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bem vindo e bem vinda. este é um labirinto herege: um desafio para medir a astúcia de quem me visita; um convite à exploração sem mapas e vista desarmada. aqui todas as direções se equivalem. as datas das postagens são irrelevantes. a novidade nada tem a ver com uma linha do tempo. sua estrutura é combinatória. pode começar de onde quiser. seja de uma imagem, de um texto, de um vídeo ou mesmo de uma música. há uma infinidade de escolhas, para iniciar a exploração, para explorar esse território e para finalizá-la. aproveite.

claire, o artificialismo insurgente (o limiar – susan glaspell)

meu último texto escrito em 2012, e o primeiro publicado em 2013!
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tomarei a peça teatral “o limiar”, de susan glaspell como um tratado sobre o que chamarei de “artificialismo insurgente”: sendo, de modo geral, o teatro uma arte do diálogo, é fácil entrever/entreouvir o monólogo que o sistematiza. nesta peça, em particular, é um monólogo libertário que emerge. tratado libertário que tem claire, a personagem principal, como o que dá sentido ao “artificialismo insurgente” de susan. claire é flecha lançada que visa: (1) situarmos no sistema existencial urbano-ocidental no qual estamos conectados/as, o apequenamento dos interesses; (2) participar de uma existência que atravessa seu contexto histórico se nutrindo de um tempo passional, pulsional e patético; e (3), nos capacitar ao trânsito insurgente pelas místicas da falsificação (o conservadorismo), da repressão (o revolucionário) e da transgressão (o perverso). 

aqui elegi as falas que mais me interessaram no momento de minha leitura da peça, cujo critério de eleição foi o poder ideativo delas sobre mim. e isto é o que está presente em meu texto: o que entrevi/entreouvi nas palavras de susan glaspell não me impuseram um pensamento cuja forma, formatação, foi o artificialismo insurgente, mas sim foi isto o que ela me pôs em forma.


primeiro ato:

1. vocês pensam que a vida não pode ser estilhaçada e vir a ser algo que nunca foi?

a vida, em sua geração, preservação, expansão e fim respondem a um mesmo princípio: natumortaleza, destruição|construção como atos indiferenciados. princípio que aponta à condição de que vivemos em um mundo-acidente onde um criador divino não é só uma hipótese desnecessária, mas sim, uma hipótese falsa.

2. há formas mais interessantes de autodestruição.

autodestruir-se é situação de jogador/a que brinca com as ruínas disponíveis de informação de todas as coisas. é o ato absurdo e, portanto real, de que toda invenção não é o da “inspiração”, “criação” (sempre divinas ou anti-divinas), mas o diálogo entre ruínas.

3. você não percebe que seria melhor não ter voltado do que voltar o mesmo homem que partiu?
salta-me esta pergunta, pois nela contém o para quê; contém o “deliberadamente”, o “artificial”, o mistério da liberdade onde sabemos que nascemos geneticamente determinados/as e que não há nada escondido dentro de nossa mente que nos possibilite de sermos especiais, a não ser pelo o que podemos fazer na vertigem da queda (vida|morte).

4. uma filha chegará a mim essa manhã. eu sinto que será mais doloroso do que quando ela chegou pela primeira vez. ela foi educada, preparada para seu lugar na vida.
duas perspectivas, uma interna e outra externa. a interna é memória fantasmática da imoralidade na ética negativa anti-procriação: o jogo fechado onde jamais se consegue modificar suas próprias regras em todo lance – cada nascituro/a é o mesmo imperativo. a perspectiva externa é o voltar regressivo (moralidade) da vertigem da aventura: nada há de “orgânico”, de “natural”, de “espontâneo”, ou se está em prol do deliberado improvável e contra o acaso, ou se está em prol do deliberado provável e contra as virtualidades.

5. é preciso enlouquecer, romper-se em pedaços para que a vida não seja aprisionada.

a deliberação do improvável se dá no resgate dos elementos subversivos da imaginação, dado o caráter racionalista e formatador da sociedade vigente. manter a vida livre somente pode se dar no âmbito privado, como amostra da convicção de que a miséria humana não pode ser solucionada social e racionalmente, ou como uma mostra de autonomia imaginativa com valor de utopia.

6. elizabeth (filha de claire): – eu não faço nada de interessante, então tenho que ter bons modos.
inversão radical do estar-no-mundo onde a moralidade se dá como prêmio de consolação ao não criativo: pois de repente se vê eliminado/a do processo de inventar e destruir valores (avaliar), reduzido/a a consumidor/a das moralidades produzidas.

7. você por favor quer tirar de sua cabeça a ideia de que eu estou aumentando a riqueza do mundo.
o mundo não é um baú de tesouros libidinosamente vivenciável. o fascínio pelo mundo não deve estar reduzido às infraestruturas econômicas e sexuais. a situação de fascínio, existencial por excelência, é uma espécie de “fazer seu próprio ser” em um mundo em constante “desfazer”.

