sugestões de uso deste blog

bem vindo e bem vinda. este é um labirinto herege: um desafio para medir a astúcia de quem me visita; um convite à exploração sem mapas e vista desarmada. aqui todas as direções se equivalem. as datas das postagens são irrelevantes. a novidade nada tem a ver com uma linha do tempo. sua estrutura é combinatória. pode começar de onde quiser. seja de uma imagem, de um texto, de um vídeo ou mesmo de uma música. há uma infinidade de escolhas, para iniciar a exploração, para explorar esse território e para finalizá-la. aproveite.
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mAИifE₴tΘ ƵᴉИtElƎϿtЦДL (/manifesto zintelectual/)




insurge, desde o horizonte da zinesfera para o mundo, uma grandiosa personagem. grandeza esta por contribuir, com sua presença, com o impedimento das tiranias de uma classe dominante pós-letrada. contribuição cuja finalidade é colocar mais potência aos atos que visam destruir o novo coronelismo eletrônico. destruição cujo gesto criador grita: alienações da linguagem escrita, visual e informacional não passarão! alienações cuja tragédia anunciada é o viver a cultura, tão somente, assistindo e utilizando a linguagem youtubesta e fazendo dancinhas – a herdeira mais sutil e ardilosa da linguagem televisiva de espetáculos midiáticos. o analfabetismo digital, imagético e audiovisual não deve amplificar o analfabetismo propriamente dito. eis os esforços da mencionada grandiosa personagem: vencer todos esses analfabetismos de uma só vez em uma mídia de campo expandido.



logo blogs, redes sociais online, sites de mídias, formais, informais e tradicionais tratarão dessa personagem de modo a tentar reduzi-la à slogans e a palavras de ordem. logo a televisão, o rádio, o cinema, a indústria musical, o mercado editorial e as novas mídias tentarão instrumentalizar seus passos como se eles fossem o de uma artista de teatro de variedades de quinta categoria midiática. logo a educação formal terá consciência de que sua relação com ela é ambígua e, por isso, cautelosa, desconfiada e mantida a uma certa distância. pois ela sabe que há uma ameaça não dita que estremece essa consciência rumo a um transvaloração e mutação radicais: não há carreirismo possível aqui na zinesfera que se irradia para o mundo; seu funcionamento não se dá de maneira hierárquica e centralizada; aqui não reconhecemos a validade do dispositivo mandar-obedecer. e assim, quando a mencionada personagem se insurge na pedagogia, ela jamais será vista através de relatórios obrigatórios e através das deliberações de comissões burocráticas.

duas palavras internacionais se articulam para evocar tal personagem. articulação de risco pelo seu poder indômito. pois a pressa e o dever, que pretende que estejamos em permanente produção e entregando relatórios em prazos curtíssimos, são vistos como as duas maiores expressões do ressentimento ao prazer de queimar as pestanas lenta e cuidadosamente. intelectual no português e no espanhol; intellectuel no francês, intellectual no inglês, intellektuell no alemão, intellektuele no africâner, e fanzine, ou simplesmente zine, no mundo inteiro. o mercado, a militância, a política, o público, a mídia e a carreira desconfiam dessa articulação internacional, pois ela produz consciência! pois, quando articulada, não há mais espaço para apego a chavões, a meias e a pós verdades, muito menos a enfoques simplificadores de seu gesto, ação e colaboração.

não só colecionamos, lemos, decodificamos, catalogamos e pesquisamos fanzines – estejam on ou off-line. nós realizamos, com o que dispomos à mão, com as ideias que temos na cabeça, e com o ânimo e vontade que correm por nossos corpos, zines, perzines, fotozines, femzine, HQzine, artezine, sonhozine, htmlzine, arquivozine, tecnozine, biograficzines, anarcozine, etczine... este é o nosso modo de constituir nosso intelecto, nossa sensibilidade, nossa prática, nosso agir, nosso existir-com, nossa conversação zinesca e zineira.

