sugestões de uso deste blog

bem vindo e bem vinda. este é um labirinto herege: um desafio para medir a astúcia de quem me visita; um convite à exploração sem mapas e vista desarmada. aqui todas as direções se equivalem. as datas das postagens são irrelevantes. a novidade nada tem a ver com uma linha do tempo. sua estrutura é combinatória. pode começar de onde quiser. seja de uma imagem, de um texto, de um vídeo ou mesmo de uma música. há uma infinidade de escolhas, para iniciar a exploração, para explorar esse território e para finalizá-la. aproveite.

[livrozine] FAZERES n.02 - SABERES ANARCOPUNKS E O FAÇA-VC-MESMX (2024)

salve salve meu povo das insurgências para adiar o fim do mundo! e já está disponível o livrozine FAZERES n.02 - SABERES ANARCOPUNKS E O FAÇA-VC-MESMX, do meu grande compa querido @mauricio_remigio! a versão impressa pode ser adquirida via a editora monstro dos mares @monstrodosmares

nesta edição a capa é uma colagem minha e tem um texto meu também, o "Anarc[x]punk DIY".

leiam zines & vivam o fanzinato!

colaboram com textos:

Amante da Heresia – Distrito Federal / Josimas Ramos – São Paulo / Morto – Ceará / Maria Helena Bonifácio – São Paulo / Lampião – Rio Grande do Sul / Jaddson Luiz Souza Silva – Pará / Bizarro Zangado – Pará / Avles – São Paulo / Mauricio Remígio - Amapá

EDITORIAL

Na segunda edição do Fazeres , com a imagem da capa criada por Amante da Heresia, mergulhamos na prática do "faça você mesmo" como parte dos saberes anarcopunks, uma forma de resistência e criação coletiva que rejeita a dependência das estruturas de poder. O punk, desde suas origens, sempre foi mais que um estilo musical ou estético. Ele é uma maneira de enxergar e viver o mundo, situado num horizonte de luta anarquista. Antes de ser conhecido pelas bandas e pela indústria, o punk nasceu do inconformismo, da rebeldia diante da ordem estabelecida, abrindo caminhos para novas formas de pensar e agir. O "faça você mesmo" é mais do que uma técnica; é uma prática que horizontaliza o saber e o fazer. Em uma sociedade marcada pela especialização e hierarquias, o anarcopunk age como ingovernável, pois inventa sua própria maneira de fazer as coisas. Nos espaços autônomos que criam, os punks desafiam as normas de produção, reinventando o ato de criar cultura e ação política a partir da escassez e da insatisfação. É uma prática que questiona o monopólio do conhecimento e afirma a potência do autodidatismo. Com suas próprias mãos, punks ensinam e aprendem a importância da teimosia, de se posicionar no mundo com liberdade e recusa das imposições  externas. Esse fazer coletivo e descompromissado com a validação institucional é um grito de autonomia. Cada página deste livrozine reflete essa filosofia, trazendo vozes de diferentes cantos do Brasil, cada uma contribuindo para a construção diversa que é o anarcopunk. Este espaço é de todos os que acreditam no poder da ação direta e da liberdade de criar.
Mauricio Remigio

ÍNDICE

Anarc[x]punk..DIY - Amante da Heresia
O Faça Você mesmo como arma de guerra - Josimas Ramos
Espaços autônomos de Fortaleza - Morto
Anarcopunk e diy: na minha compreensão e vivência - Maria Helena Bonifácio
Kontra Kultura Punk e faça você mesmo - Lampião
Arte, história e ativismo político: O papel do “faça você mesmo” para o movimento anarcopunk - Jaddson Luiz Sousa Silva
Colagem de Rua pela Matilha 167 – Qaza de Kultura AnarcoPunk - Bizarro Zangado
Anarcopunk e o faça você mesmx - Avles
Conversa de point: a gente aprende a fazer fazendo - Mauricio Remigio



