sugestões de uso deste blog

bem vindo e bem vinda. este é um labirinto herege: um desafio para medir a astúcia de quem me visita; um convite à exploração sem mapas e vista desarmada. aqui todas as direções se equivalem. as datas das postagens são irrelevantes. a novidade nada tem a ver com uma linha do tempo. sua estrutura é combinatória. pode começar de onde quiser. seja de uma imagem, de um texto, de um vídeo ou mesmo de uma música. há uma infinidade de escolhas, para iniciar a exploração, para explorar esse território e para finalizá-la. aproveite.
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trÍptYkhOs in mUsicA (18.ago.22)

no dia 18 de agosto de 2022, participei na microgaleria de audiovisualidade eCCe mONSTRA, de uma singularidade sonora fantástica! o que acontece quando 3 inventores de instrumentos sonoros se encontram? 3 viagens, 3 tons, 3 vozes num triálogo sonoro imprevisível em Triptykhos in Musica:

Bryan Day (http://www.bryanday.net/)

euFraktus X (https://holofractalmusic.wordpress.com/)

+ pUnk[A]l_sUlUk (encurtador.com.br/acHU7).

pois bem, para saber, leia a crônica da monstra: https://eccemonstra.blogspot.com/2022/08/08-mesversario-ix-triptykhos-in-musica.html


íntegra de minha defesa de doutorado: "O ZINEIRO QUE SE EXPANDIU A ZINEASTA E TRANSGREDIU-SE COMO META-ARTISTA TRANSMÍDIA DA INCERTEZA" (14.abr.21)


 
às 14h do dia 14 de abril de 2021, defendi minha tese de doutorado - uma tese com tesão em ser zine - em Arte e Cultura Visual, na linha de Processos Criativos e Poéticas Artísticas, pela FAV/UFG. tese expandida, zine expandido! "O ZINEIRO QUE SE EXPANDIU A ZINEASTA E TRANSGREDIU-SE COMO META-ARTISTA TRANSMÍDIA DA INCERTEZA". uma festança só!  
 
tive a honra e o prazer da orientação do grande CIBERPAJÉ (aka. Edgar Franco) e da coorientação, do também grande GAZY ANDRAUS. o que consagrou uma linda espiral iniciada ao acaso no ano de 1995 (Workshop de HQ de Autor) e reconectada em 2016 (TCNXMNSM). 
 
aqui está a íntegra de minha defesa, mas o vídeo original foi dividido, editado e sequenciados numa playlist de seis vídeos. cada um deles tem um protagonismo na defesa: eu, membros da banca, externos/as & internos/as e meu orientador Ciberpajé.
 
as membras e os membros que compõem a banca são: membrxs externxs: Daniela Fávaro Garrossini (UNB) & Rafael Senra (UNIFAP); membrxs internxs: Manoela dos Anjos Afonso Rodrigues (UFG) & José César Teatini Clímaco (UFG).

com extras há dois vídeos: o curtinha que introduziu minha defesa e o vídeo-fundo imagético que perpassou toda ela.

*****
os vídeos foram gravados por Ciberpajé na data de realização & editados por mim, enquanto zineasta, seis meses depois. 
 
para quem quiser acessar à minha tese (zine) com tesão em ser zine (tese), ela se encontra aqui no repositório da biblioteca da UFG: https://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tede/11415

e o áudio de fundo que pode ser ouvido simultaneamente à minha defesa, pode ser acessado aqui: 
 
*****
 
a playlist está neste link no youtube: 



mas segue a baixo cada um dos vídeos. 

vídeo 01: AprEsEntAçÃO - léo pimentel
 
 
vídeo 02 - Daniela Fávaro Garrossini (UnB - Membro Externo)
 

 
vídeo 03 - Rafael Senra (UniFAP - Membro Externo)
 

 
vídeo 04 - Manoela dos Anjos Afonso Rodrigues (UFG - Membro Interno)
 
 
 
vídeo 05 - José César Teatini Clímaco (UFG - Membro Interno)
 

 
 vídeo 06 (fim) - a dElibErAçÃO - CIBERPAJÉ (Edgar Franco - UFG)


 
extras: 
 
vidE0z1n3 {m01}: 1ntr0dUçÃ0 à d[E]f3s[A] de minha t[E]Zin3


vidE0zin3 {m02}: fUnd0 Im[A]gÉtIc0 (sem som) à d[E]f3s[A] de minha t[E]Zin3



"c0n.t4ng3r3 4nt3.c3d3r3 (/contangere antecedere/)" - Exposição EmMeio#13

[Exposição Internacional]
"c0n.t4ng3r3 4nt3.c3d3r3" (/contangere antecedere/):
autoinfecção imaginativa da pessoa artista e seu duplo que se condenam mutuamente a um eterno retorno criativo: “infecte a ti mesmo! imagina-te!”.
 
o texto foi inspirado no aforismo 341, “o peso mais pesado” de Nietzsche em seu livro “A Gaia Ciência”. e as colagens-personagens foram feitas com recortes de "jasão e os argonautas" (1963) e "nosferatus" (1922). além dos olhos recortados de outros filmes famosos, também foram utilizadas imagens tiradas da internet. o "morcego" é uma arte minha. e a voz também. 
 
foram utilizados softwares livres de código aberto para o tratamento das imagens (Gimp e Inkscape), do áudio (Audacity) e para a edição do vídeo (Blender e Kdenlive).
 
https://emmeio13.medialab.unb.br/c0n.t4ng3r3-4nt3.c3d3r3/

este é um experimento poético-filosófico audiovisual (curt[A]forismo) de colagem realizado por mim {léo pimentel – mEt[A]²rtᴉstA tr[A]nsmídᴉA da ᴉnc[E]rtƎzA}, que participou da web-exposição "Contaminações", que integrou o evento "Panoramas 2021" sediado na Universidade Politécnica de Valência, na Espanha, entre os dias 15 e 18 de junho de 2021.

