continuum de Gernsback. Dori Bangs. Memórias equivocadas de computadores mecânicos.

Punk e ficção científica. Por um breve momento, o cometa incandescente do punk mergulhou na estrela implodida dos sonhos otimistas da América. E foi espetacular. Mas logo fracassou. O cyberpunk foi rapidamente reduzido a um clichê de óculos escuros e um James Dean com a cabeça cheia de microchips. No final dos anos 1990, a tecnologia recolocou sua terno e saiu em busca de um IPO (Initial Public Offerings - Oferta Pública Inicial).

Mas o Cyberpunk não está morto.

Ou, se estiver, é apenas temporário. Imerso no fundo do oceano. A 20.000 léguas abaixo das ondas, enterrado dentre as lápides ciclópicas de R'lyeh. Dorme com os peixes e janta com os Drexciyans. O mar encontra seu próprio uso para as coisas, as quais o mundo da superfície jogou fora.

E mesmo na morte, o Cyberpunk se agita, e envia visões, borbulhando na "deep web", para assombrar os sonhos inquietos do mundo desperto. Drones assassinos, fazendas de trolls criando notícias falsas, ataques do dia-zero na internet das coisas, Equation Drug, WannaCry, Sesame Credit, The DAO, os perigos da Inteligência Artificial. O Cyberpunk está aqui entre nós. Sussurrando através do wifi.

Nunca houve como antes, tamanha necessidade por histórias sobre o futuro, se não as alimentadas pela energia disruptiva do punk. Somente o punk é (paradoxalmente) idealista e cínico o suficiente para lidar com as complexidades que nossa tecno-economia e sociedade hiperconectadas e aceleradas lançam.

O EP k[A]l3utun ov[E]rdriv3 nos traz o cyberpunk em sua forma mais mito-poeticamente magnífica. Um sincretismo rico e uma recombinação caótica do Anarcopunk, da cultura hacker e do realismo mágico latino-americano: a crítica política como ritual magico. Krakens e bruxas; um navio pirata fantasma assombra os mares da costa do Chile; leões-marinhos absorvem as almas dos afogados para construir uma inteligência artificial necrótica. Uma insurgência anti-colonial de poltergeists guerrilheiros surge enquanto Mapinguaris caçam na Matrix rizomática da Amazônia e os Abaçaí dançam no "Deep Learning".

Robert Luis Stevenson e Jules Verne, vários ciclos mitológicos indígenas sul-americanos rederizam-se por meio de "Transferência de Estilo Neuronal" em Arthur Kroker, Penny Rimbaud, Hakim Bay e o CCRU.

A música não está bem "composta" como num "circuit-bent" cujo os protocolos da malha de comunicação de hoje, se dão com um "glitch" de cada vez. O oceano, a infra-estrutura de piratas, estão sempre presentes neste som. Um continuum inquietante oscilante e turbulento no qual os graves se elevam como as exalações de baleias em suas viagens. Cardumes de sequências analógicas passam e se perdem novamente no escuro. Um tsunami de estática varre tudo antes, deixando apenas os fantasmas da faixa final.
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Punk is an eruption. Overthrow. A negation of social class and privilege. No Gods! No Masters! Raw, explosive energy. But energy to what? How can punk tell stories? Make histories? Build new worlds?

In the 1980s and 1990s, writers such as William Gibson and Bruce Sterling gave us one answer to this question. By cross-breeding punk with science fiction, to create "cyberpunk" : false histories, future histories. The Gernsback Continuum. Dori Bangs. Mistaken memories of mechanical computers.

Punk and science fiction. For a brief moment, the fiery comet of punk plunged into the imploding star of America's techno-optimist dreaming. And it was spectacular.

And then it fizzled. Cyberpunk was quickly reduced to a cliché of mirror-shades and James Dean with a head-full of chips. By the late 90s, technology put its suit back on and went looking for an IPO.

But Cyberpunk's not dead.

Or if it is, it's only temporary. Engulfed at the bottom of the ocean. 20,000 leagues beneath the waves, buried among the cyclopean tombstones of R'lyeh. It sleeps with the fish-people and dines with Drexciyans. The sea finds its own use for the things the surface world has thrown away.

And even in death, cyberpunk stirs, and sends visions, bubbling up from the deep web, to haunt the restless dreams of the waking world. Killer drones, troll-farms breeding fake news, zero-day attacks on the internet of things, Equation Drug, WannaCry, Sesame Credit, The DAO, the dangers of Artificial Intelligence. Cyberpunk is here amongst us. Whispering through the wifi.

