sugestões de uso deste blog

bem vindo e bem vinda. este é um labirinto herege: um desafio para medir a astúcia de quem me visita; um convite à exploração sem mapas e vista desarmada. aqui todas as direções se equivalem. as datas das postagens são irrelevantes. a novidade nada tem a ver com uma linha do tempo. sua estrutura é combinatória. pode começar de onde quiser. seja de uma imagem, de um texto, de um vídeo ou mesmo de uma música. há uma infinidade de escolhas, para iniciar a exploração, para explorar esse território e para finalizá-la. aproveite.
Mostrando postagens com marcador marcia tiburi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador marcia tiburi. Mostrar todas as postagens

novo e-livreto: dOnA dIAbOlUs & sEUs dUAs mArIdOs

[terceiro e último e-livreto da série de intromissões nas cartas de marcia tiburi: - desta vez transfigurei o "diálogo | cinema" em "diabolus | cinema". a diferença deste é que não retirei seu interlocutor. minhas intromissões foi para ambos.]

[para baixar meu e-livreto "dona diabolus e suas dois maridos (diabolus|cinema)": https://goo.gl/ioUMzP]

***

"não há outro real além do secretado pelas ilusões coletivas. no entanto, há possibilidades de as ultrapassarmos: a dimensão fracionada entre a sedução e o artifício. dimensão esta que, no presente caso e possibilidade de ultrapassagem, se presta a ser uma composição de palavras sobre a restituição de um fluxo óptica de pensamento – oposição radical à realidade (subjetiva ou privada) como destino: o cinema. composição verbal de um(a) diabolus, que além do humano, se deita na cama e desposa duas maridos, para, desta vez, em ato pornográfico, meter-se, intrometer-se e ser metido, por marcia tiburi e julio cabrera."

***

tiburi, marcia; cabrera, julio: diálogo|cinema – são paulo: editora senac são paulo, 2013. - [http://goo.gl/z5h8wk]

***
trAIlEr:


agora em e-livro: o retorno do diabolus: missão fotográfica (respondências à marcia tiburi)

sim, juntei as oito (cor)respondências, que enderecei à marcai tiburi em diabolus à seu livro "diálogo|fotografia" (http://migre.me/eduXR), num e-livro, leia aqui: 

O rEtOrnO dO dIAbOlUs - mIssÃO fOtOgrÁfIcA - léO pImEntEl (2013) 
ou
http://migre.me/edvaz
ou
baixe em pdf:
 http://pt.scribd.com/doc/137202542/O-rEtOrnO-dO-dIAbOlUs-mIssAO-fOtOgrAfIcA-leO-pImEntEl-2013-2

abrazos
léo pimentel, amante da heresia


08 [(cor)respondência oitava – game over] - o retorno do diabolus à marcia tiburi

08 
[(cor)respondência oitava – game over]


assim falou marcia: “o passado não se move para mim (...) vejo que a fotografia e a filosofia tem em comum esse anacronismo, é como se o dentro e o fora da história correspondessem a algo sempre presente e, ao mesmo tempo, desde sempre ausente. mas somente esse anacronismo é capaz de captar o devir das coisas.” 

marcia, aproximando a fotografia da filosofia desse modo, é interessante ver o ponto desde onde você promove essa horizontalidade: o anacronismo. algo que também usei, mas de modo um tanto louco, em minha respondência segunda à ti. que inclusive o exercitarei como uma radicalidade política. sim, pois pelas vias do anacronismo irei dizer algo sobre essa captação das coisas ao mesmo tempo presente e ausente que você aponta e do confronto dos idos e dos foras.