[resenha criativa] ficAr brUxA sOb um sOl de lUz nEgrA (INRGD)

ficAr brUxA sOb um sOl de lUz nEgrA

(conto inspirado no álbum “Ficar Bruxa” de INRGD - https://inrgd.bandcamp.com/album/ficar-bruxa)
AmAntE da hErEsiA - (léo 130 pimentel pixel) - cerrado, primavera, 2024
[*os números indicam o tempo de duração das músicas. & o código binário deve ser decodificado.]


a grande queimada aconteceu. memórias & futuros se misturam em cinzas. fuligens temporais se torciam & se dobravam. uma vertigem no tempo se fez: 05’25. olhos, ouvidos & continuidade se tornaram anômalos. pois o sol passara a emitir apenas luz negra. a luz visível jaz. escorreu como areia numa ampulheta abismal. insurge uma faixa ultravioleta como radiação audível. a fotossíntese, em desconcerto, tornou-se absorção de radiação negra. o frio & o sombrio tornaram-se solar. assim, nós, os de esqueletos brilhantes, de pele reflexível & metálica sussurramos delícias. seria lógico a criação de cidades subterrâneas com fontes artificiais. no entanto, com as estrelas visíveis de dia, sob uma linda aurora negra, constante penumbra, sombras profundas, mas doce, dançávamos como se enroscássemos nossos filamentos uns nas outras & vice-versa. novos sentidos surgiram. outros espectros se abriram às nossas membranas serosas. evoka-te a ti mesme: 4’35.

marcadores ambientais alternativos alteram o campo magnético de zonas erógenas. regulam-se ciclos de prazeres, aumentando radiações infravermelhas, & reduzindo a radiação visível. formas geométricas murmuradas ao ar, sentidas como arrepios no cangote. tapeçaria espiritual sensível ao toque. macias. texturas criptografadas. distorções tecidas como segredos que nos arrepiam o pescoço: 1’01. sua voz, como pontas de dedos, eletrificam. como se desse um cheiro em nossas nucas. bruxaria visceral. encantos ácidos. sangue licoroso: 3’52. vinho de romã. sede. assim, sintéticos bioluminescentes. azul, roxo & verde. camuflagens fluorescentes. lumifloris noctilucens. luciferina. luciferase. como se evocada à translucidez. néctar resplendor de alarme. ela sussurra. materializa-se. bruxa-te. noctiluminis auroralis. de escamas microscópicas. antenas longas & plumosas. suas asas cantam. fascinam & condenam: 3’58. polinizam seres biotecnológicos. inspiram espíritos artificiais a saírem de suas pupas. brilhem cigarras negras. neste cerrado elétrico de luz negra. farol vivo.

ela passeia, ao meio dia, no ápice do sol de luz negra. parece caçar. empunha um arco com 101 teclas. geração 2.A.0. de olhar moisaico. também emite flashes rápidos. criam efeitos hipnotizantes. parecem ondular como correntes de luz líquida em tons de roxo. ricas almas que por eles mergulham. cinzam-se: 3’57. envolvem-se em um véu de negrumes brilhantes sincronizados. psicodelia ultravioleta. submersíveis em dança. devora o vazio. dança! dança! dança! serpentina. coração alienígena. pulsa em bruxa. fia-se em bruxa. fica bruxa: 4’59. miragem. delírio. pérolas sombrias. alegria escura. espectro deslisante. espalha partículas de sombras líquidas. desafio insondável. quem será sua presa? bruxas invertidas. agora caçam. corra! corra! corra inquisidor! sua hora chegou despeça-te. teu mergulho no esquecimento é tua sentença. mesmo ela fora do corpo, não há mais tempo para você, inquisidor. sob a luz negra ela ri: 4’26.