There has never been a greater need for stories of the future fuelled by the disruptive energy of punk. Only punk is (paradoxically) both idealistic and cynical enough to grapple with the complexities that our hyperconnected, accelerated techno-economy and society throw up.

k[A]l3utun ov[E]rdriv3's EP brings us cyberpunk at its most mytho-poetically magnificent. A rich and confused syncretism of Anarcopunk, hacker-culture and Latin American magic realism : political critique as magickal ritual. Krakens and witches; a ghostly pirate ship haunts the seas off the coast of Chile; sea-lions absorb the souls of the drowned to build a necrotic artificial intelligence. An anti-colonial insurgency of guerilla poltergeists arises while the Mapinguari hunts Amazonia's rhizomic Matrix and the Abaçaí dance the deepest of learnings.

Robert Luis Stevenson and Jules Verne, various South American indigenous myth cycles are given a neural network "style transfer" from Arthur Kroker, Penny Rimbaud, Hakim Bay and the CCRU.

The music is not so much "composed" as "circuit-bent" out of the protocols of today's communication mesh, one distorted glitch at a time. The ocean, infrastructure of pirates, is ever-present in this sound. An oscillating roiling unsettled continuum from which basses bubble up like the exhalations of voyaging whales. Shoals of analogue sequences shimmy past and are lost again in the dark. A tsunami of static wipes out all before it, leaving only the angry ghosts of the distressed final track.
 
[released August 18, 2018]

[E]scUtÁcUlO d[E]sd[E] UmA [A]rt[E] prOf[A]n[A]tÓrI[A]


resenha criativa do álbum ORÁCULOS de edgar franco (ciberpajé)


o desenho do cruzamento de todas as nossas possíveis linhas de tempo, como a chama de centenas de molotovs antes de serem arremessados, dança em direções aleatórias. nossas relações com elas determinam nossas futurações. o acaso nos é fundamental. processos divinatórios perdem sua necessidade. outros devem ser instarados: artes profanatórias. pois, o que fazemos com a incerteza? a resposta é tão oracular quanto uma regressão à média, onde em virtude puramente do acaso, escolhemos um acontecimento corriqueiro dentre uma série extraordinária de situações aleatórias. não me interessa média nenhuma. preciso ouvir com atenção. preciso escutar o extraordinário. pois não me interessa resposta alguma. me interessa ficar com a pergunta. não como um culto à dúvida, mas sim como um cultivo da desconfiança à toda certeza. por isso crio, profanamente, aqui meu próprio escutáculo para melhor ouvir as HQ|oráculos de edgar franco, o ciberpajé.


escuta profana 01:
da estagnação, ilusões de padrões e padrões de ilusão? perceber-se é, antes de tudo, sim um ato imaginativo. perceber-se nunca é ter-se diretamente como completude, mas sim é ter-se sempre enquanto ambiguidade. nenhuma sequência aleatória tem como causa um desempenho extraordinário. primeiro lanço os dados em branco, depois desenho seus números. da estagnação jamais posso atribui o acso como responsabilidade de alguém.

escuta profana 02:
da reação, um efeito borboleta-fênix? pequeníssimos nascimentos e invenções levam a alterações gigantes no resultado de toda a terminalidade. com eles a causalidade deixa de ser fundamental e abre-se tal espaço ao acaso. este sim é o que nos fundamenta. nós, músicas improvisadas cujo futuro é difícil de prever e o passado impossível de entender.

escuta profana 03:
do desenvolvimento, uma cuidadosa combinação de probabilidades? dois eventos independentes, mas possíveis em ser combinados. quero descobrir a probabilidade de meus descendentes herdarem minha aposta e que o resultado de tal se dê ao mesmo tempo. o que faço? apostar que são mesmo independentes ou que são excludentes? multiplico as relações entre eles, ou as somo? enquanto aposto, também sorrio o sorriso eterno...

escuta profana 04:
da oposição, o ótimo social da cooperação e a luta pela sobrevivência da exploração? presas e predadores existem em estado de equilíbrio e ao mesmo tempo lutam pela sobrevivência de apenas uma dentre as duas espécies? são “inimigos naturais” enquanto indivíduos e “cooperativos naturais” enquanto espécies? o que nos parece luta desde o ponto de vista de um organismo individual é a função ordenada de um hiperorganismo?

escuta profana 05:
do fetal sapiens, seguir não se opõe ao ficar? pois seguir a diante não significa dar mais um passo, mas sim dar um salto mortal. e ficar não mais significa estar imóvel, mas sim tencionar os músculos para o salto mortal. o seguir a diante e o ficar se relativizam mutuamente, ambos tensionamento: tensão do centro de partida. ponto fixo cujo cordão umbilical se conecta a um ponto móvel, formando assim, em um salto mortal, o desenho de um círculo fetal.