“o passado que não se move” posso pensar que é o outro lado do espelho que é a fotografia e a filosofia. é o lugar onde acontece, outra história, numa espécie de cronologia paradoxal (anacrônica) de uma lógica da rebeldia contra modelos. esse outro lado é um olhar para trás que nos faz caminhar para frente. (tal qual faz a atual modernidade indígena contra a medieval mentalidade oligárquica da atual agroindústria.) olhar para uma fotografia funciona como uma dupla memória: próxima e distante. pois uma insurge permitindo uma série de atualizações de uma história próxima; ao mesmo tempo a outra convoca-me para aquilo que a fotografia trouxe e que não acabou – atualizações de uma história distante. 

“presente ao mesmo tempo ausente” apenas como uma história enquanto complexo sistema de devires. onde os devires da memória próxima se reformula pelos termos dos devires da memória distante e vice-versa. darei um exemplo: uma fotografia tirada ontem em são paulo, de pessoas trabalhando numa grande área de plantação de cana-de-açúcar. que passado nela não se moveu? que presente e ausente nela estão? será que trabalho escravo, exploração fundiária, monocultura nos diz algo sobre ontem e hoje? ah... fotografia anacrônica de memória anfíbia!

assim falou marcia: “o que a fotografia faz é dar ao presente a sensação de sua ilusão à medida que confronta com a imagem de um ido ou de um fora.” 

e quanto às ilusões dos idos e dos foras? limites da visualidade do outro lado do espelho? instantes fluidos aonde dentro e fora, ido e vindo, interagem? reversão da cegueira do olhar que opera por estereótipos! sim, aquilo que a fotografia, enquanto análoga à filosofia, capta a aparência invisível para nossos olhos. devemos para ver, desaparecer enquanto ser-espectador/a e aparecer enquanto estar-aí que compartilha a experiência com seu tempo (memória próxima), com sua história (memória distante), com o tempo e história também de quem fotografa. a imagem fotografada não mais se presenteia como meros universos visíveis, mas antes, como universos sensíveis, mas, também, sem muito acreditar em sua “realidade”, já que nenhuma iconicidade é uma representação análoga do mundo e da temporalidade. nessa experiência paradoxal crônica e anacrônica “ver” torna-se o mesmo que “fazer ver em perverter”. mas enquanto tivermos olhares apressados, que antes de ver tudo já está definido, dado, estaremos nessa ilusão que tu dizes, marcia. 

para nós, marcia, hereges, a fotografia filosófica ou a filosofia fotográfica destitui o puramente visual para tornar-se uma globalidade tanto do sentir quanto da práxis. se, como diz nosso amigo julio cabrera, o cinema é logopático, e logo a fotografia, temos que ir um mais longe que ele. temos de pensar que, ambos, cinema e fotografia, não se reduzem a apenas essas duas dimensões, que imageticamente poderíamos imaginar que correspondem ao cérebro e ao coração, mas que antes, há um terceiro ideologicamente excluído aí, as mãos! ou seja, a fotografia é algo logo-pático-práxis (ver-sentir-fazer).

léo, amante da heresia



passarela subterrânea entre as quadras 111 e 211 – asa norte – brasília | léo pimentel | 2012


07 [(cor)respondência sétima] - o retorno do diabolus à marcia tiburi

07 [(cor)respondência sétima]


assim falou marcia: “literatura não é roteiro, fotografia não é frame.” 

marcia, gosto dessa demarcação de território que você faz entre literatura e roteiro e entre fotografia e frame. porque isso raramente é problematizado. o cinema e seus outros. a fotografia e seu outro em ilusão de movimento. mas, antes, algumas palavras tangenciais. sempre penso que, quando um/a cineasta, que é ao mesmo tempo roteirista e diretor/a, ganha um prêmio de melhor roteiro, é como se dissessem a ele/a que sua peça literária é melhor que sua peça cinematizada. algo nessa linha também penso sobre a coisa da “melhor fotografia” em um filme. pois é um reducionismo impressionante estabelecer que, a concepção da imagem cinematrográfica, deva ser tal qual a concepção fotográfica. é como se dissessem que há apenas uma forma válida de conceber tal tipo de imagem: a forma geradora de situação de crença conduzida pela condição fotográfica. sim, situação de crença, já que a fotografia opera, em sentido moral, numa lógica de verossimilhança, mesmo que remota, com o mundo – aquilo que faz com que, ao vermos uma fotografia, confundamos representação com a realidade. 