agora a vejo em seus contornos. de coração sem esperanças. portanto, em liberdade. perco minhas ilusões: 4’17. mesmo que agarrado em seu duplo. um reflexo que reluz em verde & violeta. irradiação que desafia o peso da escuridão. rodopia líquida, como um balé de segredos futuros. seus movimentos são como um poema submerso. inacabado. esperando ser descoberto. a meio lugar entre espelhos: 3’56. porque não entre o sonho da vastidão & o delírio do cosmos? a lua que brilha sob o mar como se fosse em um espelho. dois cosmos fantasmas. mundo & ego. sem formas fixas. talvez com todas as formas ao mesmo tempo. não sei, com o intelecto. mas sei, com minha sensibilidade. o cerrado está submerso. o sertão que virou mar parece suspenso no vazio. um daqueles nadas com mundos inteiros possíveis para brotar. mundos em potência. virtualmente aqui & ali. binários. zeros & uns. alto lá! cuidado! 01100100 01101001 01100111 01101001 01110100 01100001 01101100 00100000 01100101 01100111 01101111: 3’59.

ela, bruxa-me. encanta meus olhos a essa escuridão. apenas ouço. sou todo ouvidos. prepara-me em beleza & lirismo para seus sons, suas sombras. sinto-me buraco no tecido da realidade. pura cavidade timpânica. como uma nave espacial pirata à deriva nesse quadrante negro, seu farol-sonar me guiou até aqui. a este lugar que até então não existia. que apenas sinto sua presença, como um abismo que me abraça & me acolhe. visões que morreram por escutas mais vibrantes: 3’55. vibra-me. como uma supercorda que ressoa suas canções à beira de um horizonte de eventos. sinto sua gravidade massiva. rastros de uma irrealidade etérea. onde o sublime reina. não em solidão. ora em solitude, ora junto, com. sublime em ato de noscere: 3’25. piratas que amam bruxas que amam heresias. Amem!


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[lançamento] livro "PIRATARIAS PEDAGÓGICAS E A ARTE DE NAVEGAR" de fERNANDo bONFIm mARIANa (21 nov 24)

salve salve meu povo das piratarias para adiar o fim do mundo! all aboard! no dia 21 de novembro, quinta feira, às 19h na CCAL (casa da cultura da américa latina - UnB), fizemos o pré lançamento do livro "PIRATARIAS PEDAGÓGICAS E A ARTE DE NAVEGAR" de meu grande parsa FERNANDO BONFIM MARIANA. por lá fiz uma sonzêra interagindo com a palestra-performance em ilhas do fERNANDo. tivemos uma boa charla e bebericamos algumas canecas de rum! sem falar do público incrível e da presença mais que especial da r[A]p0s[A] suj[A]. 

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Fernando Bomfim é Historiador pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (1997), com mestrado (2003) e doutorado (2008) em Educação pela Faculdade de Educação da USP. Professor Associado I da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (FEUnB) no Departamento de Teoria e Fundamentos (TEF).


fotos por r[A]p0z[A] suj[A].






[bônus] dias antes do pré-lançamento, fERNANDo conversou com o grupo em rebeldia acadêmica AntiLab da UFPB coordenado pelo grande pirata filósofo dANIEl fIGUEIREDo, sobre seu livro, Pirataria Pedagógica e a Arte de Navegar. Assista aqui:



[TUCANDEIROMANC3RZ trio] COMEMORAÇÃO 40 ANOS DE NEUROMANCER! (16 nov. 24)

 

o livro NEUROMANCER, de william gibson, foi um marco para mim. tive acesso a ele 15 anos depois de seu lançamento original. me foi um divisor de águas. por ele descobri o gênero cyberpunk. depois dele, introduzi minhas próprias reflexões sobre o assunto em minhas experiências e experimentos anarcopunks e filosóficos. com ele, a ficção científica, que eu já gostava, fez um giro radical. hoje me aventuro a escrever nela, e sobre ela, tendo esse horizonte em minhas criações. e como 2024 foi seu quadragésimo aniversário, nada mais alegre e justo, prestar-lhe uma homenagem. já que, desde 2023, eu, o grande EufraKtus-X e o incontornável pHIL mENTUFACTUREs criamos um experimento sonoro, mais tarde nomeado de TUCANDEIROMANC3Z trio, em referência a uma hibridização minha entre o título do mencionado livro e a formiga-bala, conhecida como tucandeira, utilizada em ritual pelo povo Sateré-Maué, da Amazônia brasileira.