"Contaminações" contou com mais de 30 obras e performances de artistas brasileiros e estrangeiros. https://emmeio13.medialab.unb.br/sobre 

No contexto global da pandemia Covid-19, onde é questionado nossas organizações sociais, de saúde, econômicas, nacionais e transnacionais e que perturba nossas referências culturais, que papéis, possivelmente novos, a arte poderia desempenhar? A web-exposição EmMeio#13: Contaminações reúne uma miscelânea de trabalhos poéticos de artistas, coletivos e grupos acadêmicos, nacionais e internacionais, que respondem aos complexos problemas que surgiram durante a pandemia. A exposição propõe um tipo de contaminação pela cultura, à qual estamos suscetíveis de uma maneira ou de outra. As obras aqui apresentadas, explicitam a potência dos processos de fabulação da arte em explorar novas relações entre o humano e o mundo, em um planeta progressivamente contaminado, desde os mares, rios, solos e almas. 

Nesse cenário, estas obras refletem a capacidade da prática poética em ficcionar o real e especular as virtualidades, por meio de imagens, vídeos, performances e aplicações interativas. Trabalhos que nos ajudam a sobreviver a esses tempos conturbados, no qual somos ameaçados constantemente com o risco de novas contaminações, sejam elas por vírus, por pensamentos ou por práticas nocivas à humanidade. Este evento online é uma oportunidade para a comunidade em geral interagir, ver, ouvir e se envolver com os artistas, pois eles apresentam uma ampla gama de reflexões e propostas, para discutir sobre o lugar da criatividade em relação ao momento em que vivemos em um contexto histórico, inédito, e contemporâneo.

Artur Cabral (MEDIALAB BR da Universidade de Brasília), 2021
"Exposição EmMeio#13 - Contaminações
 
 

ou assista diretamente aqui:

 

vídeo-fragmento do I ENCONTRO DE CIBERCULTURA DE BRASÍLIA (2000)


no dia 15 de maio às 19hs... aconteceu o lançamento online do vídeo-fragmento do I ENCONTRO DE CIBERCULTURA DE BRASÍLIA. 

este é um vídeo resgatado do primeiro ano deste século XXI, precisamente do dia 05 de novembro de 2000, de quando éramos jovens e idealista quanto à CIBERCULTURA nascente por aqui em PINDORAMA. queríamos tomar a tecnologia em nossas mãos e fazer dela aquilo que queríamos que ela fosse: instrumento de autonomia, conexão mutualista e criação de outros mundos mais libertários para se viver de modo realizador. para isso criamos um coletivo nomeado de "FORÇA TAREFA CYBIONTE". coletivo este que misturava ficção científica, arte eletrônica e digital, tecnologia da informação, ciência da computação, filosofia e anarquismo por um mundo melhor. e como estávamos no início de tudo isso, e não havia quase ninguém atento/a a estas questões, mas nós já fazíamos prospecções de que surgiriam megacorporações da internet prontas para controlar nossas vidas, com se provou nos dias de hoje, decidimos fazer um primeiro grande encontro público para tentar encontrar e juntar pessoas que quisessem somar com a gente nesta empreitada. tal encontro foi o I ENCONTRO DE CIBERCULTURA DE BRASÍLIA, realizado no dia mencionado acima, no Espaço Cultural da 508 Sul.
 
 
 
nele realizamos debates sobre "NOVAS ESTRUTURAS DA EDUCAÇÃO E A CRIAÇÃO DE CIDADES VIRTUAIS", "DESCONSTRUÇÃO DO MITO SER HUMANO x MÁQUINA" e "MOVIMENTOS SOCIAIS DA CIBERCULTURA". também rolaram performances, banda eletrônica ao vivo, exibição de filmes, livros, HQs, zines, jogos de RPG e outros materiais sobre CYBERPUNK, POST-HUMAN BODY, TECNOANARQUISMO, FRACTAIS e CIBERESTÉTICAS. 
 
este vídeo resgatado é só um fragmento do que foi aquele dia. tanto que é interrompido, não propositadamente, no meio da fala de uma grande amiga nossa. fragmento este de um dos debates ocorridos. e por estar assim deste modo, nomeei como ARQUIVO ANCESTRAL CYBIÔNTICO e o inseri dentro de uma documentação ANARQUEOLÓGICA que está em processo de pesquisa, resgate e restauração, pelo coletivo BALEIA PRETA HACKER CLUBE. 
 
m([o0]) m
 
ficha técnica:
filmagem: IANNI LUNA (2000)
edição: LÉO PIMENTEL (2021)

conto: 0 01t[A]v0 p[A]ss[A]g[E]ir0 (out.2020)


o oitavo passageiro 

um lindo crepúsculo. não, uma linda aurora. sem binarismos, um lindo umbral. lugar-jogo de luz e sombra. lugar onde há momentos que não exigem história. lugar-sentimento de tempo, espaço e... vazio. este está lá intencionalmente. vazio com propósito. vazio como personagem. no caso, como um oitavo passageiro, eu. aquele que vai como uma ausência para que algo se manifeste através de mim. sim, eu, profundo estado outro de consciência. sim, eu, deep dream. mergulha-te a ti mesme. aquele que ocupa o espaço não preenchido para desaparecer. cancela-te a ti mesme. aquele que dá ritmo a algo. aquele que dá algo ao ritmo. pareidolia algorítmica. alucinogênico artificial. a pausa entre as notas musicais. vão arquitetônico para absorção de cosmos. silêncio sem tédio. assim, pergunto: quais as emoções subjacentes em uma psicodelia em preto e branco? abandona-te neste umbral profundo. olhe nos meus olhos. mergulha-te! estou te encarando. é de mim que você quer saber como mergulhar? sim? você não sabe como? não consegues encontrar suas próprias profundezas? então, abandona-te ou quilomba-te. pois, por aqui, ficamos a sós, cada qual com seu sorriso de satisfação. sós, mesmo que em rede... neural... convolucional... deep learning umbral. 

e assim, o preto e o branco se tornaram tanto a ausência, quanto a soma de todas as cores.