escuta profana 06:
do obeso vazio, a obesidade mórbida de nossas imagens e a fome de como estar-no-mundo? o ter surge como revolução contra o ser. típica revolta pós-imaginação. ter e não mais ser é nossa mídia dominante: intermédio entre minha diversa dialética interna e as cenas monoculturais externas. cenas que, ao mesmo tempo, tornam imaginável meu ser e se voltam contra ele. revolução da vivência concreta como mero consumo. no entanto, isso não vai ficar assim tão impune: o ser quer libertar a humanidade de toda essa loucura alucinatória. a vingança tarda, mas não falha...

escuta profana 07:
do alívio, o que existe entre o sonho e o pesadelo é uma diferença de gênero ou de espécie? nenhuma das duas. mas sim, uma diferença ontológica, uma diferença de modo de existência: o alívio é, antes de tudo, a casa do pesadelo, ao morar nele, nossos sonhos existem. é uma escuta paciente e às escondidas do que será a nós mesmxs dados para sonharmos.

escuta profana 08:
do início, precisamos de uma cura para a vida ou nos deixemos infectar por ela? luta entre quem leva a vida na medida da pequenez da antropoformização e quem leva a vida na medida da grandiosidade da infinidade de formas. a vida torna-se uma questão de tomar outras formas, deformar-se e reformar-se. assim a anamorfose antiantropomórfica é uma questão vital: renascer é preciso.

escuta profana 09:
de sobre os soberanos, pão, circo e regicídio? a antiga ferocidade na conquista do pão foi substituída pela astúcia no conseguir os melhores lugares em um circo? os reis julgam que isso é um importante progresso? mas é preciso matar a fome e o tédio. é preciso ser heróis e heroínas da grande narrativa da história. nem que para isso sejamos xs inventorxs das formas das coisas que virão: democracia pelo assassinato, sim, nós podemos intervir na história. o rei está cru!

escuta profana 10:
do hipócrita, a arte de furtar e de educar? o espelho de enganos e de engodos? o teatro das verdades e das pareidolias? o mostrador de momentos raquíticos? a chave mestra das formas de governar? proteger-se do real? duplicação fantasmática? como nos proteger de um acontecimento passado ou presente?



as HQ|oráculos são uma técnica de apresentação por lentidão. é impossível deter-se nelas em um rápido vôo panorâmico. cada traço, palavra, significado e narrativa verbo-visual é um convite ao mergulho na reflexão, na memória e na imaginação – as vemos como presença lenta já que não vão desaparecendo mesmo que nos movimentemos. não li seus textos e imagens, mas sim fui evocado por ambos: e assim, torno-me aqui, portanto, [E]scUtÁcUlO d[E]sd[E] UmA [A]rt[E] prOf[A]n[A]tÓrI[A].


lÉO:|:p!m[E]nt[E]l:|:[A]m[A]nt[E]:|:dA:|:h[E]r[E]sI[A]
cerrado, verão, 2018


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sk[E]tch_bIfUrc[A]tIOn: labirintos que se bifurcam

sk[E]tch_bIfUrc[A]tIOn:
labirintos que se bifurcam
[resenha criativa sobre os sketch books
de gazy andraus e edgar franco]

léo pimentel [A]m[A]nt[E]:|:d[A]:|:h[E]r[E]sI[A]
cerrado, verão, 2018


bifurcação prévia, sujeita a emendas, no entanto, jamais definitiva, sempre esboçada... uma moeda na mão, dois caminhos em minha frente. por qual seguir? ambos rumam ao zênite. flutuam. ambos são uma dupla hélice de poesia e filosofia as quais se ligam através de ligações de éter. guardo a moeda no bolso. não quero escolher. quero caminhar por ambos. mas não primeiro trilhar um e depois trilhar pelo outro. mas aos saltos. os tomo como um labirinto em camadas, em planos diferentes que se entrecruzam. e assim, meu caminhar deve ser também labiríntico, multidimensional. não quero a completude de um nem do outro. quero me perder em ambos. flutuar por eles. flutuar com eles. mas... eles quem? que caminhos são esses que se bifurcam? pois bem: sketch book de edgar franco e sketch book de gazy andraus!

gazy: o esboço é definitivo. todos os traços, rastros da tinta preta e os espaços de respiro do papel do são transitórios: dos gestos mais leves da pena com nanquim às preções mais vigorosas da espada que desenha, tudo flutua e se desmorona ao mesmo tempo. tudo é vivo, morto, transcendente e imanente. a rapidez e a lentidão se dissolvem em dança. os grandes personagens e suas grandes poiesis existenciais estão destinadas à explosão expressiva e a calmaria pós-tempestades de fluxos e influxos. o poético-filosófico se traceja, ao mesmo tempo em que a subsistência se esvai.