parece-me que a fotografia não sendo frame, é um fato do passado e não um fato passado, como é um frame. desse modo ela adquire uma maior liberdade para mostrar: o presente das coisas passadas (memória), presentes (atual) e futuras (expectativas). 

assim falou marcia: “o fotógrafo é a testemunha que luta contra o esquecimento. mas que tipo de esquecimento é esse contra o qual luta a fotografia? que memória é a memória da imagem?.” 

ah, adorarei responder estas questões! pois adoro pensar o esquecimento. esquecer é, existencialmente, perder informações, e politicamente, esquecer é ocultar, deshistoricizar. o primeiro tipo de esquecimento está relacionado à memória curta (consciência temporal), àquela relacionada ao tempo de vida que vai do nascimento e a morte de alguém; já o segundo tipo está relacionado à memória longa (consciência histórica), àquela relacionada ao tempo das coisas que estão para além de nosso tempo de vida. 

o esquecimento relacionado à consciência temporal aparece como certa comodidade diária: diversão, entretenimento, prazer, etc. já o esquecimento relacionado à consciência histórica aparece como algo radicalmente incômodo: preconceitos, discriminações, ocultamentos, dominações, etc. partindo daqui, entendo que o esquecimento, pode ser pensado, antes de tudo, como o próprio objeto pelo qual batalham fotógrafos e fotógrafas. assim como o poder político é o objeto pelo qual batalham a esquerda e a direita. mas, contra quem eles e/ou elas lutam? eu diria contra si mesmos/as. sim, é como se houvessem fotógrafos/as que militam pela fotografia de comodidade diária (fotografias onde vigília e sonho se equivalem – publicitária, de glamour, etc.) em confronto com aqueles/as que militam pelos “mortos” incômodos (fotografias gerando a história e esta gerando fotografia). 

e nesse campo de batalha, o espólio de guerra seria a memória da imagem mesma. cujo tipo que você pergunta, marcia, seria a traiçoeira: memória traiçoeira da imagem. sim, aquela cuja traição é sempre realizada por cansaço, por tédio, ou por inércia. e por tal, necessitam de uma permanente auto justificação, de um monte crescente e denso de explicações e auto-engano. sim, pois ao fim da batalha, após contar os/as mortos/as, vê-se que somente as imagens permaneceram vivam. e somente permaneceram assim, por que traíram seus fotógrafos e suas fotógrafas! os/as traíram dizendo para nós que traíram para se salvarem da morte e para escapar do horizonte do esquecimento. pois se perguntam entre si: o que de memória e o que de sonho somos compostas? é possível destacar da memória nosso sonho ou o pesadelo? 

assim falou marcia: “a fotografia é uma ‘forma’ em relação à qual o conteúdo é apenas um vestígio.” 

pensarei essa ideia acrescentando a afirmação de jean-luc godard em “histoire(s) du cinéma", vol 3 – la monnaie de l’absolu. une vague nouvelle, que “a forma pensa”. com esse acréscimo, marcia, sim, concordo contigo que o conteúdo seja vestígio da forma. sim, pois, é pela sua forma que a fotografia alcança o ver; que alcança todo seu poder ideário. alcance sistêmico entre eu, você, o contexto, a imagem, quem a fez, quem a contempla, dentro de um espaço-tempo histórico e a-histórico. é forma viva que participa de sistemas de pensamento. e por isso, ótimas para mentir; ótimas para trair. 