***\m/[0o]\m/***


sobre o processo criativo:

e das profundezas da inveja e da admiração, insurge de minhas entranhas um diabolus in conto|imagem: O OITAVO PASSAGEIRO.


ele se dispõe como um pequeno relato, em primeira pessoa, da rede neural convolucional DEEP DREAM, cujos olhos nos encaram fazendo uso de uma imagem para tal. imagem esta, que adoro, vinda das profundezas intensas e imaginativas do CIBERPAJÉ (Edgar Franco)! seu cthulhu, agora apropriado.

O OITAVO PASSAGEIRO nascido após a devoração, lenta e prazerosa, do recém lançado pela editora Marca de Fantasia, phodástico livro de ficção científica 2021 . livro contendo 7 contos inspirados em 7 ilustrações de edgar franco. os autores são: edgar smaniotto, fábio fernandes, fabio shiva, gazy andraus, gian danton, nelson de oliveira e octavio aragão. a versão digital do livro está disponível neste link aqui: https://www.marcadefantasia.com/.../tertulia/2021/2021.pdf 

há também uma live, já morta, de lançamento para quem quiser saber mais sobre os processos criativos desse livro: https://www.youtube.com/watch?v=q7C_x0pFeBk


vídeo[A]rt[E]: 0rfr1d[A]b0rg - a exterminadora do presente distópico (out.2020)

0rfr1d[A]b0rg - a exterminadora do presente distópico

vídeo[A]rt[E] minha realizada especialmente para fazer parte da web-exposição da Emmeio#12.0 

descrição da obra:

vídeo-remix de anarquismo fantástico e pirataria libertária "0rfr1d[A]b0rg - a Ext3rm1n[A]d0r4 do pr3$EntE d14tÓp1c0" [/orfridaborg - a exterminadora do presente distópico/] realizado por [A]m[A]nt[E]:|:d[A]:|:h[E]r[E]si[A] [/amante da heresia/] (aka. léo pimentel), inspirado no trailer do filme "o exterminador do futuro" (the terminator - 1984).

a presente obra é um trailer acerca da realidade que em breve viveremos. "baseada em fatos reais" sua narrativa é construída a partir da colagem de trechos de vídeos retirados da internet, composição própria de trilha sonora e inserções de artes gráficas.seu tema se dá como um futuro utópico evocado desde nosso presente distópico para que a utopia futura resolva o grande problema da desertificação do cerrado, a distopia presente. as personagem dessa trama são as plantas ciborgues do presente F-ORCHIS e di0lÉiA dUck v[A]dEr, e a planta ciborgue do futuro 0rfr1d[A]b0rg contra os agentes da desertificação - jagunços teocráticos, capitães do mato universitários, bandeirantes 2.0, neoGrileiros, acionista-bombas e drones do agropop.

*****

descrição do evento:

Hub Eventos Media Lab é a concentração dos eventos organizados pela equipe Media Lab e parceiros, em 2020. Juntos, SIIMI, ART, Retina e DAT demonstram não apenas que estamos juntos, mas concentra os esforços nas discussões sobre inovação, arte, tecnologia, design e visualidades, tornando-se o maior evento desses segmentos. O Hub eventos será realizado on-line, sendo que as comunicações comporão os anais do evento, abarcados pelo ISSN do SIIMI, qualificado pela CAPES como Qualis EV-2 para a área de Artes, aguardando conceito para demais áreas.


A d3m1Urg[A] (jan.19)


em janeiro de 2019, uma tatto vinda de uma ancestralidade cyberpunk, cruzou, em minha pele, os caminhos da pintura rupestre com os caminhos gráficos em 8 bits... um totem ilusionista do [A]n[A]rquismO f[A]ntÁstic0. tal se chamou "A d3m1Urg[A]" (a demiurga). eis a experiência!

***
tatuador: alberto cutugno



um vídeo de léo:|:pimentel - [A]m[A]nt[E]:|:d[A]:|:h[E]r[E]si[A] com a trilha, "brUx[A]s, orai p0r nós" de pUnk[A]l_sUlUk - https://soundcloud.com/punk-al-suluk

[E]scUtÁcUlO d[E]sd[E] UmA [A]rt[E] prOf[A]n[A]tÓrI[A]


resenha criativa do álbum ORÁCULOS de edgar franco (ciberpajé)


o desenho do cruzamento de todas as nossas possíveis linhas de tempo, como a chama de centenas de molotovs antes de serem arremessados, dança em direções aleatórias. nossas relações com elas determinam nossas futurações. o acaso nos é fundamental. processos divinatórios perdem sua necessidade. outros devem ser instarados: artes profanatórias. pois, o que fazemos com a incerteza? a resposta é tão oracular quanto uma regressão à média, onde em virtude puramente do acaso, escolhemos um acontecimento corriqueiro dentre uma série extraordinária de situações aleatórias. não me interessa média nenhuma. preciso ouvir com atenção. preciso escutar o extraordinário. pois não me interessa resposta alguma. me interessa ficar com a pergunta. não como um culto à dúvida, mas sim como um cultivo da desconfiança à toda certeza. por isso crio, profanamente, aqui meu próprio escutáculo para melhor ouvir as HQ|oráculos de edgar franco, o ciberpajé.