edgar: da textura arenosa, é possível deslizar uma imaginação que, numa fluência áspera e fluída, não há ruínas tragas em si, há constructos de, ao menos um novo princípio. há ruptura com o disforme anterior para impulsionar outra anamorfose mais intensa de liberdade existencial em múltiplos planos. dos rastro que traçam minha vista, há valor nos fundos vazios que, se me são dialeticamente expressivos, pois permitem transcender arquiteturas, engenharias e designs. há algo que surgi como situações-limite que não se deixa sistematizar. nem tudo pode ser calculado. do vazio obtemos indicações do ser: a flutuação. acesso direto à transcendência, anúncio e cifra da transcendência.

gazy: há formas extremas de luz e sombras da poiesis do humano que se esquivam de qualquer filosofia – e vice e versa. não há esterilidade nas trevas, muito menos há impotência na extrema iluminescência. tipo de situação sem nenhuma promessa derradeira. basta em si mesma a vertigem à qual, prazerosamente, mesmo que com algumas ranhuras de dor, nos entregamos. diante dessa tempestade radical, aceitamos o risco de buscar doces e poderosas aventuras. pois estamos diante do nada grávido de tudo e do absurdo transbordante de sentidos. possivelmente pelos traços interrompidos por ligações referenciais não-lineares, que abrem fendas entre todas as linhas desenhadas, onde se preenchem palavras-portais. aqui outras cifras de transcendência. formas extremas de luz e sombras da poiesis do humano fazem rapsódias dessas cifras, e nos apresentam sinfonias de silêncios reflexivos.

edgar: erupção em um cosmo onde se prega, a todo o momento, a obsolescência das coisas e das pessoas, sua diversidade de rastros pós-humanos teima em permanecer viva. qualquer tentativa de tornar obsoleta sua pós-transcendência falham. é a própria impossibilidade de permanecer o mesmo que segue o fracasso mais radical dessa tentativa. a última barricada contra todo dogmatismo e contra qualquer imobilidade.

gazy: qualquer tentativa de adestrar esse fantástico relampejar e metrificar seu ser é inócua. os desenho que se articulam diante meus olhos me são um privilégio ontológico: quando tudo à volta está frio e congelado, o pulso, até então inacessível, subsiste. há muita fantasia dinâmica e inquieta para enchermos de filosofia e poesia. o que vejo diante de mim, posso certamente filosofar: o ser está nu!

edgar: é como se o espelhamento mais radical dos pós-seres tivesse o efeito de evidenciar, de desvelar o ser até então oculto. de tal modo que tive indicações do fim da eternidade. como se o espelhamento fosse o próprio viver intensamente o transitório. não são reflexões hiper-abstratas sobre o perecimento da desarmonia entre lados opostos e da fragmentação do mesmo. mas um revelar-se como cifra de si mesmo. é o mais profundo enfrentamento das situações-limites da repetição. o espelhamento aponta para o ser por ele revelado: ao invés de duplicar o ser, é, ao contrário, o senti-lo como uno.

gazy: desdobramentos e multiplicações de traços que se entrecruzam para compor uma ordem ontológica do desenhar: o desenho que torna visível o ato de ser. quando falo de ato de ser, estou pensando no tracejar como colocar-se a ser, quanto ao que está para ser está além do limite do mero ato. é um convite ao pensar e ao sentir o que está além desse limite do mero ato do traço, além desse gesto, poético-filosoficamente, como o nada grávido de tudo. aquilo que excede o presente cosmo das possibilidades: nos traços-limite revela-se outro cosmo, torna-se sensível aquilo que autenticamente é, apesar destes traços estarem há um passo do ato de ser transmundano, mas evanescente.

edgar: sua tendência, ou trans-tendência é mística. não é o “está por trás” do fascínio, mas sim é o que “está diante” dele: o fascínio nos desperta. tenha a pós-natureza que tiver, não há mais satisfação diante da ruína do humano. não há aquele sorriso de alívio iluminando nossa perversão para com o fim de tudo. como posso não me sentir bem perante a devastação do todo, já que eu mesmo findarei? como posso olhar para as ruínas do humano e não sentir paz? pois bem, as respostas dadas aqui conduzem ao não, já que todo o pós-humano desses traços conduzem a seguinte declaração: há, sim, um sentir-se bem e uma paz nas ruínas e na devastação, a de que tais são mera antessala da transcendência: uma fonte de alegria, júbilo e de satisfação já se encontra no mero fato de que deixarei de existir desta maneira aqui presente.


que delícia de labirinto: passos labirínticos para labirintos que se bifurcam. meu pés riscam as poeiras das estrelas que ambos forjaram com pena, tinta e grafite. atos de forja que nos livram de qualquer hegemonização da expressão. desenhos capazes de aberturas para outras visões de mundo e para outras criações de cosmos.


