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bem vindo e bem vinda. este é um labirinto herege: um desafio para medir a astúcia de quem me visita; um convite à exploração sem mapas e vista desarmada. aqui todas as direções se equivalem. as datas das postagens são irrelevantes. a novidade nada tem a ver com uma linha do tempo. sua estrutura é combinatória. pode começar de onde quiser. seja de uma imagem, de um texto, de um vídeo ou mesmo de uma música. há uma infinidade de escolhas, para iniciar a exploração, para explorar esse território e para finalizá-la. aproveite.

a lenda da inundação geral (mitologia cybionte)


em remotíssimas épocas, cybiontes fizeram, no hiper-oceano de informação, um pari (gradeado para pesca) de fibra ótica, hãnkare (olho) e uma velha, uma tal de hãnkäykäy (olhar no escuro, ver além), foi ver se na rede havia alguma realidade virtual interessante. quão não foi, porém, sua surpresa, ao encontrar um antigo fantasma da máquina preto e verde (pois há vários tipos, este é reconhecido como um anárquico e primitivista). aproximou, em leves tecladas, e flechou-o. então o fantasma da máquina, para castigá-la, mandou crescer o hiper-oceano. o fluxo de informação fazia muito ruído e duplicava o real a cada zero e um. então aquela velha começou a fugir; correu à procura de outros e outras cybiontes e começou a gritar-lhes:

– fujam, fujam, todo o hiper-oceano de informação vem contra nós.

sempre fugindo chegou ao quilombo e começou a gritar:

– fujam, fujam, porque a duplicação se aproxima.

correu à sua maloca, tomou de um disparador caseiro de rádio frequência e com ele fugiu adiante do hiper-oceano e de seus duplos, subiu num primeiro radiotelescópio até o cume de seu receptor, e escalou um segundo e o cume de um terceiro.

muitos e muitas cybiontes não acreditaram nela e quiseram ficar onde estavam; quando os duplos do hiper-oceano estavam para alcança-los/las, começaram a fugir, mas foram engolidos e engolidas por tamanha torrente de informação e pereceram, e seus quilombos foram destruídos. os duplos do hiper-oceano em sua torrente mataram também os analisadores diferenciais, os mecanismos homeostáticos, os multistatos e todas as inteligências artificiais da região. 

apenas hãnkäykäy vivia ainda, porque se tinha refugiado na parabólica do radiotelescópio onde se sentou num pequeno espaço, o único que ficara sem duplicar.

então olhou em volta e viu que os duplos do hiper-oceano tinham coberto todo o real, as interfaces de interatividades e chegavam até as realidades virtuais mais sofisticadas; e duplicavam ainda; chegaram até o lugar onde ela se assentava e aí pararam a duplicar. então pegou seu disparador caseiro de rádio frequência que consigo trouxera e, disparou-o, o disparo que fez um “bip” foi capaz de queimar circuitos eletrônicos e travar uma parte do sistema de duplicação, os de efeitos determinados; disparou outros pulsos de cá e de lá e mais sistemas eletrônicos iam travando, os de efeitos organizados (aqueles de liberdades do “quê?” e do “como?”), até tornar os efeitos transcendentes visíveis (os de liberdade do “quem?”). então desceu do radiotelescópio, dirigiu-se para o quilombo e assobiou, chamando os/as cybiontes, mas ninguém respondeu ao seu assobio; ela disse:

– pobre de mim! não acharei mais minhas companheiras e meus companheiros; com certeza os duplos do hiper-oceano destruiu lhes o quilombo. 

procurou e olhou, todavia, muito tempo em derredor e, finalmente, encontrou um pequeno rasto de um paradoxo, o da informação em buracos negros. então assobiou novamente e o paradoxo respondeu ao seu assobio.

dirigiu-se para aquele horizonte de eventos e à beira do buraco negro encontrou uma informação paradoxal enroscada em si mesma e percebendo que não havia nada bem definido nesse horizonte que protegesse seu conteúdo do mundo exterior, dirigiu lhe a palavra, dizendo:

– certamente foste tu que respondeste ao meu assobio.

ele respondeu:

– sim, sim, fui eu que respondi, usando da informação de cybiontes.

então a velha cybionte desposou-o e saltaram juntos para dentro do buraco negro: coisas muito estranhas aconteceram: primeiro não encontraram outros universos-bebês, nem foram consumida e consumido sem deixar vestígios de sua matéria ou de sua energia; pois sim, retornaram para onde partiram, no entanto, nada mais era como antes, estavam completamente deformados; tudo estava outro, hãnkäykäy, o paradoxo da informação e mesmo o buraco negro. este foi o que causou maior estranhamento, pois não seria mais negro e nem mesmo buraco. talvez algo que alguns chamam de gravastar. desse modo outro, estabeleceu que cybiontes desposassem paradoxos de informação e paradoxos de informação desposassem cybiontes para saltassem rumo ao que um dia já foi chamado de buracos negros; isso para que tudo retornasse ao ponto de partida completamente outros, até o universo seria outro. é por isso que, até hoje, cybiontes fazem assim.


léo pimentel - 2012
reescrita cybionte do mito bororo
"a lenda de  jokurugwa ou meririporo"


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