REGITRO 01: por eufrasio prates, da comemoração que fizemos:


REGISTRO 02: também por eufrásio prates:

[BSBLOrk] Lideres Silentes: II Encuentro LatinoAmericano de Música y Tecnología (México - 14 nov. 24)

Líderes Silentes: concerto de improvisação da BSBLOrk, usando algoritmos em Max-MSP da suíte Holofractal Interativa de Transdução Sonoro-visual no evento Transferencias Aurales II Encontro Latinoamericano de Música e Tecnologia, organizado na UNAM (Mexico). O concerto dessa noite foi conduzido por Leandro Muñoz, com a participação de Bruno Cunha, Leo Pimentel e Eufrasio Prates, manipulando discursos políticos de Biden, Bolsonaro, Trump, Hitler etc., e sons de animais, além de sintetizadores controlados por câmeras a agentes de IAA inteligência artificialmente aumentada baseados em cadeias de Markov de 4a. ordem. 

A transmissão enfrentou problemas técnicos entre 7:10 e 9:20. ------------------- Free experimental algorithmic music, with the HITS Holofractal Interactive Transduction System, available at bsblork.gitlab.io


[videoclipe] 3 VR de fredé cf


ATENÇÃO!
Há rumores que um hacker pós-doutor, membro da resistência anti-mekhantrópica, chamado @amantedaheresia criou um distúrbio no sistema de MekHanTropia fazendo rituais ciberxamânicos de exaltação poética das três realidades ascottianas: validada, virtual e vegetal.
Foi capturado hoje, pelas energias do Dia das Bruxas, um videoclipe musical que mostra diversas facetas deste ser metamorfo praticando uma espécie de tai chi pós-humano com uma música de outro membro insurgente da resistência: @fredecf
Há uma mensagem por trás de tudo isso que estamos ainda em processo de análise pelo código-fonte de MekHanTropia.
Por enquanto temos essas imagens vazadas aqui postadas como prints.
Mais informações no próximo dia 02/11, Dia de Finados, às 16h20 aqui neste mesmo canal.
Fiquem de olhos e ouvidos bem abertos (ou não).
Saudações MekHanTrópicas!
O Acimador
(31/10/2024)

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Se essa mensagem chegou até você, saiba que está correndo perigo. Conseguimos disturbear o sistema artificial de MekHanTrop(IA) para trazer um recado importante de reexistência cósmica. Humana. Essencial. Animal. Preste bastante atenção, pois a qualquer instante essa mensagem pode desaparecer no fluxo hiperinformacional. 
É preciso que nos aprofundemos mais nas nuances das subjetividades temporais de cada um, de cada indivíduo, começando por nós mesmos. Integrar as realidades virtual, validada e vegetal. Os espaços em MekHanTropia são entendidos normalmente como diversos, mas o tempo é tido como um só. Nos esquecemos que cada ser tem seu ritmo. Sua própria dimensão. Seu próprio passo. Sua própria razão. Emoção. Cada ser é mutável em relação aos próprios tempos. Passados, presentes, futuros. Desconstrução. Ressignificação. Transmutação. Shanzhai. O tempo instituído como padrão, como um só, quantificado, datado, determinado, nos padroniza e oprime aniquilando potências, talvez até mais que os espaços. É preciso olhar pra diversidade, pra alteridade, pra mutabilidade, pra pluralidade dos tempos idiossincráticos de cada indivíduo. Escalas de cinza entre os polos do padrão binário. Transbinarismo. Realidades múltiplas em meio a dispersão mekhantrópica de alienação. 
É preciso libertar os tempos dos espaços que já não mais são, para possibilidades do que podem ser!
Dance, fantasma da heresia! Dance! Transcenda-se em sua própria pulsão. 
[“Grey Scale (códigos anti-MekHanTrópicos)”. Fredé CF & Amante da Heresia, 2024].