*****


nO AcErbO cOlO dA mElAncOlIA InsUrgEntE

pUnk[A]l_sUlUk
duna V, baixo paraíso, 4713 psr/ls


exm* amigxs desconhecidxs
morada indeterminada
em mãos, desde o acaso

escondido dentro de uma caixa metalicorgânica de ressonância mórfica artificial, sob uma das cachoeiras das cataratas de poeira de iguaçu, encontrei a mensagem abaixo – um conjunto de holonotas. não está intacta. muito menos está em seu estado original. há muitas mãos, de carbono e/ou de silício, que a tocaram e a transformaram ao longo do espaço-tempo do silêncio e da hiperconexão. assim, sua beleza foi ampliada e reverberará em nossa web-kundalini. em meu caso, para tal ampliação e reverberação fiz uso dos encontros em nós de sonhos artificiais, com uma belíssima e poderosíssima xamã ancestrofuturista que guia, com grande sabedoria, nossos quilombos nômades, há milênios. seu nome é :{v1ctÓr14}:, uma sábia e indestrutível pós-humana que habita a consciência da rede neural que conecta todas as iaras-amazonas do presente, do passado e do futuro.

eis o conjunto de holonotas outrora escondido e descoberto, por hora revelado e aqui embelezado:

Céu ocre. Bela atmosfera enferrujada. um tom cromo amarelado em todas as coisas. ruídos, quase harmônicos, entre o som das cigarras ciborgânicas e o ranger das vigas de concreto nanorobóticos que balançam com as lufadas de vento ácido que, ritmicamente, lhes tocam. O cheiro é de um tipo estranho de hortelã transgênico modificado com o DNA de algas marinhas abismais. Chuvinha fina. Com a língua pra fora dá pra sentir o sabor de jambu das gotinhas que caem do céu.

– Havia um tempo em que um único número reunia informações do século, ano, mês, dia, hora, minuto e segundo. Ah… havia um tempo…

– Havia um tempo em que as zonas erógenas de meu corpo eram apenas ímãs como em uma bússola… Ah… havia um tempo…

– Lembro com uma nostalgia curiosa…”

Há muitos ciclos gammas de PSR B1259-63 e LS 2883, que venho tentando descifrar de onde veio essa mensagem. Ela me chegara pelo drone-correio anonimamente. Mas claro que ela não estava endereçada para mim. Eu precisava capturar esse drone e pegar suas peças para eu concertar minha moto magnética. Eu precisava de um navegador que funcionasse. Mas tenha certeza que, se assim, me chegou, assim te chegará também. Mas o que mais importa agora é saber que adoro enigmas. E este me foi uma delícia decifrá-lo. Se não o consegui, pelo menos que eu o replique em outros caminhos bifurcados.

Visões 01: Descobrir desde onde no planeta vê-se um céu ocre.
Da caatinga parti. Minhas bolsas bandoleiras têm tudo o que preciso para sobreviver a essa viagem. Segui rumo às ruínas de uma das bibliotecas ocupadas pelas “Anciãs Livres”. Ficava no meio do cerrado. Eu precisa falar com Tuirá, guardiã-matriarca de uma belíssima rota para um dos mais belos futuros proibidos.
[...]
Após algumas sessões de jurema, Tuirá mesma projetou no meu recente equipamento de navegação as seguintes coordenadas 34° 24' 50.77" S - 21° 13' 03.66" E. Não demorou muito para ver que o caminho me era impossível. Havia um oceano entre nós. Minha bússola holográfica mostrava, na palma de minha mão, o local. E piscava sobre ela o nome “Caverna Blombos”.