nossa lógica é paratópica. estamos em lugares outros, por isso aqui nos encontram e nos encontramos. nossa economia é a dádiva. toda informação está liberta e livremente é distribuída. até mesma aquela mais indigesta e intragável. na realidade, principalmente estas gozam mais da liberdade de forma e de conteúdo. aqui os polos dos sabores mais sofisticados e da crueza mais visceral se encontram e dançam selvagemente. nosso lugar é amplitópico, expansotópico. tudo o que é atraído para dentro da zinesfera é recriado, como esses termos que acabamos de aqui criar, e a exemplo de tais, é ampliado e expandido de modo a alcançar horizontes jamais sonhados até então. daí é preciso sonhar novamente um pouco mais adiante. e assim, nossa subjetividade é múltipla. nunca falamos sós no deserto do real e, muito menos em uníssono na floresta do potencial. a autoria só é minha, porque em coautoria nos criamos mutuamente.
“somos ingovernáveis”! assim nosso intelecto e nossa sensibilidade nos convocam a tornarmos aquilo que somos. pois fazemos nós mesmas (D.I.Y.). feitos estes que anulam qualquer autoritarismo. por isso quando nos encontram ocupando algum cargo de autoridade, é certo que ali estamos para fazer desaparecer a própria autoridade que ali ocupou espaço um dia. e isso passa longe de ser um exercício da arrogância da ignorância. temos sede de conhecimento. amamos a sabedoria. portanto, também odiamos o par perfeito desse exercício repugnante, o intelectualismo. odiamos o ismo articulado ao intelecto. pois não queremos que pensar seja um substantivo abstrato. pois amamos conjugar verbos. por isso nossa sabedoria não é ensaística, nem dissertativa, mas sim poética, propositiva e zineira. enfim, é chegada a hora de revelar quem é que desponta no horizonte da zinesfera para o mundo. eis a grandiosa personagem que voz fala: nós, ZINtelectuais!


m[E]t[A]²rtist[A] tr[A]nsmídi[A] da inc[E]rt[E]z[A]
cerrado, inverno, 2021



o bEIjO qUEEr de mInhAs IdEIAs-ArAnhAs

pensar

aqui não tenho de onde começar se não da ideia de que todo pensar sempre é a tentativa de destruir a ordem de deus, seja a da produção (espetáculo, mercado, capital) seja a do desejo (única sexualidade, única libido, de estrutura forte, discriminante e centrada na materialidade do corpo eleito como normal).  desse modo o ‘pensar’ acontece como o ‘viver formas de vida’, de tal modo que nos obriga a re-pensar a criação (arque-genealogia) e a natureza (moral, política, epistemológica, etc.) dos conceitos; onde uma forma de vida necessita de um trecho da visão de outra(s) forma(s) para criar um horizonte/contexto/rede/ecossistema de organização vivencial/afetivo/intelectual. e, é exatamente na tentativa de apreender uma forma de vida em um de seus trechos de visão é que se pode transmitir pensamento, dialogar. fora disso o pensamento se encontra em toda parte, exceto no próprio pensar. 

pensarpolítica

há um “pensarpolítica”, não uma política do pensar ou um pensamento político. pensarpolítica é a forma dominante de uma forma de vida obrigatória onde o que ali se pensa não tem como função o pensar mesmo. é um pensar em práticas e com determinados códigos que entra no design do poder – como o pensar promovido pelos meios de comunicação de massa (“pensarás isto ou não pensarás nada”) e produzidos pelos meios de circulação e ensino do pensamento especializado das universidades (“pensarás isto ou não há o que pensar”). é um pensar que faz de todo pensamento, fala e discurso, tecnologias de normalização e controle das formas de vida – administração e gestão calculada do pensar como um regime-pensamento direcionado para a indiferenciação e para a neutralização. tecnocracia destinada a produzir pensares sem pensamentos. fora desse cálculo em administração e gestão, o que há é pensares anormais, pensares variantes, pensares queers – pois para estes, pensar é viver como forma(s) de vida(s) e travestismo(s) afirmativo(s) que reduplicam o ser como potência(s) política(s).

transpensar

transpensar é a insurgência do pensar sobre o pensarpolítica. é insurgência contra qualquer pensar totalizante da história, da realidade social, da cultura, da linguagem e dos fenômenos subjetivos. é insurgência contra as tendências que universalizam de imediato sua criação/invenção/composição de pensamentos. se o pensarpolítica quer se assegurar como lugar estrutural de desdramatização (ocultamento dos conflitos de interesse em todos os níveis), o transpensar se move com explosivos pronto para qualquer implosão. prontidão esta que se compõe como peculiares ironias de práticas artificiais (o artificial não é o oposto do natural, mas sim o mais natural do natural), desidentificação (transbordamento da identidade pelas suas margens), identificações estratégicas (desnaturalizar diferenças identitárias), desvios (mimese desviada, paródia, performance, margens) e desontologizações (liberar pontos fixos que interrompem a liquidez, o fluxo, a incerteza, o acaso, a aposta e a circulação do psíquico, do sexual, do pensar).   