escuta profana 01:
da estagnação, ilusões de padrões e padrões de ilusão? perceber-se é, antes de tudo, sim um ato imaginativo. perceber-se nunca é ter-se diretamente como completude, mas sim é ter-se sempre enquanto ambiguidade. nenhuma sequência aleatória tem como causa um desempenho extraordinário. primeiro lanço os dados em branco, depois desenho seus números. da estagnação jamais posso atribui o acso como responsabilidade de alguém.

escuta profana 02:
da reação, um efeito borboleta-fênix? pequeníssimos nascimentos e invenções levam a alterações gigantes no resultado de toda a terminalidade. com eles a causalidade deixa de ser fundamental e abre-se tal espaço ao acaso. este sim é o que nos fundamenta. nós, músicas improvisadas cujo futuro é difícil de prever e o passado impossível de entender.

escuta profana 03:
do desenvolvimento, uma cuidadosa combinação de probabilidades? dois eventos independentes, mas possíveis em ser combinados. quero descobrir a probabilidade de meus descendentes herdarem minha aposta e que o resultado de tal se dê ao mesmo tempo. o que faço? apostar que são mesmo independentes ou que são excludentes? multiplico as relações entre eles, ou as somo? enquanto aposto, também sorrio o sorriso eterno...

escuta profana 04:
da oposição, o ótimo social da cooperação e a luta pela sobrevivência da exploração? presas e predadores existem em estado de equilíbrio e ao mesmo tempo lutam pela sobrevivência de apenas uma dentre as duas espécies? são “inimigos naturais” enquanto indivíduos e “cooperativos naturais” enquanto espécies? o que nos parece luta desde o ponto de vista de um organismo individual é a função ordenada de um hiperorganismo?

escuta profana 05:
do fetal sapiens, seguir não se opõe ao ficar? pois seguir a diante não significa dar mais um passo, mas sim dar um salto mortal. e ficar não mais significa estar imóvel, mas sim tencionar os músculos para o salto mortal. o seguir a diante e o ficar se relativizam mutuamente, ambos tensionamento: tensão do centro de partida. ponto fixo cujo cordão umbilical se conecta a um ponto móvel, formando assim, em um salto mortal, o desenho de um círculo fetal.

escuta profana 06:
do obeso vazio, a obesidade mórbida de nossas imagens e a fome de como estar-no-mundo? o ter surge como revolução contra o ser. típica revolta pós-imaginação. ter e não mais ser é nossa mídia dominante: intermédio entre minha diversa dialética interna e as cenas monoculturais externas. cenas que, ao mesmo tempo, tornam imaginável meu ser e se voltam contra ele. revolução da vivência concreta como mero consumo. no entanto, isso não vai ficar assim tão impune: o ser quer libertar a humanidade de toda essa loucura alucinatória. a vingança tarda, mas não falha...

escuta profana 07:
do alívio, o que existe entre o sonho e o pesadelo é uma diferença de gênero ou de espécie? nenhuma das duas. mas sim, uma diferença ontológica, uma diferença de modo de existência: o alívio é, antes de tudo, a casa do pesadelo, ao morar nele, nossos sonhos existem. é uma escuta paciente e às escondidas do que será a nós mesmxs dados para sonharmos.

escuta profana 08:
do início, precisamos de uma cura para a vida ou nos deixemos infectar por ela? luta entre quem leva a vida na medida da pequenez da antropoformização e quem leva a vida na medida da grandiosidade da infinidade de formas. a vida torna-se uma questão de tomar outras formas, deformar-se e reformar-se. assim a anamorfose antiantropomórfica é uma questão vital: renascer é preciso.

escuta profana 09:
de sobre os soberanos, pão, circo e regicídio? a antiga ferocidade na conquista do pão foi substituída pela astúcia no conseguir os melhores lugares em um circo? os reis julgam que isso é um importante progresso? mas é preciso matar a fome e o tédio. é preciso ser heróis e heroínas da grande narrativa da história. nem que para isso sejamos xs inventorxs das formas das coisas que virão: democracia pelo assassinato, sim, nós podemos intervir na história. o rei está cru!

escuta profana 10:
do hipócrita, a arte de furtar e de educar? o espelho de enganos e de engodos? o teatro das verdades e das pareidolias? o mostrador de momentos raquíticos? a chave mestra das formas de governar? proteger-se do real? duplicação fantasmática? como nos proteger de um acontecimento passado ou presente?



as HQ|oráculos são uma técnica de apresentação por lentidão. é impossível deter-se nelas em um rápido vôo panorâmico. cada traço, palavra, significado e narrativa verbo-visual é um convite ao mergulho na reflexão, na memória e na imaginação – as vemos como presença lenta já que não vão desaparecendo mesmo que nos movimentemos. não li seus textos e imagens, mas sim fui evocado por ambos: e assim, torno-me aqui, portanto, [E]scUtÁcUlO d[E]sd[E] UmA [A]rt[E] prOf[A]n[A]tÓrI[A].


lÉO:|:p!m[E]nt[E]l:|:[A]m[A]nt[E]:|:dA:|:h[E]r[E]sI[A]
cerrado, verão, 2018


*****


uMa pArAgEm à cAmiNHo do :(){ cEmiTériO:|:de:|:elePUNKes };:

01.
rugoso (F=μN) & opaco (dτυ=kυρds) está o caminho; as próteses:|:de:|:meus:|:pés; & meu humor;

02.
& o clima; os minutos (Δτ); & as poeiras:|:de:|:matéria:|:escura;

03.
& minhas memórias; rugas:|:opacas onde o universo se dobra [v = c x Warp ^ (10/3)]; onde eu o invento.