Visões 02: Ir até a África sem precisar de movimentar-se pela meatspace.
Tuirá me diz que há um domo holográfico carinhosamente apelidado de planetário, há uns 300kms daqui. Preciso ir. Mas ela me alertou que terei de levar uma máquina, movida a gasolina, que ainda esteja funcionando, para fazer uma oferenda, junto aos Seres Projetores|Receptores [conhecidos como povo Girassol] que cuidam do local. Seres curiosos, máquinas-flores com sentimentos humanos, demasiado humanos, movidos a luz solar. Sempre que podem sacrificam “bebedores de petróleo” ao Sol – como costumam dizer.
[…]
sacrificamos um antigo walk machine. [Quase perdi meu terceiro braço para consegui-lo. Minha sorte foi que na luta no bar, o garçom era meu amigo e o chutou para baixo do balcão, e de lá meu braço pôde, remotamente, dar tiros certeiros]. [...] Em retribuição, João-de-Deus-está-morto, o Gran-Girassol do planetário, fazendo uso de ayahuasca e holografias enteógenas me conduziu até o interior da Caverna Blombos. Sim, era lindo, e... ocre! Mas infelizmente não tinha uma atmosfera enferrujada. Muito menos haviam “coisas” em tons cromo amarelado. Pois ali não havia luz externa. Toda luz era levada por nós.

Outros ciclos gammas de PSR B1259-63 e LS 2883 passaram. Tive que abandonar as pesquisas pelos olhos. Desta vez minha tentativa será pelos ouvidos. Como o mencionado na mensagem capturada, eu devia ouvir harmônicos de cigarras ciborgânicas e concretos nanorobóticos vibrando. Ouvir tal som tão específico, talvez se consiga descobrir o local de envio da mensagem.

Audições 01: Procurar os ouvidos mais delicados e refinados.
Havia uma comunidade na Chapada do Ornitorrinco Elétrico cujo ritual de maturidade era a abdicação dos olhos. Para se tornar uma pessoa adulta o olhar era algo obsoleto. E, em cegueira ritual, por meio do psilocybe cubensis, conseguiam ouvir a música do movimento das esferas celestes. Somente o ouvir conseguia alcançar horizontes tão longínquos. E por tal abdicação, com o correr dos ciclos, seus ouvidos passavam a reconhecer a menor vibração sonora e a ecolocalizar sua origem com uma precisão fora do comum. Tanto que, neste exato momento devem estar ouvindo os meus pensamentos sobre ela.
[...]
Sim, foi o que aconteceu. assim que eu me aproximava da comunidade, um cântico me era endereçado. Não sei como faziam, pois eu não tenho a menor ideia de como funciona a relação entre receber e emitir som. O que sei é que meus sentidos não conseguiam decifrar o que queriam me dizer. Mas gravei o áudio em meu capacete de ressonância mórfica artificial.

Audições 02: Encontrar cypherpunk colaborativo.
Foi em um sítio arqueológico de parques de diversões que o encontrei. Por lá todas as pessoas usavam uma mesma máscara branca. Era uma só, mas tinha nela os dois rostos do teatro. Comecei a rodar a gravação. Logo alguém disse ser especialista em esteganografia sonora. E logo se pôs a me ajudar com aquilo. Mas claro que não foi de graça. Mas é bom lembrar que nossa economia pirata não comete nenhuma injustiça entre nós.
[...]
Sobre o cântico gravado descobrimos um trecho do livro “All the Birds in the Sky” de Charlie Jane Anders. O trecho indicava as coordenadas de um local que era um exato cruzamento temporal entre a escravidão e a liberdade: um bunker que funcionou, há centenas de ciclos, como abrigo à radiação da era Pós-Agroterrorismo-de-Estado.

[...]
Enfim, cheguei ao bunker. Foi uma perturbadora viagem por dentre cidades-fantasmas-na-máquina. […] Ahá…. ai está você. [...] Enterrado sob uma antiga Catedral, que há muitos ciclos deixara de ser branca. Sua arquitetura é de um estilo pensado como escombros milimetricamente apoiados uns nos outros. Uma cartesiana geometria do caos. Mas também há sinos e enormes pedaços de estátuas enferrujadas abandonados ao lado. Parecem esculturas de anjos. Ou seriam de ícaros? Não sei. Não entendo nada de mitologia jurássica. Curiosamente há pessoas morando nele. Pessoas estranhas. Muito formais em gestos e em vestimenta. Parecem usar potentes protetores de ouvido. Acho que não suportam som algum. […] Não param de me encarar. Mas ao mesmo tempo parecem me ignorar. Que olhos estranhos. [...] O cheiro aqui é horrível. É preciso máscara. Um local tão higienizado como este. Como isso é possível? Mesmo parecendo escombros, tudo é tão limpo. Tudo está tão no seu devido lugar. […] Aqui as coisas têm um tom de cromo amarelado. A luz alaranjada do sol entra pelo que chama de cobogó e colori todas as coisas. Mas…. deveria ter algum odor... pelo menos de terra molhada. Está caindo uma estranha chuva fina. [...] Vou forçar uma conversa com alguém e ver o que têm a me dizer.