transpensamento

um transpensamento é uma criação/invenção/composição desde um conflito reflexivo dramatizado (nada de melodrama) entre o sujeito deslocado da enunciação científica, com a multiplicidade de sujeitos possíveis que insurgem contra os saberes/vidas sujeitados/as. é um gesto à experimentação (crua e, muitas vezes, indigesta) e ao risco (dual e antagônico). é linha de fratura que desafia operando transfigurações. é variante e instaura outras ordens de materialidade, como por exemplo, uma linguagem/manifesto/ação queer que desmistifica conceitos, que desontologiza sujeitos da política, e nos alerta sobre a sobremitificação de mitos usados, tanto pela cultura “nativa” quanto pela cultura globalizada, para fins de oprimir corpos e ideias. não é preciso ser especialista, ou fazer parte de um grupo privilegiado, ou ainda, ter qualquer espécie de pacto social ou de gueto, para ser capaz em ter sucesso no deciframento de tal criação/invenção/composição. mas é preciso um determinado esforço reflexivo, um engajamento epistemológico. no entanto, é válido lembrar que um transpensamento não está condenado nem ao silêncio, nem ao calar-se forçadamente, mas sim a uma surdez voluntária que atua como violência da coisificação – preconceito cínico do fazer desaparecer. surdez esta que estigmatiza o transpensamento com uma resistência à “importação”, tratando-o como imigrante clandestino e ainda, reduzindo-o, antropológica e etnologicamente, à expressão de minorias exóticas e condenadas à circulação de guetos.  

três exemplos

[1] o famoso aforismo einsteniano ‘deus não joga dados’ (gott wuerfelt nicht) adquire, em português, um significado ainda mais profundo que o pretendido. einstein quis dizer que os ‘dados’, isto é, pedras de jogar, não são protótipos dos fenômenos da natureza, porque esta obedece a regras preestabelecidas. em português surge o segundo sentido de ‘dados’ como matéria-prima do conhecimento. menciono isto a título de curiosidade, como exemplo de uma ironia (quem sabe sabedoria?) espontânea da língua. – vilém flusser (“língua e realidade”, 2007)

[2] “a sexualidade é muito comparável às línguas. aprender outra sexualidade é como aprender outras línguas. e todo mundo pode falar as línguas que quiser. há apenas que aprendê-las, igual à sexualidade. qualquer um pode aprender as práticas da heterossexualidade, da homossexualidade, do masoquismo...” – paul b.preciado (“manifiesto contrasexual”, 2002)

[3] “in my language” (video) de amelia baggs: “the first part is in my "native language," and then the second part provides a translation, or at least an explanation. this is not a look-at-the-autie gawking freakshow as much as it is a statement about what gets considered thought, intelligence, personhood, language, and communication, and what does not.” (2007)


léo pimentel, amante da heresia, outono, 2015

Uns cAUsOs dE E-mAils fAntAsmAs

uns causos de e-mails fantasmas

ouve-se daqui e ali relatos assustadores, avisos, conselhos e alertas: não enviar e-mails a ermo depois de meia noite! há muitos becos e ruelas virtuais que cruzam, por antigos roteadores, casarios de servidores mal-assombrados, perto dos cemitérios dos correios eletrônicos que pertencem às sobras assustadoras que, principalmente na madrugada, escondem mensagens que ninguém quer ler. verdade? mentira? só se deixa de sentir arrepios pela coluna quando o despertador toca, anunciando um novo dia.

uma coletânea de e-mails meus enviados depois da meia noite. quem sabe, se com essa publicação eletrônica meus destinatários não resolvem sair das profundezas dos mistérios das antigas caixas de correio eletrônico?