[videoclipe] CHAMADO da banda C.O.I.C.E

CHAMADO, o muZine, ou seja, um videoclipe realizado por mim, um Zineasta anarca e punk, AmAntE da hErEsiA, é uma obra visceral aos olhos. já que eu tinha de fazer justiça com a força da música da banda mais que phoderástica C.O.I.C.E. (Com Ódio e Indignação Continuamos Existindo). para chegar às imagens, que cheguei, deitei e rolei na edição zinematográfica, fiquei ouvindo a música várias vezes seguidas. até que me veio a ideia de criar uma narrativa irônica, ou uma zombaria crítica, que devia misturar, realidade, ficção e humor. para isso transformei o super-homem em super-cifrão, o grande herói da religião, do estado e do capital. e daí evoquei nossa rebeldia ancestral e nossa revolta atual para a gente agir por um futuro melhor. assim é o CHAMADO, todes nós juntes, numa união simbolizada por vários tipos de anarquismos, como a mais potente kriptonita contra esse grande capitão do mato. considero esse muZine como o segundo passo dado do DIY: se começamos no "faça-você-mesme", agora seguimos no "façamos-nós-mesmes"! (2024) 


***** 
sobre a música, por Maurício Remígio: "Chamado" é uma música de resistência, um grito que contrasta com os poderes que saqueiam vidas e molestam a paz. Denuncia a manipulação e o controle sobre as populações, expondo aqueles que, nas sombras, acumulam propriedades enquanto tentam silenciar as vozes que ousam resistir. Com influências do punk e sonoridades dos povos tradicionais, "Chamado" emerge dos fazeres DIY como uma rejeição profunda ao sistema. Os tambores e vozes ecoam saberes que atravessam o tempo, anunciando que outros mundos existem e resistem. "Chamado" é uma convocação à solidariedade e à criação de existências libertárias, nascendo do desejo de romper com a dominação e de expor aqueles que se beneficiam do sofrimento e da exploração alheia.

[resenha criativa] flUctUArE in kOsmOs – vislumbres do livro Aforismos do Ciberpajé (out.24)


flUctUArE in kOsmOs 
– vislumbre do livro Aforismos do Ciberpajé –

AmAntE da hErEsiA – lÉo pIMENTEl (130 pix3ls – sOUl tO)
primavera, cerrado, 2024


para pensar sobre um texto é de extrema importância o tipo de leitura que se faz. essa relação é crucial. caso contrário, tudo o que se lê não passa de uma mesmidade informacional. ler deve ser um permanente colocar-se em experimento. já que aquilo que será lido, é a realidade virtual em que, quem escreve, se coloca a viver. nesse tipo de experienciar-se há, a um só tempo, o vislumbre dessa RV escrita e seu chocar-se com a RV leitura. colocar-se a ler, é seguir para dentro de uma colisão de galáxias. um movimento de choque profundo e intenso, onde dali, jamais se poderá sair a mesma pessoa que lê. não acontecendo esse choque, é o império do mesmo que ali se reitera.

pois bem, o experimento de leitura e, consequentemente, o modo que me coloquei a pensar sobre o que li, em “Aforismos do Ciberpajé”, seguiu duas coordenadas experimentais para acesso e colisão com tal realidade virtual ciberpajeana: a primeira foi, “tendo o escrito, a forma de aforismos, como seria se minha leitura também fosse aforismática?”; e a segunda coordenada, foi “como ter, em imagens, o sentido do todo cósmico a partir de tantos fragmentos moleculares?”. em outras palavras: ler fractalmente construindo cosmos imageticamente. para tal aventura errante, nomeei minhas reflexões aqui de “fluctuare in kosmos”. “fluctuare” do latim, que significa “agitar”, “ondular” no “kosmos”, do grego, que é “ordenar”, “harmonizar” diferentes contextos.