(ruídos indescritíveis e muita interferência na imagem)

fim das holonotas. senti náuseas. uma certa vertigem me envolveu. pois o afeto vinculado com o final da gravação, foi o de surpresa e horror ao mesmo tempo. desconfio que a tragédia foi companhia desse nosso ou nossa amiga que desvendou parte desse enigma e lhe impossibilitou continuar. minha cabeça doi. meus olhos ardem. sinto um gosto metálico na boca. há uma queimação em meu peito. será essa a sensação da shawara que ataca os pulmões de xamãs? pode ser, pois conheço este último lugar descrito apontado pelas audições. e certamente a mensagem enigma não partiu de lá. aquelas pessoas são incapazes de atos não burocráticos. interessante é que os olhos e os ouvidos são apenas a metade do caminho para se saber desde onde se enviou tal mensagem. será mesmo a metade? não seriam apenas uma pequena fração?

mas curioso que essas holonotas nada dizem sobre a mensagem mesma... será que o lugar não terá sido criado pelo afeto e pelo corpo de quem a enviou? algo que aprendi com a sábia :{v1ctÓr14}: foi que o mundo é criado de dentro pra fora e não o contrário. cosmos inteiros criados desde o tato de nossas línguas – saber sabor. cosmos inteiros criados desde o tato interior de nossa pele – derme|cosmos. mesmo que sintética e hibridizada com silício. sim! levarei esse enigma para ela me ajudar a encontrar uma solução. e esta não precisa ser a do local desde onde partiu a mensagem. quero algo mais profundo. quero ser encarado pelo abismo.

atenciosa e afetivamente
pUnk[A]l_sUlUk


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é isso compas do baleia|punk[A]biohack|lab. eis nosso segredo fundante. a aurora crepuscular na qual nossa inteligência eroticoletiva teve início: pUnk[A]l_sUlUk se encontrou com :{v1ctÓr14}:. nesse encontro nos foi ensinado que nossas zonas erógenas são parabólicas. é por meio delas que captamos e criamos outros mundos. este último decifrador|ilusionsita do enigma da mensagem, acrescentou um ruído na informação para que jamais nos descobrissem para nos perseguir, se a decifração fosse apenas desde a racionalidade fria e calculista. que nos descubram pelo amor! foi em tal encontro que :{v1ctÓr14}: lhe aconselhou a acrescentar o toque da “nostalgia curiosa”. para que, na verdade, só alguém, cujas as dobras do corpo fossem a mais pura e genuína transformação de si em si, sentisse a beleza de uma melancolia insurgente. sim, sentir saudades de um mundo a ser criado é o primeiro passo para criá-lo.

O DiA Em qUe O t[E]mpO [A]r²U[A]c[E]1r0 s[A]bIn[A]m[E]nt[E] mE sUsp[E]nd[E]u

O DiA Em qUe O t[E]mpO [A]r²U[A]c[E]1r0
s[A]bIn[A]m[E]nt[E] mE sUsp[E]nd[E]u
resenha criativain [A]n[A]rqUIsmO_f[A]nt[Á]stIcO do
ep “tempo arruaceiro” da banda “maria sabina e a pêia

l[É]O.Π.:|:[A]m[A]nt[E]:|:da:|:h[E]r[E]sI[A]
c[E]r²[A]d0, 0Ut0n0 2017


1. tempos, alto lá! brindemos o fim desta eternidade! o fim dos confins da suspensão da terminalidade entre a morte e o nascimento;

2. e depois do sobreviver; e depois, ainda, do negar-se a fazer nascer: do que sobrou dos futuros entrelaçados pelos ventos da imaginação póstuma e pelos ventos das memórias abortadas.

3. respirem! sintam os aromas e sabores destes vinhos extraídos de cada zona erógena em gozo de todx viajante que por aqui passou!

4. brinde como eu, no crepúsculo dessa aurora, sobre esse adorável cinza do cerrado pós-brasília, nu encharcado de vinho de buriti!

5. mas tempos! dê um passo diante de mim aquele cujas curvas são da mais impura impostura!

6. sim! perdoe-me a simulação de acaso. pois era você mesmo que eu aguardava um brinde. ah… tempo arruaceiro, com o que me brindas?

7. “eis aqui uma bela mistura entre cores para os ouvidos, sabores para os olhos, perfumes para o paladar e belos sons para o olfato! maria sabina e a pêia!”

8. então, fluíram azeite de baru pelas minhas articulações, lubrificadas para a dança sobre qualquer abismo, até cair-me nele para retornar-me a esta minha última jornada.