links para baixar o e-livro:

ou

vocabulário: revisionismo insurgente e pluralética



revisionismo insurgente: antes de tudo, uma assertiva: reescrever a história! “hasta que los leones tengan sus proprios historiadores, las histórias cacería seguirán glorificando al cazador” (provérbio africano). reescrita por retirar da história seu designador rígido ideológico de “processo superador” (erro e fantasma ideológico). insurgente por irromper da cotidianidade em sua condição única, incomparável, irrevogável e irrepetível. livre do engajamento em história (nem passado perdido nem futuro a instaurar). livre da tentativa de tradução de “processos históricos” para o mundo cotidiano (passageiro e desastroso). cada ato individual é uma abertura a-histórica desprendida de “espírito de época”. é um recolocar (adequação a nada). é um produzir outra realidade (fracasso do controle prático e fracasso do controle intelectual). é seu elemento construtor e destruidor que se manifesta nos gestos do dia-a-dia. meio que revisa a história para alcançar algo além da história mesma. não um além de qualquer outra ordem. sim um processo de estrutura complexa em muitos níveis não lineares. ruptura com a unidimensionalidade do pensamento histórico ocidental.

pluralética: desobediência epistêmica própria da interculturalidade da américa-latina (reivindicação indígena de direitos epistêmicos). desobediência lógica (instantaneidade e artificialidade) contra os domínios da oposição maniqueísta interna aos conceitos – em sua concepção básica moderna (retórica triunfante de salvação e boa vida para todos/as) e eurocentrada (forma de pensar fundamentada no grego e no latim). resitência invisível plurilógica além da dialógica (interpenetração de contrários) e do discurso triunfante (passagem da quantidade à qualidade) da síntese como ação recíproca da tese e da antítese. constituição de um domínio aberto a todas as possibilidades de inexistência de natureza; de todas as possibilidades dos agregamentos tanto fortuitos quanto artificiais (estado de acaso, utilização de acaso, faculdade de utilizar o acaso); de todas as possibilidades de violação das “naturezas” instituídas; e de todas as possibilidades de se prescindir de qualquer referencial ontológico.

universidades: novos aldeamentos e eu, para além de foucault





por foucault não ter tido a experiência cultural da colonização, como tivemos na américa-latina, esse filósofo acabou deixando de fora de suas pesquisas, sobre o modo de pensar e fazer política social, a questão dos aldeamentos, das reduções, das missões jesuítas. em seu “vigiar e punir” sua perspectiva é basicamente pensar a caracterização do delinquente a partir da noção de cidadão comum. a vigilância e a punição são as estruturas básicas encontradas em prisões, hospitais e escolas. claro que podemos pensar um aldeamento, uma redução, uma missão sob esta ótica, no entanto, teríamos que deixar muita coisa importante de lado, apenas para estar de acordo com as análises foucaultianas. como, por exemplo, a aculturação dirigida pelo regime tutelar. pois bem, de nossa perspectiva latino-americana podemos pensar que há mais elementos na estrutura de poder do que apenas vigiar e punir – atrair, territorializar e “proteger”. eu chamaria de “aldear e reduzir” – solidão e confinamento territorial. a gênesis da perspectiva “aldear e reduzir” parte da caracterização de uma particular forma de vida como selvagem e primitiva, a partir da caracterização de outra forma de vida como civilizada, moderna e cristã. da perspectiva da colonização, de nossa experiência indígena, saímos da condição ôntica da delinquência (foucault) e somos lançados à condição ontológica de selvagens e primitivos/as infantilizados/as que devem substituir suas atividades existenciais por tarefas tutelares.


um dos modos que os jesuítas utilizaram, na época da colonização, para tirar os/as nativos/as do ambiente das organizações sociais de floresta, “propícios aos maus costumes” (leia-se “toda e qualquer manifestação cultural indígena”) foi a criação dos aldeamentos – ora chamadas de reduções, ora chamadas de missões: ideologização de que é preciso proteger indígenas de uma dominação mais violenta ao custo de uma dominação mais “humana”. tal retirada tinha como propósito a constituição de comunidades cristãs sólidas e duradouras às custas da subordinação à aniquilação do culturalmente diferente. tal constituição tinha com base o delírio de se refundar a humanidade a partir do indígena, matéria-prima humana, orientada pelo cristianismo de seus primeiros tempos – inveja de que indígenas seriam mais cristãos/ãs que os/as próprios/as cristãos/ãs. como exemplo de uma dessas empreitadas foi a que os jesuítas chamaram de “república comunista-cristã guarani” (ou os povos das sete missões no sul do brasil, argentina e paraguai) mantida por mais de 150 anos (1610 a 1770) . a disposição espacial desses aldeamentos fixavam-se os/as indígenas em torno de uma igreja e isolam-se novos/as convertidos/as da “corrupção” dos colonialistas – cinismo das boas intenções que instaura uma “proteção” por rejeitar um tratamento horizontal ao culturalmente diferente.