interessante isso do conteúdo como vestígio. pois são os vestígios, de qualquer conteúdo, o que mais intimamente está ligado aos discursos ideológicos: dependem do tipo conservador de realização das associações politicamente arbitrárias e convencionais. é se mais fácil assimilar uma ideologia, quanto mais a forma for sutilizada. quanto mais padronizada é uma forma, ou quanto mais se está confortável formalmente, maior é o convencimento e mais fácil é a assimilação de um valor ideológico. como eu disse: ótimas para mentir; ótimas para trair. 

assim falou marcia: “a fotografia revela apenas a si mesma.” 

ah... essas traidoras... por vezes vão se deitar guerrilheiras e acordam agentes do governo... por vezes vão se deitar agentes do governo e acordam guerrilheiras... 

léo, amante da heresia



passarela subterrânea entre as quadras 109 e 209 – asa norte – brasília | léo pimentel | 2012 

06 [(cor)respondência sexta] - o retorno do diabolus à marcia tiburi

06 [(cor)respondência sexta]


assim falou marcia: “percebi que a literatura e a fotografia eram mais afins do que eu poderia imaginar. também o escritor quer salvar a alma das coisas, de uma história, de um tempo, de uma memória, de um sentido possível...” 

curiosa essa aproximação que vc faz, marcia, entre literatura e fotografia: ambas como resultado de intenções salvacionistas! já que ambas as tecnologias intelectuais seriam geradas com o propósito de salvar, de uma espécie de pecado original – a degeneração diabólica – o instinto vital “das coisas, de uma história, de um tempo, de uma memória, de um sentido possível...”. 

essa curiosa aproximação me faz lembrar um artigo de isaac asimov, chamado “os robôs que conheci”. nesse artigo, asimov nos diz que antes dele (1940), apenas um enredo sobre robôs era viável: o da perigosa criatura mecânica. depois dele, tal melhorou consideravelmente, por uma simples reviravolta de perspectiva criada por ele: a de que robôs não deveriam mais ser considerados imitações diabólicas ou artefatos de maldição da alma dos seres humanos, mas sim máquinas sofisticadas. tal reviravolta é conhecida como “as três leis da robótica”.

asimov? por que eu trouxe aqui tal físico e escritor de ficção científica? robótica? o que tem a ver com a literatura e a fotografia? para sugerir que, analogamente, farei o mesmo: sugir aos/às salvacionistas mergulhados/as na literatura e na fotografia que ambas, tanto não são ferramentas de salvação, quanto não há nada para ser salvo, mas sim que ambas são meras tecnologias intelectuais, bem ou mal projetadas. engraçado, é que existencialistas e outros/as místicos/as, ficarão extremamente incomodados/as com tal sugestão, mas isso aqui pouco importa, inventarei, assim mesmo, aqui minhas “três leis da literatura e da fotografia”, tais quais as da robótica de asimov. mas claro, não perderei de vista que toda lei é inventada, apenas para ser quebrada. vamos lá:

primeira lei: uma literatura e uma fotografia não podem nada salvar, pois não há coisa alguma que possa ser melhorada, corrigida ou sublimada.

segunda lei: uma literatura e uma fotografia devem ser mero suporte possível de pensamento-escrito e pensamento-imagem arbitrariamente e ao bel-prazer de quem escreve e de quem fotografa, a não ser que entre em conflito com a primeira lei.

terceira lei: uma literatura e uma fotografia devem ocupar papel central apenas na imaginação no funcionamento da inteligência, a não ser que essa ocupação entre em conflito com a primeira ou com a segunda lei.

estabeleço que estas leis acima estão firmemente implantadas em cada palavra e imagem da literatura e da fotografia. o resto nasce aqui. – opa, acho que já li esta frase em algum lugar... ah! sim! é o artigo sétimo da lei contra o cristianismo de nietzsche.


assim falou marcia: “enquanto a fotografia nos dá uma memória da morte, a sociedade visual nos dá uma enganação sobre a morte que nos mata.” 