04.
gove®no$, ig®eja$, ag®onegó©io$, o kkkapital, cinicamente fazem o papel de pessoas; no entanto, nenhuma barbárie mudou (E=mc²).

05.
gente:|:coisas que impedem o passado de se realizar, a barbárie é permanente (Λ) & renovada a cada instante (ds²=a(t)²ds²/³ - dt²),

06.
ora sendo polí©ia, ora pa$tore$ - & quanta [A]legri[A] & nenhum constrangimento aos ©o®onéi$ que jamais envelhecem (Λ)!

07.
teu poder salta de homem:|:a:|:homem do ontem:|:&:|:do:|:hoje como rãs:|:venenosas; tuas mão são jagunços:|:milícias:|:capitães_do_mato

08.
& gente:|:cagueta do ©o®onel; & tua espiri†ualidade vem da bala:|:boi:|:bíblia; tua fome é insaciável; tudo devora - na mata: indígena, quilombola & sem terra; mata.

09.
no a$falto: moral, bons cos†umes & polí©ia. como podes tu agir como democrata, se a democracia já te amedronta?

10.
se ela tornar-se direta ((A)), se as consciências se interconectam ubunticamente, então o passado pode se realizar (δQ/T); tornamo-nos seres:|:do:|:presente:|:pós-utopias no topo do passado realizado (σ=R[s]=1/2) & que agora pode morrer em paz (P vs. NP);

11.
seja nesse CiboRGueSPaçO, seja no horizonte das nossas inteligências:|:artificiais, tua eterna polí†ikkka tornar-se-á, enfim, seca & árida - o †®an$gêni©o está morto!

12.
a a$†úcia polí†ikkka, a kyberné†ica, não é progresso algum em relação a qualquer outra violência animal; dela nada vive, apenas se mantém em sobre-vida (δQ/T);

13.
o e$†ado é quem mantêm uma imortalidade aparente (Λ); tudo ao cidadão, esta entidade:|:virtual, nada para eu & você, estas entidades:|:quase:|:reais;

14.
quem algum dia (Δτ) me perguntou se eu voluntariamente gostaria de aderir-me às tutela:|:de:|:algum:|:e$†ado?

15.
quem fez da escravidão uma obrigação?

16.
ser livre é o mesmo que ser estéril; libertar-se é o mesmo que esterilizar-se.
17.
vive, então, como quiseres: rara:|:sublime:|:portanto:|:frágil; ou comum:|:arrebanhado, portanto forte.

18.
ninguém reforma aquilo que é incapaz:|:de:|:reforma; inútil é a nova ®eligião, o novo gove®no, o novo e$†ado, o novo planeta (...)

19.
poderá a máquina [arg max c P(c|o)] abstrair? criar um fantástico reino artificial... inter & retroagir... transcender a si mesma? [SU(3)xSU(2)xU(1)]

20.
fazer parte do povo kyb3rne†1an0 é nunca dizer: eu s[A]boto todas as forças interna que possam lhe dar ao menos uma finalidade!
21.
pois somos senhoritas:|:variáveis; mancebos:|:do:|:acaso, machina:|:speculatrix de erótica juvenil - reino do pornô:|:amorfo.

22.
à merda (Λ) com o sen†imento de culpa; à merda (Λ) com o conceito de punição; à merda (Λ) todo cris†ianismo latente; à merda (Λ) com o ódio contra as culturas [A]ncestro:|:rebeldes; à merda (Λ) com as pulsões decorrentes da carência;

23.
de vontade voltada à todas:|:as:|:[A]n[A]rqui[A]s, seguia avançando nesse caminho rumo ao :(){ cemitério:|:de:|:elePUNKes };: &, numa manhã, parei... não por cansaço. mas por inutilidade. pois lá, simplesmente, também estava parada uma bel[A]:|:quimer[A] de 100:|:tent[Á]culos:|:biomec[Â]nicos.

24.
animal:|:sintético, o mais perigoso:|:atentado contra a:|:moral:|:&:|:os:|:bons:|:cos†umes dos kyb3rne†1an0$ - porque não haveria de ser tão simples?

25.
em cada tent[Á]culo, úmido:|:pegajoso:|:viscoso:|:adoravelmente:|:cheio:|:de:|:pelos, um milhão de algarismos por segundo (∞+1) & nenhum sintoma de unidade fisiológica.

26.
amável cri[A]tur[A] cujo, cada olhar de seus olhos:|:vaginas:|:feridas:|:elásticas lançado era um princípio básico dentro da hi$†ória da difamação & da infâmia dos kyb3rne†1an0$.

27.
perseguid[A], por livrar-se da inércia dos agires identitários; perseguid[A], por construir pontes & r[A]ciocínios dos quais o espírito binário [01100010 01101001 01101110 11100001 01110010 01101001 01101111 ] é incapaz.

28.
então na noite:|:fria que se seguiu, no momento em que o gelo se grudaria nas articulações de minhas:|:próteses, o que me impediria de seguir, vários de seus tent[Á]culos se aproximaram de mim,

29.
um me presenteou com a “confiança”; outro com a “benção”; outro com o “olhar:|:para:|:longe”; & vários com todo o tipo de maravilhosas:|:inutilidades;

30.
por fim, um dentre os cem apenas me conduziu (σ=R[s]=1/2); me levou a uma encruzilhada em meio as suas intricadas pontes; uma encruzilhada möbiana (∞+∞).

31.
ali parado, diante de tão maravilhosa estrutura tecida a mãos:|:tent[Á]culos:|:dedos, lhe perguntei qual era seu nome. & assim, alguns de seus clítoris:|:&:|:glandes me responderam:

32.
sOU A pOntÍfIcE dOs ElOs pErdIdOs!