o isolamento nos aldeamentos era justificado pelos padres como proteção da moralidade e da liberdade para com as tribos ainda não subjugadas. tal proteção significava  reduzir indígenas, torna-los/as sujeitos submetidos aos padres, ao rei e a deus fazendo-os/as “perceber” que seus atributos próprios são impuros e que tais deve se imaginar sem eles. indígenas que recusavam e não acreditavam nas promessas de “liberdade” dos missionários e de outros indígenas convertidos eram estigmatizados como selvagens, feiticeiros/as, possuídos/as pelo diabo e destituídos/as de coragem. deste modo, os aldeamentos, ou as reduções, eram bolsões de isolamento para o exercício da conquista espiritual, da tecnicalidade instrumental e a obtenção de resultados civilizatórios – tudo isso sob a perspectiva infantilizadora de que indígenas não sabem cuidar de si, devem ser educados, servidos e disciplinados, pois são semi-capazes e ingênuos. tudo o que estava fora (em seu lançar-se sobre seu desamparo e incompletude necessários) era a imoralidade, a poligamia, a embriaguez, o primitivismo, a selvageria, o ódio aos colonizadores, o laxismo e a feitiçaria – por monopolizar  acesso a bens, pessoas e relações. tudo o que estava fora era um atentado bárbaro contra a cultura – o dentro assim se tornava um fim em si mesmo. aldear e reduzir para um melhor vigiar e punir? não, eu diria que aldear e reduzir para que vigiar e punir não fossem necessários. o próprio olho que tudo vê não se daria a partir de uma arquitetura panóptica, mas sim a partir de um território panóptico em si mesmo.

pois bem, mesmo após séculos dos jesuítas terem sidos expulsos de suas reduções (primeira metade do século xix), tal forma de isolamento (aldear e reduzir) ainda persiste até os dias de hoje (século xxi) se infiltrando no modo de ser das instituições brasileiras. podemos tomar qualquer uma delas como exemplo para tentar trazer à tona como elas operam enquanto aldeamento. peguemos aqui as universidades. estas também separam o fora e o dentro para além do vigiar e punir. o fora é tudo o que é diletante, improvisado, e conhecimento falsamente autossuficiente – estas não necessitam de vigilância nem de punição. o dentro é o virtuoso domínio da literatura, a sobriedade argumentativa e diligente obtenção de resultados – aldeado/a e reduzido/a conduzido/a ao automático sua conduta já que se decidiu estar dentro (interiorização). seu próprio significado etimológico nos mostra sua origem de aldeamento/redução/missão: universidade, do latim universitate, que significa totalidade, conjunto, companhia, corporação, comunidade. um universo, sim, com cara de ilha, pois exclui todo o pluriverso em expansão. tal exclusão não se dá porque falte algum valor ao que está fora, e sim porque tudo o que está dentro desta ilha já foi subjugado, reduzido, tornado sujeitos submetidos aos padres (professores/as e pesquisadores/as), ao rei (o estado) e a deus (o conhecimento profissional direcionado ao mercado de trabalho). tantos os aldeamentos quanto as universidade representam uma instituição crucial para a boa ordem do sistema colonial: a pacificação por persuasão, influência, atração e sedução. ambas cumprem a função de “civilizar”, via a lógica da tutela, nós, indígenas, selvagens e primitivos/as, e tornar-nos obedientes vassalos da coroa em liberdade vigiada e em vida autorizada.

tal qual os refugiados e refugiadas indígenas, seja ainda no mato como “isolados” (sobreviventes do genocídio pelos bandeirantes), seja como “tutelados” em reservas indígenas (confinados/as em simulacros de terra indígena), seja nas periferias e favelas das cidades como “pobres” e “indigentes” (“integrados/as”) que se viram obrigados/as a refazerem suas culturas uma infinidade de vezes na ausência de suas organizações sociais em floresta; os anciãos das aldeias; os velhos guerreiros de “corpos riscados” (que já mataram e comeram inimigos); as anciãs “feiticeiras” (que já mascaram muita mandioca ou milho e fabricaram muito cauim), aqui estou – amante da heresia. fora do aldeamento. fora das reduções. fora da universidade. desconfiado e sem qualquer interesse em estar dentro, “vigiando do alto dos morros a movimentação dos brancos”. pondo-me a rir com um comportamento de fachada e sem controle, jocosamente desrespeitando toda autoridade que me observa, que me censura e que tenta me seduzir. nenhuma moderação grega, nem romana, muito menos temperança pós-tomista alguma. estar fora significa não ter conhecimento nem de deus nem de ídolos. ao mesmo tempo em que não se é tábula rasa, em que não falta nada, nem que há um vácuo simbólico e epistêmico. na produção de conhecimento não aldeado, não reduzido, portanto, na produção de conhecimento de modo amador (por aquele que se erotiza como livre personalidade – soberania de caráter não adestrado), de modo que o saber teórico morra (sufocado pela nossa ancestralidade indisciplinada) e renasça como vontade louca (a pedagogia sem relação alguma com a ideia de civilizar), não só realizo um ato contrário à boa ordem civilizacional, como também cometo uma falha grave enquanto ausente da comunidade civilizada. já que não há nenhum tipo de abstinência, sobriedade nem castidade em meu tipo de epistemologia. 