antes, longe de as minhas leis limitar a imaginação inventora elas servem como inspiração. e para testar isso marcia, esta sua ideia é muito boa. primeiro porque desenha um triângulo obtuso (fotografia, morte e sociedade visual) que nos serve como variáveis mínimas para o teste, e depois, porque a morte é nosso horizonte utópico de representação absoluta. 

trecho seu, marcia, “enquanto a fotografia nos dá uma memória da morte...”, trecho de minha primeira lei, “a fotografia não pode nada salvar...”, portanto, nosso primeiro teste, a morte. é possível termos uma morte melhorada, corrigida ou sublimada? ah... quanta religião, filosofia, arte, pseudociência foi inventada para esse propósito? alguma delas conseguiu melhorar, corrigir ou sublimar acontecimento tão inadiável? segundo minha primeira lei, a resposta é não. e ainda acrescentaria que tais invenções, no máximo, conseguem ocultar para o auto-engano! 

seguindo, é possível termos memória da morte? a fotografia passa pela minha segunda lei, já que ela nos serve como suporte possível de pensamento-imagem arbitrariamente e ao bel-prazer de quem fotografa. pois, é impossível uma memória autêntica, já que só quem lembra é quem está vivo. mortos/as não tiram foto. a memória no caso é um lembrete, um tipo de memória artificial (arbitrária), do que logo irá acontecer, a morte. e nesse sentido, a fotografia como memória/lembrete “ocupa papel central na imaginação no funcionamento da inteligência”. 

marcia, agora, vamos ao segundo trecho de sua ideia, “a sociedade visual nos dá uma enganação sobre a morte que nos mata”. hahahaha, veja que curioso! tal é a própria expressão do conflito com minha primeira e segunda lei. pois a intenção enganadora da sociedade visual que tu dizes, é o que logo acima eu disse como “ocultar para o auto-engano”. pois sozinho/a e vivos/as fotografamos. como um/a morto/a não pode fotografar, uma sociedade também não. a “morte que nos mata” é a própria mortalidade constitutiva de qualquer vivente: do/a fotógrafo/a, da fotografia, seja ela impressa ou em condição digital. e como aqui assumi uma posição mais mecanicista, a lá asimov, e menos moralista, a lá salvacionista, tanto um/a morto/a quanto uma sociedade são desprovidos/as de inteligência em funcionamento. ou seja, não possuem imaginação para tal (minha terceira lei), o único que ocupa papel central é o “ocultar para o auto-engano”. 

assim, levada em consideração a aplicação que fiz de minhas três leis, uma última sugestão, no caso, uma correção: para que uma sociedade visual abandone sua perspectiva enganadora/ocultante e limitante/auto-engano, ela deve se tornar uma associação visual; tornar-se uma associação para o visual, como comumente se fazem uma associação para o crime, ou seja, trazer para dentro de si a terminalidade própria de quem fotografa (nada poder salvar, arbitrariedade, imaginação inventora) e da fotografia mesma (suporte de pensamento imagem, memória/lembrete). 

léo, amante da heresia




rosto de árvore tombada – asa sul – brasília | léo pimentel | 2010



o retorno do diabolus: missão fotográfica

diabolus|fotografia: uma [re]volta – sim, todo mundo pode tirar fotografias, editá-las e compartilhá-las! sim, notas imagéticas do dia a dia! mas... como pensamos com elas? pensamos com elas? se por fotografia entendemos: reviver experiências vividas (memória); um conjunto mais ou menos articulado de imagens sobre algo (conhecer); um tipo particular de força ou de intensidade que atua como modelo de comportamento (valorar); e fazer isto e/ou aquilo de acordo com as possibilidades dentro do universo fotográfico (agir); então a fotografia é um dos principais meios de robotização do pensamento. porém, o que marcia tiburi pretende, em diálogo|fotografia com luiz eduardo achutti, é a inquietude diante dessa robotização. excelente catalizador de nossas perplexidades. saborosa forma de indisciplina para continuarmos pensando. femme qui courent avec les loups.