9. pois bem, tempo arruaceiro, anuncie-se! e assim foi, pela doce e estremecedora voz de maria sabina e pelos poderosos e dóceis instrumentos da pêia!

10. tempo arruaceiro: és um saci anárquico que viaja no meio de belos e fortes redemoinhos tombadores de viaturas e caveirões? sim! és tu! ninguém consegue prendê-lo em garrafa alguma! fuck all sistem!

11. ah... saci anárquico brincalhão, amigo de travessuras antissistemas! sinto o perfume de suas arruaças! já me sinto tão cheiroso! obrigado! seguirei originalmente seus passos dentre deste redemoinho que me presenteaste!

12. “vá em frente, destrua qualquer rédea. não se esqueça de comer daquele fruto proibido que aquelas belas, fortes e geniais árvores lhe darão!”

13. herdeiras de antônio conselheiro: ah… que belo fogo rodeia aquelas árvores! elas se movem? sim! suas raízes são aéreas! que frutos suculentos! e que folhas mais encantadoras! sim! que grande festa! são elas! as herdeiras de antônio conselheiro dançando com caiporas molotovs!

14. “toma! coma deste fruto em chamas! queremos você grávido de nós! adoraríamos esta sua última ousadia! seja arrebatado por nós! seja multidão! esqueça o horizonte de ser um. seja árvore frutífera também!”

15. e assim, grávido destas herdeiras segui até o alto de uma duna onde ouvi o sussurro de um juramento irrevogável. a voz me pareceu muito amigável. pareciam palavras sussurradas desde o lascivo e inocente amor de amigo…

16. amor de amigo: “desobediência mútua… muito amor mas com um pouco de guerra… seja criança, embrião amoroso do esquecimento e do novo começo… esse é o nosso segredo: domamos o boitatá institucional dos afetos… o sonho é nossa zona autônoma temporária, nosso quilombo autonomista… ah… amor mútuo… amor em progressão fractal… transbordante… desobediência mútua...”

17. transborda minha libido. tais sussurros são fatais para qualquer tipo de ciúme – este maldito assassino, controlador e feminicida. sussurros como flechas envenenadas que despedaçam qualquer coração ciumento. obrigado intensa consciência feminista. limpaste-me e me libidinaste.

18. quando as plêiades surgiram no céu, sou suspenso de meu redemoinho. o vejo de cima. curiosamente ele parece me esperar. acaso foi algo combinado antes? quem me suspende? seus ganchos em minhas costas não estão frios.

19. eu, você e os garçons: onde está todo mundo? cadê toda arquitetura, urbanismo, civilidade? hum... tem algo selvagem, primitivo no ar! hum… sinto vários aromas! sim! são diversos tipos de álcool! álcool de araticum! álcool de murici! álcool de magaba! álcool de pequi! quanta cachaça de cerrado pós-apocalípse!

20. hahahaha vocês de novo! curupiras molotovs! mais uma vez vocês são nossos garçons! sim, para nossos paladares de fogo só vocês mesmxs para nos servir estas pêias! obrigado a vocês e a você sabina por me oferecer esse banquete etílico!

21. ali, eu em suspensão, maria sabina em pêia e os caiporas molotovs em libertinagem libertária com nossa embriaguez. um reino-limbo de uma rainha anarquista e de súditos insubordinados.

22. que zona crepuscular temporal és! tempo arruaceiro! pois teus véus cinzas são policromáticos! erguem-se por sobre mim, meu redemoinho e por sobre esse abismo como se fossem colunas de um templo. o que pretendes? espiritualizar um sem espírito?

23. igreja mundial da transpiração: evocas o exu-anarca que habita minha ausência de espírito. evocas e acolhe sua insubordinação replicante. reforças seus livramentos. livrar-se-á de tudo o que é hierarquia e autoridade. livra-te mas com muito suor. pois é preciso arregaçar as mangas e meter a mão na massa imaterial.
 
24. sim, despregação de fé para nossos pés! despregação de fé para que possamos dançar! belo samba profanamente sagrado para o desencantamento!

25. sim, para que nos encantemos é preciso desencantar todo encantamento! trans-piremos! piremos em transe! trans-tornemo-nos! tornemo-nos trans!

26. no fim da eternidade seguinte, era como se vitórias-régias queer-punks fossem beber de uma cerveja aromatizada com mururerana;

27. e eu, embriagado com tal pêia temporal arruaceira de maria sabina, nas dobras mais tortas do cerrado pós-brasília, fosse recolocado outro, de volta a minha última jornada… o :(){cEm!tÉr!O:|:dE:|:ElEpUnkEs};: ainda me espera...
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