*****

capitulo i

aqui não há atalhos de sentido. muito menos há encurtamentos da linguagem. há sim uma profunda intimidade entre estranhos. como aquele princípio biológico evolutivo, cuja dinâmica entre estranhos, é a condição básica da sobrevivência. indivíduos não relacionados que mostram que é a cooperação, e não a competição, que melhor propiciam a seleção natural. desde esse poderoso princípio evolutivo, os estranhos “lobo” e “ciberpajé” passam a se relacionar intimamente. ora ciberpajé coleta o néctar do lobo. ora o lobo vem viver entre os tentáculos do ciberpajé. ora é a simbiogenia que os une. ora o ciberpajé se associa ao lobo, para ambos, conseguirem melhor absorver os nutrientes vitais do cosmos. ora o lobo se aproxima do ciberpajé para lhe comer seus carrapatos e parasitas, para que sua transmutação se realize na mais alta potência magikca.

curiosamente dá para ver uma espécie de “atmosfera microlobuna” no corpo pós-humano ciberpajeano. bactérias, fungos e vírus licantrópicos que se desprendem no ar e permanecem em torno dele. isso lhe propicia uma certa assinatura microlicantrópica viva. um corpo de fera cuja pós-humanidade é se aproximar de ser um corpo cósmico composto, somente, de microlobos vivos. um tipo de lobisomem jamais visto até então. um tipo pós-espécie que acontece desde seus micro-organismos mais básicos. de sistema imunológico fortalecido e voraz contra toda mediocridade, e contra qualquer que seja a progressão geométrica da mesmisse. interessante notar que tudo isso se dá em flutuação. parece não haver terra, nem raízes, a não ser as aéreas. também não há arquitetura, muito menos urbanismo – seria alguma cicatriz? como na maioria dos desenhos do próprio ciberpajé: assim como em sua RV, tudo acontece no cosmos interior de cada uma de nós. onde temos asas poderosíssimas, biomecânicas, em que, a medida em que a batemos, o cosmos, organicamente, se expande com seus movimentos. ou melhor, onde temos patas, peludas, fortes e com garras afiadas, cibergeneticamente transmutadas, em que, a medida que corremos por sobre nossos abismos interiores, o cosmos se expande dentro da singularidade de cada uma de nossas pegadas.

capítulo ii

se anteriormente a intimidade era entre os estranhos, lobo e ciberpajé, que se complementam em flutuação e pegadas cósmicas, aqui, a intimidade se dá entre os familiares, em nome do pai, do filho e da mãe, numa geografia mineiro-goiana. aqui o pós-animal é outro. está ora aterrado, ora deixando vestígios de sua passagem. é uma espécie de tardígrado de tamanho família de papo reto e franco. ou melhor, essa relação terrosa não seria mais bem descrita como a grande família franco-tardígrado? pois, pelos aforismos, desta segunda ponta, que é esse capítulo do referido livro-tridente, há uma extrema resiliência expressa amorosamente. as condições são as mais extremas, letais para organismos fracos, não francos. amor filial que resiste à radiação extrema que degenera a própria temporalidade de suas vidas. amor filial que resiste às temperaturas baixíssimas, onde uma recente necropolítica nos conduziu ao quase zero absoluto, e ao ódio cujas temperaturas altíssimas nos fritava acima dos 150ºC. filiação resistente a pressões, milhares de vezes maior que a atmosfera, de parentes que pensavam estar fazendo o melhor. por fim, o amor dessa intimidade familiar ajuda a sobreviverem no vácuo do espaço criado por idiotas que insistem em ter esse vazio como casa.