portanto, carpe dien, seja indígena! 

léo pimentel, 
enthūsiasmado por uma uainuy 
(anciã antropofágica tupinambá) 





dos divíduos relacionais

dos divíduos relacionais – todas as coisas impõem mediações. por, antes de tudo, agirem ao mesmo tempo de modo ambíguo e paradoxalmente como um e outro: partícula elementar relacional e relação propriamente dita. desse modo, quaisquer que sejam os pólos, (por exemplo, sujeito e objeto, ontológico e ôntico, aparência e essência, etc.) ambos agem tanto como isolamento quanto relação. a ação de isolar-se é um processo de em-si-mesmamento. a ação de relacionar-se é se colocar em jogo, em luta ou em debate. no entanto, poucas são as vezes que cada elemento dessa tríade pode ser tomado de modo isolado. no caso da condição humana essa imposição é tanto mais visível e carnal quando se tenta identificar qual o elemento último, ou a partícula elementar relacional, que identifique um indivíduo. tantas foram e, ainda são, as tentativas de isolá-lo. por vezes, diziam: é a razão. outros: são os instintos. outras vezes o dito era: é a alma. seus outros em jogo diziam: é a mente. e por aí seguem as tentativas de isolar-se. o indivíduo sempre se dá enquanto divíduo, ou seja, o isolado se dá enquanto divisão em um e outro: o indivisível que sempre se divide é, no fim das contas, multiplicação – ambígua e paradoxalmente um e outro simultâneos.

sério, porém não sóbrio


seriedade: regime do tudo ou nada; qualificativo a um só tempo total e nulo. total por querer se estabelecer enquanto indiferente à qualquer objeção. nulo por ser incapaz de explicar e mesmo de exprimir a si mesmo enquanto algo. no primeiro, totalitário, no segundo, infância. 

na seriedade e totalitarismo, tudo o que se quer estabelecer enquanto sério torna-se condição de universalidade, quer queira ou não, interessando a todos. na sua recusa, faz-se que se saiba  de sua seriedade à força. neste caso, a seriedade é virtualmente terrorista - pois se quer ser princípio imortal. reconhece o não-sério como temporal e festivo, por isso passível de sua coação e violência. no entanto, por tal artifício, a seriedade totalitária se evidencia como eterno espaço vazio somente preenchido por reconhecimento geral. algo pleno, mas que não basta a si mesmo. por só se ver sério via a sobriedade que se pretende se extender para além do objeto qualificado. afirma-se enquanto existente geral ignorando tudo do contexto em que se situa. inclusieve sua própria mortalidade.

na seriedade e infância, o sério não está diante do infinito. o sério é um qualificativo particular. não é quitação cega. está ligado temporalmente ao motivo de satisfação. é um acertar de contas com o imediato. não há nada mais sério na infância do que a brincadeira. o jogo basta a si mesmo.  não se quer  mais do que o jogo pode dar. a causa se equivale ao efeito. nulidade da causa e do efeito. não é acúmulo de coisas sérias. não é causa exterior. o brinquedo sempre quebra. no brinquedo quebrado nada há de sobriedade. a seriedade lhe foi tamanha que somente a ebriedade que levar à quebra de seu motivo lhe restitui sua dimensão mais própria: nada é tão sério que resista a uma boa gargalhada. após isso o a brincadeira recomeça sem os vícios de qualquer totalitarismo.
quando falamos "eu penso que...", quem será que escondendo? a voz do pai? da mãe? dos/as professores/as? padres? policiais? da moral burguesa ou proletária? ou as idéias de alguém que já lemos? escutamos? ou...
 
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