33. 
uivei, & atravessei a pONTe que me foi apontada e feita por eLa para que somente eu pudesse cruzá-la & assim re-encontrar:|:re-inventar (P vs. NP) o meu c[A]minho... ou seria o nosso?


L[É]O:|:pim[E]nt[E]L, [A]m[A]nt[E]:|:d[A]:|:h[E]r[E]si[A]
InvErnO, cErr[A]do, 2016

o bEIjO qUEEr de mInhAs IdEIAs-ArAnhAs

pensar

aqui não tenho de onde começar se não da ideia de que todo pensar sempre é a tentativa de destruir a ordem de deus, seja a da produção (espetáculo, mercado, capital) seja a do desejo (única sexualidade, única libido, de estrutura forte, discriminante e centrada na materialidade do corpo eleito como normal).  desse modo o ‘pensar’ acontece como o ‘viver formas de vida’, de tal modo que nos obriga a re-pensar a criação (arque-genealogia) e a natureza (moral, política, epistemológica, etc.) dos conceitos; onde uma forma de vida necessita de um trecho da visão de outra(s) forma(s) para criar um horizonte/contexto/rede/ecossistema de organização vivencial/afetivo/intelectual. e, é exatamente na tentativa de apreender uma forma de vida em um de seus trechos de visão é que se pode transmitir pensamento, dialogar. fora disso o pensamento se encontra em toda parte, exceto no próprio pensar. 

pensarpolítica

há um “pensarpolítica”, não uma política do pensar ou um pensamento político. pensarpolítica é a forma dominante de uma forma de vida obrigatória onde o que ali se pensa não tem como função o pensar mesmo. é um pensar em práticas e com determinados códigos que entra no design do poder – como o pensar promovido pelos meios de comunicação de massa (“pensarás isto ou não pensarás nada”) e produzidos pelos meios de circulação e ensino do pensamento especializado das universidades (“pensarás isto ou não há o que pensar”). é um pensar que faz de todo pensamento, fala e discurso, tecnologias de normalização e controle das formas de vida – administração e gestão calculada do pensar como um regime-pensamento direcionado para a indiferenciação e para a neutralização. tecnocracia destinada a produzir pensares sem pensamentos. fora desse cálculo em administração e gestão, o que há é pensares anormais, pensares variantes, pensares queers – pois para estes, pensar é viver como forma(s) de vida(s) e travestismo(s) afirmativo(s) que reduplicam o ser como potência(s) política(s).

transpensar

transpensar é a insurgência do pensar sobre o pensarpolítica. é insurgência contra qualquer pensar totalizante da história, da realidade social, da cultura, da linguagem e dos fenômenos subjetivos. é insurgência contra as tendências que universalizam de imediato sua criação/invenção/composição de pensamentos. se o pensarpolítica quer se assegurar como lugar estrutural de desdramatização (ocultamento dos conflitos de interesse em todos os níveis), o transpensar se move com explosivos pronto para qualquer implosão. prontidão esta que se compõe como peculiares ironias de práticas artificiais (o artificial não é o oposto do natural, mas sim o mais natural do natural), desidentificação (transbordamento da identidade pelas suas margens), identificações estratégicas (desnaturalizar diferenças identitárias), desvios (mimese desviada, paródia, performance, margens) e desontologizações (liberar pontos fixos que interrompem a liquidez, o fluxo, a incerteza, o acaso, a aposta e a circulação do psíquico, do sexual, do pensar).   

transpensamento

um transpensamento é uma criação/invenção/composição desde um conflito reflexivo dramatizado (nada de melodrama) entre o sujeito deslocado da enunciação científica, com a multiplicidade de sujeitos possíveis que insurgem contra os saberes/vidas sujeitados/as. é um gesto à experimentação (crua e, muitas vezes, indigesta) e ao risco (dual e antagônico). é linha de fratura que desafia operando transfigurações. é variante e instaura outras ordens de materialidade, como por exemplo, uma linguagem/manifesto/ação queer que desmistifica conceitos, que desontologiza sujeitos da política, e nos alerta sobre a sobremitificação de mitos usados, tanto pela cultura “nativa” quanto pela cultura globalizada, para fins de oprimir corpos e ideias. não é preciso ser especialista, ou fazer parte de um grupo privilegiado, ou ainda, ter qualquer espécie de pacto social ou de gueto, para ser capaz em ter sucesso no deciframento de tal criação/invenção/composição. mas é preciso um determinado esforço reflexivo, um engajamento epistemológico. no entanto, é válido lembrar que um transpensamento não está condenado nem ao silêncio, nem ao calar-se forçadamente, mas sim a uma surdez voluntária que atua como violência da coisificação – preconceito cínico do fazer desaparecer. surdez esta que estigmatiza o transpensamento com uma resistência à “importação”, tratando-o como imigrante clandestino e ainda, reduzindo-o, antropológica e etnologicamente, à expressão de minorias exóticas e condenadas à circulação de guetos.  

três exemplos

[1] o famoso aforismo einsteniano ‘deus não joga dados’ (gott wuerfelt nicht) adquire, em português, um significado ainda mais profundo que o pretendido. einstein quis dizer que os ‘dados’, isto é, pedras de jogar, não são protótipos dos fenômenos da natureza, porque esta obedece a regras preestabelecidas. em português surge o segundo sentido de ‘dados’ como matéria-prima do conhecimento. menciono isto a título de curiosidade, como exemplo de uma ironia (quem sabe sabedoria?) espontânea da língua. – vilém flusser (“língua e realidade”, 2007)