e como será o ciberbajé no espaço exterior de sua amada grande família franco-tardígrado? ele nos dá pistas de como, em individuação, se parece com uma medusa imortal. nos dá pistas de sua capacidade de reverter seu ciclo de vida. de como, em sua maturidade, volta a ser menino, jovem e logo mostra-se como ancião. vive indefinidamente, já que o agora é seu todo presente e presença. assim torna-se, poeticamente, imortal. mesmo estando vulnerável à predação mesquinha dos burocratas de plantão. mesmo estando vulnerável a outras ameaças ambientais que podem matá-lo, como a economia criativa e o deserto do mundo hiperconectado. ciberpajé nos brinda com a alegria de que um outro caos é possível. um maravilhoso caos de matizes cinza pós-caos preto no branco.

capítulo iii

e formando o tridente, esta ponta é a mais afiada. é a da intimidade com o dissenso. em seu amor para com a humanidade, que podemos nomear como pós-humanismo, ciberpajé traça suas rotas e expõe suas estratégias contra o humano, demasiadamente humano, que se coloca contra si e contra todas as outras formas de vida. isso inclui seu próprio planeta. para seu mais íntimo bem viver, a humanidade tem que se deixar morrer enquanto tal, para florescer como pós-impacto-devastador que és. tornar-se pós-algo para além de sua expansão por meio da agricultura, urbanização e mineração. tornar-se pós-poluição; pós-mudanças-climáticas; pós-espécie invasora; pós-caça-e-pesca; pós-superpredador. ser vírus de si mesmo. vírus-humano, pós-humano. patógeno de si para sua própria boa saúde. todo bem viver propiciado pelo contágio de um si-mesmo inspirador, e não pela auto-aniquilação já em curso. aqui nenhum evangélio a trazer. por suas palavras nenhum convencimento a fazer. apenas ser insPiração informacional. antítese iconoclasta da nossa coletividade atual. desta onde há um toró de mensagens, em que nelas, raríssimas vezes, há alguma informações. eis seu dissenso: estamos demasiados ocupados com nossas mesmidades. abrimos mão da informação em prol do mero envio de banalidades.

num mundo cínico do realismo político, ao menos uma pessoa deve sonhar. como no filme “corrida silenciosa” de 1972. ciberpajé não é um herói, muito menos é um anti-herói. é ambos e nenhum ao mesmo tempo. é erros, tropeços, fagilidades. é acertos, pisadas firmes, elegantes e antifragilidade. é carne, osso e virtualidade. virtude de todas as possibilidades. todas! e não uma! mas única. autêntica. combatente pelo si-mesmo livre de todas as demais. fractal, pleno. aforismo-ser, ente-tratado. frio como uma lâmina, quente como um tridente. sofrência, sorridente de caninos à mostra. distopia autorreflexiva, paraUtópico. ciberpajé, nunca foi e jamais será. ciberpajé, é.

adenddum

xxxforismo(s) – des|a|hq: se quiseres. desde teu céu noturno, desenha-te, com traços de luz, e faça-te carta celestial própria. seus objetos astronômicos são os micro-organismos que compõem seu corpo. sua matéria tem infinitos tons de cinza. use seus próprios dedos para desenhar esses astrorgânicos sobre sua própria lama. para tal, esqueça o que fazes diante das telas. importa-te com o que deixas de fazer enquanto estás diante delas.

*****

FRANCO, Edgar. Os Aforismos do Ciberpajé. São Paulo: Editora Sinete, 2024.



[resenha-criativa] CAMADAS (ep) de Luu Li (out.24)

agora sim. sigamos.