tudo ia bem no diálogo, se não fosse, mais uma vez... a outra parte... sim, ao fim de minha leitura do livro, acabei por preferir somente as cartas de marcia – femme sauvage. e, em meio a esta preferência, ele novamente saltou em minha frente, intrometido, impulsivo, sorrateiro e dançarino. quem? o diabolus! sim, o diabolus! ele voltou! um brinde de rum com chá preto, eu o saúdo!

de imediato, apaguei de minha memória todas as cartas que luiz achutti tinha respondido. amnésia voluntária e interesseira. em seguida me coloquei em seu lugar. e assim, foram inventadas estas páginas, estas segundas respondências, as quais nomeei de "o retorno do diabolus: missão fotográfica"!

eis a primeira!


01
[primeira (cor)respondência]

assim falou marcia: “a morte da fotografia teria que ser compreendida como a morte da técnica junto da morte da arte”.

marcia, gosto muito de pensar a morte das coisas. a terminalidade de cada coisa que um dia foi iniciada. e falar sobre isso é como contar histórias de fantasmas para adultos. desse modo, começar a falar sobre a fotografia a partir de seus aspectos noturnos me interessa muito. chego a pensar, tal qual schopenhauer em seu “ensaio sobre as visões de fantasmas”, que a fotografia pode ser uma espécie de condutora ao reino telúrico, obscuro e tenebroso da psique, um reino sempre eclipsado pela claridade da razão, luminosa e solar, que de vez por outras, deixa escapar uma obscura beleza à luz dos pálidos raios lunares, origem de toda arte. a fotografia em seu lado noturno. a fotografia em sua morte. então vamos lá:

morte da fotografia: morte do inconsciente óptico em seu constructo técnico que veicula um pensamento, um pathos, um agir;

morte da técnica: morte do como das coisas em seu circuito total que inclui ferramenta, ao menos duas pessoas e um ambiente;

morte da arte: morte de uma quimera mitológica que aprendemos a chamar de “eu”.

três mortes do despertar e do promover ideias, ideações, movimentos do pensamento, formas que pensam, que nos põem a pensar – no entanto, morte de nossa suspeita de que elas nos formatam. história(s) morta(s) da imagem, da imaginação, do saber olhar. continuemos...

na arte e na técnica da fotografia parece que, em seu aspecto diurno e auroral, nos importa o que elas, enquanto sistema, pensam ou o que nós podemos pensar sobre elas. no entanto, em nossa história de visões de fantasmas, nossa opção pelo aspecto noturno e crepuscular, nos importa mais, o que com arte/técnica/fotografia, contra arte/técnica/fotografia ou a partir de arte/técnica/fotografia somos capazes de pensar/sentir/agir – ver em direção ao desconhecido, para além de uma hermenêutica do visível. nesta morte anunciada por marcia, que neste momento de anúncio adquire a imagem de um corvo, há um desmonte dos pressupostos hermenêuticos da conservação da tradição, da constituição de uma comunidade e da formação dos indivíduos. um anúncio de um para além da formação [forma(t)ação] e do sujeito [(as)sujeitamento]. marcia anuncia que a arte/técnica/fotografia morre cada vez melhor. porque sua(s) morte(s) continua(m) produzindo visões novas, visagens nunca vistas. assim como há ressurreições do mesmo cada vez piores, como por exemplo, a “retomada” (1995-2005) do cinema brasileiro – mas esta é uma outra história de fantasmas para adultos...

léo, amante da heresia


foto tirada no cemitério de salobrinho em ilhéus | léo pimentel | out|2012
quando falamos "eu penso que...", quem será que escondendo? a voz do pai? da mãe? dos/as professores/as? padres? policiais? da moral burguesa ou proletária? ou as idéias de alguém que já lemos? escutamos? ou...
 
[A]m[A]nt[E]:|:d[A]:|:h[E]r[E]sIA © Copyright 2009 | Design By Gothic Darkness |