[2] “a sexualidade é muito comparável às línguas. aprender outra sexualidade é como aprender outras línguas. e todo mundo pode falar as línguas que quiser. há apenas que aprendê-las, igual à sexualidade. qualquer um pode aprender as práticas da heterossexualidade, da homossexualidade, do masoquismo...” – paul b.preciado (“manifiesto contrasexual”, 2002)

[3] “in my language” (video) de amelia baggs: “the first part is in my "native language," and then the second part provides a translation, or at least an explanation. this is not a look-at-the-autie gawking freakshow as much as it is a statement about what gets considered thought, intelligence, personhood, language, and communication, and what does not.” (2007)


léo pimentel, amante da heresia, outono, 2015

LUz, SOmbrAs E CUrvAs NO UnIvErsO DA IdEOgrAfIA ErÓtIcA de JUliA

NOTA: na postagem a baixo há apenas minha escrita sobre as fotos de julia filardis. para vê-las e melhor acompanhar melhor o que escrevo, leia o texto a partir desse link:




“el placer de los sentidos está siempre regido por la imaginación. 
el hombre no puede alcanzar la felicidad si no acata todos los caprichos de su mente.” 
(in. beauvoir, simone de. el marqués de sade, 1959, p.19)[i]


§1. preliminares

hoje nada é mais banal do que os corpos por trás da liberação do discurso dos mesmos. hoje nada mais banal que o desejo por trás da proliferação de seus modos de ser e agir. os corpos e os desejos estão por todas as partes, exceto no erotismo.

ausência por ambos terem sidos tragados para dentro da indústria do banal. indústria esta que produz uma infinidade de aparatos para microprocessá-los. não há mais signos, nem ritualística. há apenas performances, como acontece no esporte; há apenas sedução amena e pulverizada num cosmos social desnutrido, como acontece na urbanização e no paisagismo. 

corpos e desejos sem erotismo... sim. pois o erotismo é da ordem da polivalência difusa do gozo que transfigura todo o corpo pelo desejo. o erotismo é uma natureza desnaturalizada, ou seja, sem práticas naturais. pois estas, os discursos da anatomia como destino e os discursos da psicologia já se apropriaram. o erotismo é da ordem do artifício que opera como estranha coincidência com a própria natureza. o erotismo é ao mesmo tempo a constatação radical de sua prática artificial e sua única possibilidade de ultrapassa-la enquanto tal.

a natureza está morta. assim como nietzsche anunciou a morte de deus. eterna ironia erótica. sem deus e sem natureza, o erotismo se desbanaliza. sem ética e sem estética, o erotismo se desbanaliza. sem deus, o jogo mais banal do gozo como prêmio de consolação da procriação, torna-se inocência obscena do gozo da festa. sem natureza, a situação sexual original de violação e de violência, torna-se nudez sem verdade objetiva. sem ética, o medo de se estar seduzido/a, torna-se uma forma superior de intersubjetividade, imoralismo. sem estética, o fetichismo colecionador da paixão pela regra, torna-se aposta máxima da multiplicação de desafios sem origens e sem originais. erótica.


§2. ideografia erótica

uma ideografia erótica se dá em duplo caráter. por um lado é uma representação direta de pensamento sem nenhum elemento silábico ou fonético – ideograma. por outro é uma pura hipótese, espécie de exploração libidinal numa obscenidade radical, visível e de imaginação-artificial de um universo de signos cuja forma é a conjuração de uma ritualística de artifício e animalidade – erótica. 

para uma virtuosa prática de uma ideografia erótica é preciso uma caligrafia impecável, como a do shodō japonês (書道, "caminho da escritura"). no caso desta, os instrumentos são um pincel, um tinteiro e uma folha de arroz. e sua disposição filosófica, a própria vida. para o shodō toda a escritura é uma totalidade vital, não há possibilidade para se voltar atrás. escreve-se, como se vive. sem borrões ou falhas as pinceladas se alternam em força, delicadeza, e velocidade. trechos se intercalam em sutileza e intensidade. tanto o pincelado quanto o vazio fazem parte de um mesmo todo. 

pois bem, mas a ideografia aqui é mais que o shodō, é erótica. os instrumentos são outros; são uma máquina fotográfica, as curvas de corpos, as formas de objetos e um ambiente. seus trechos são intercalações entre luz e sombra que se intercalam em sutileza e intensidade. tanto a composição quanto o acaso da ambiência fazem parte de um mesmo todo. aqui o ultrapassar do shodō é realizado por julia filardi, cuja disposição filosófica de seu olhar é o próprio erotismo. fotografa-se, como se erotiza. sem sedução amena ou desejos microprocessados, seu olhar se compõe em suas fotografias em força, delicadeza e velocidade.


§3. aposta na polivalência difusa do gozo

um universo erótico jamais pode ser formulado com linguagem teórica. o símbolo, o mito, o ritual são a sua manifestação mais autêntica, pois expressam em planos diversos um complexo sistema de afirmações sobre a realidade. é um tipo de sistema que não é destino, tampouco política. constitui uma metafísica de aposta, de sortilégio e de vertigem. 

ao penetrar no autêntico significado de um símbolo, mito ou ritual, o universo representado está presente. presença mostrada, revelada. cada coisa adquire um valor de realidade que a transcende. no caso do universo erótico das fotografias de julia, a luz, as sombras, as curvas dos corpos, as formas dos objetos e sua ambiência se dão com uma fluidez que, de modo algum, podem ser contemplados com a rigidez dos sistemas ontológicos fornecidos pela tradição filosófica. pois, sua contemplação não deve dividir seus elementos em imaginários, reais e ideias. tais coordenadas não lhes servem, porque de forma alguma reflete o erotismo desse universo. 