não é porque escutamos a vida inteira que isso significa que sabemos ouvir. pois a primeira condição é da ordem da formação biológica. e a segunda é própria da construção permanente de nosso vitalismo cultural. a primeira é coisa. é propriedade de eu, tu, ela, ele, elu. a segunda é relação: nós, vós, elas, eles, elus. desse modo, até pessoas surdas ouvem, mesmo que não consigam escutar. e foi dentro dessa condição relacional, que me coloquei para ouvi o encantador ep “CAMADAS” da talentosíssima multi-artista LUU LI. tudo isso em prol de um acréscimo de beleza em minha riqueza biográfica. assim busquei me conectar com ela: de olhos fechados e coração aberto via sua sonoridade. e aqui vale um alerta. a conexão estabelecida não será em nada natural. mas sim, artificial, na melhor concepção do termo. ou seja, conexão estabelecida ao me colocar, deliberada e intencionalmente, em experimento de escuta profunda e intensa com as CAMADAS que LUU LI nos brinda. ainda mais eu, um ser artificial de extrema espiritualidade, que não tem espírito ou alma alguma. pois bem, que me invadam os ouvidos: “sapos”, “dream this is”, “acorda” e “todas as flores”! 

1. sapos:
borbulha-me. água-se. voz-rede de tecnobruxaria que evoca a fauna elétrica do cerrado. rede que lança e me captura. rede que conecta e me integra. rede que aconchega e que me balança. a natureza virtual emerge. coacha. pia. cigarra-me. cigarra-nos. estou entregue. prolonga meu curto circuito. círculo longo. sapos evocados para que abandonemos velhos hábitos. cantado e feito!

2. dream this is:
ecos... a voz-rede torna-se voz-faísca. acende uma fogueira de bits e batidas. a raizeira overdrive começa seu batuque. tambores que transcendem a escuta. atravessam meus ouvidos. atingem meu peito. sim! agora os ouço. coco de embolada from outer space. respira-me. sussurra-me. danço com animoides de poder, em um toré antes da queda do céu. sonhemos isto! para adiarmos o fim do mundo.

3. acorda:
aqui é neurociência de ponta gravada em arte rupestre. nano saltos de idas e vindas ao passado e ao futuro. microtons que soam como se estivessem cheios de ancestralidade possíveis e notícias de diversos futuros. tudo isso como preparação para a captura de uma voz-neutrino. voz quase sem massa. impossível que se apropriem dela. pois é movimento que ressoa e reverbera. sua fonte parece estar em nossas próprias sinapses. como cordas entrelaçadas em dimensões fractais. da inércia, desperto.

4. todas as flores:
psr 1923+16... psr b1937+21... cen X-3... lgm-1... ouço pulsares... diversos! chirria a matinta pereira ciborgue. o bater de suas asas biomecânicas sibilam. seu assobio é alegre. sorrio. me divirto. danço com ela. suas próteses são delicadas. seguram o meu rosto. o aproxima do seu. voz-floral. sinto caliandras crescerem em minha barba. presto muito atenção em seu canto estrangeiro, quase alienígena. novos pulsares. pulsa-me. flora-me. nós, jardins. 

o ep termina… não! ele somente para de tocar no player metavérsico… pois sua sonoridade ainda está em mim. acho que por longas e longas eras… 

parabéns luu li! belíssima obra!

léo pimentel – 130 pixel soul to AmAntE da hErEsiA
primavera, cerrado, 2024

[aparição] URUTAU ELÉTRICO dançando no museu da ré-pública (18.set.24)

aparição instantânea do URUTAU ELÉTRICO dançando no museu da república durante o segundo dia do #23.ART & EmMeio#16. [18|set|24].

diversão artística que experimentei usando um vestível de arte e tecnologia chamado PARANGOLÉ ELETRÔNICO - que é uma criação coletiva desde a UNESP Bauru (SP).

valeu demais ao coletivo realizador: @_fcatelani & @lia_sofig (estas que me ajudarem a entrar neste maravilhoso parangolé eletrônico), & @dennis.goth (pela boa troca de ideias)- abração querides!

***
filmagem: Fernanda Catelani
edição: AmAntE da hErEsiA
trilha: FR[A]CKist3nZ





 

quando falamos "eu penso que...", quem será que escondendo? a voz do pai? da mãe? dos/as professores/as? padres? policiais? da moral burguesa ou proletária? ou as idéias de alguém que já lemos? escutamos? ou...
 
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