as fotografias de julia são superfícies significativas que devem ser percorridas como que pelas pontas dos dedos. não são imagens objetivas. pois o objetivo fala apenas aos discursos de poder engajados em processos visíveis; ao banal; à indústria produtora de banalidades. o processo aqui é o da imagem para ser imaginada. é abstração realizada. são tão profundas quanto mais superficiais. superficialidade liberta do concreto. por exemplo, os dedos que percorrem a serra dentada ou as curvas dos corpos podem tanto cortar quanto deliciar. ambos podem ser profundos, irreversíveis, ou seja, ambos os cortes podem estar libertos da superficialidade banal e alcançar a superficialidade extraordinária. tal qual uma bela tatuagem realizada por escarificação. isso tudo ocorre tanto à luz, quanto às sombras. como eu disse antes, nelas não deve se dividem, seus elementos, em imaginários, reais e ideias.

fotografia tátil de um universo que convida ao toque. mas não a qualquer toque; aquele cuja realidade é atribuída fora da participação simbólica. mas sim um toque que se possa arriscar-se na aposta da polivalência difusa do gozo que transfigura todo o corpo pelo desejo. um toque enquanto ritualística e gestos profanos significativos que materializa esses significados. um toque que projeta a superfície da fotografia para a presença de quem a toca.


§4. erotismo, somente se imaginístico

quem imagina, recria o imaginado. quem deseja, recria o que deseja. a presença do corpo recria o próprio corpo. assim, a imaginação de julia em suas imagens abre um universo a mim: sua imaginação torna suas imagens imaginável para mim; recria todo um outro universo: o universo do erotismo da luz e das sombras. a fluidez de ambas se realiza quando imagino que seus respetivos sentidos se dão a posteriori. a fluidez entre ambas não são servas das significações, as imagens de julia desvendam o segredo do futuro formado pelo verbo “haver”. não há erotismo algum se não houver prática e vivência em outra pessoa. 

erotismo é troca autêntica; é dialética sem síntese. somente nessa troca algo se torna real; algo se realiza. tal qual o imaginado. nessa troca se dá um universo-acidente. já que imaginar é desmistificar; é ato desmistificador que nega toda criação a partir do nada. a imaginadora, no caso, nos desafia a imaginar com ela o máximo de imaginalidades: universos acidentais e sinuosos. cada elemento de sua composição é uma metáfora. substituem, apontam, procuram.

cada luz, sombra, corpo e ambiência é uma curva, uma curvatura que dobra todo o espaço à nossa volta; dobradura cujas reentrâncias nos são portais de acesso ao desconhecido que se abrem quando, com os olhos, estes dedos imaginativos, percorremos sensualmente as curvas das fotografias de julia. cada luz, sombra, corpo e ambiência são símbolos que apontam para o nada, o inarticulável, o silêncio, no entanto transbordando de imaginação, a própria articulação, a música. um nada que forma e informa nosso erotismo; matéria-prima do nosso erotismo: imaginação que em seu ato ultrapassa-se.

as imagens de julia erotizam: traduzem os apontamentos ao nada em silêncio encantado, para, assim, apreende-los. e a imaginação apreendida nesse silêncio é o reagrupamento, a composição, como na música, dos encantos da luz, das sombras, das curvas sinuosas dos corpos e da ambiência, para serem aprendidas enquanto ideografia erótica.


§5. relações sensuais

a ideografia erótica de julia possui dois níveis de sensualidade paralelos: o fotografado em composição e o ideograma imaginado. 

o fotografado em composição corresponde à sensualidade in-formada subjacente: mãos artesãs do poder-ser; seios que observam o horizonte das potencialidades que haverão de realizar-se; coxas prestes a expandir o território de sua realidade; pele que nos quer arrancar algo das profundezas do inarticulado, serra redonda, dentada e enferrujada que trás consigo o perigo da exposição do corpo ao influxo imediato da dor, a ambiência cuja textura é o próprio caos dos instintos, das vivências inarticuladas, das impressões sensuais que surgem à tona; as sombras que revelam o horizonte invisível do visível e; luz como extrema articulação através da qual o indizível é abordado.

o ideograma imaginado corresponde à sensualidade com-posta aparente: é a superfície significante, o corpo expressivo de toda a fotografia. por intermédio desse nível da sensualidade, quem vê a imagem e a imagina conhece a composição do erotismo e pode agir eroticamente sobre ele. quando os elementos fotografados em composição agem uns sobre os outros, enviam-se sensualidades e modificam seus estados internos, assim vemos ideogramas imaginados que se transformam mutuamente. o ideograma imaginado manifesta o conjunto de diferentes imaginações do fotografado em composição e exprimem sensualmente a realidade erótica do desejo e dos corpos presentes: o olhar-desejo de julia que compõe; o corpo-seduzido da fotografia com o olhar-desejo de quem o vê; a serra-perigo seduzida por ambos os corpos; a ambiência-caos que faz fundo-subconsciente a todos os corpos presentes.

o fotografado em composição e o ideograma imaginado sustentam relações sensuais complexas: desejo para com o fotografado e corpo expressivo para o ideograma. o erótico é a vivência das fotografias de julia. nossos intelectos as sentem, e para realizar-se plenamente, precisam superar-se, aniquilando-se voluntariamente em relações sensuais, relações libidinais.



lÉo pImEntEl

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[i] beauvoir, simone de. (1956), el marqués de sade. libro de edición argentina. ediciones leviatan. (in. www.elortiba.org).
quando falamos "eu penso que...", quem será que escondendo? a voz do pai? da mãe? dos/as professores/as? padres? policiais? da moral burguesa ou proletária? ou as idéias de alguém que já lemos? escutamos? ou...
 
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