8. talvez elas sejam menos bonitas, menos sadias, mas elas encontram a alteridade.
a práxis humana é sempre pobre se não desenvolvida em um horizonte de indeterminação, incerteza e desembaraço. a homogeneização realizada por valores estéticos e sanitários da sociedade vigente vem sendo historicamente se instituindo como uma dimensão fundamental da dominação, um dever-ser. a alteridade é insurgência contra qualquer tipo de homogeneização. 

9. “não lhe parece certo!” isso é tudo o que você sabe sobre aventura e sobre angústia.
certo|errado dispositivo bidimensional incapaz de liberdade: região limiar de aventuras, de situações imprevistas, de situações criadas deliberadamente; e que reduz a angústia a uma patologia ocultando-a como forma e tomada de posição diante as exigências inevitáveis da existência.


segundo ato:

1. adelaide (irmã de claire): você é uma pessoa extremamente inteligente, competente, e está na hora de parar com essa bobagem e ser a mulher que você foi destinada a ser.
destino: a miragem naturalista, anti-artificialista por excelência; lugar da ordem e da necessidade; zona de certeza entre o acaso do cosmos e as vicissitudes do agir humano (insurgência artificial); ordenamento que visa transcender a ordem das necessidades factuais e arbitrárias oriundas do humor crepuscular e do pensamento sem “qualidades elevadas” que somente a pessoa livre pode cultivar sem se condenar à falsa alegria do otimismo.

2. nunca eu gostei do que precisava.
gosto pelo além do que é necessário: é preciso cultivar e deixar florescer as necessidades especiais vindas da melancolia do saber, da lucidez crepuscular, e da consciência artificial (indiferente a se ela foi herdada, adquirida ou desalienada);

3. você não tem nenhuma energia. é por isso que você vive tão ocupada.
a mediocridade é a própria exacerbação do comportamento sonâmbulo (esgotamento da conservação energética) em um circuito fechado de projeções de sentidos (injeção de valores) e modelos (sacralizações) para o comportamento; autoesquecimento precipitado pelo constante entretenimento (cobiça de sensações) pelo trabalho (atividade que programa) e pela ocupação (dispersão e distração permanente);

4. arranca as palavras da vida que as criou para decorar suas mentes estagnadas.
duas expressões possíveis dessa intuição: (1) o discreto charme da burguesia que tende a denunciar a decadência chutando cachorros mortos como o “machismo”, a “luta de classes” e o “nacionalismo” e, assim o fazendo, banaliza tudo o que um dia já foi expressão direta de rebeldia e contestação; e (2), o/a revolucionário/a gritalhão/ona que “quer” uma revolução sem o ônus de uma que, assim o fazendo, se opõe à tendência emergente dessacralizada (nada fazer que seja espetacular, já que o espetáculo é o grande inimigo) e entra em consenso afirmador com as atitudes reacionárias naquilo que está aí como sendo irreversível e insuperável, a dispersão (educação para todos - monoculturalização) e o divertimento (consumo e multiculturalismo sem interculturalidade).

5. pelo menos isso me livra de ser uma mulher natural. vamos correr esse risco. arriscar tudo. deixar viver ou deixar morrer.
lançar-se ao proibido: ser pessoa antinatural, ser pessoa artificial, aquela que imagina e elimina coisas antigas; que imagina e elimina o tecido social no qual vivemos (família, nação e cultura); que imagina e elimina artefatos, obras, instituições, sejam estas estatais ou privadas; que imagina e elimina qualquer coisa deliberada e conscientemente. não ser mulher paralisada nem pelo futuro, nem pelo o não haver futuro. é preciso simplesmente passar.


terceiro ato:

1. a destruição me interessa demais para reduzi-la a um tiro.
a destruição, ou seja, a terminalidade mesma, não se reduz ao seu término pontual (morte ou ruina) nem mesmo a um gesto ou a um ato passível de ser apropriado (suicídio e assassinato); a destruição é uma dimensão destituída do totalitarismo, da banalidade e da redundância. não admite autor nem autoridade. é algo aberto para todas as coisas. é a própria vertigem de criatividade.

2. vocês está tentando me trazer de volta para o que eu queria? você está aqui para me fazer desistir?

é preciso seguir. herdada, adquirida ou inventada, uma virtualidade se põe como entrópica. vontade que se põe como um lançar-se contra o voltar dela mesma. vontade suicida invertida em direção à própria liberdade. é preciso aproveitar as aberturas, as angústias restantes. depois será tarde. é preciso se afastar de qualquer contexto mitificador.

3. é você que sufoca o sopro da vida.

reduzir tudo ao objetivo alcançado é uma visão muito pobre da vida. viver também é uma reação clara e definida que atua como sucesso difuso, indeterminado, informulado, impossível.


léo pimentel - 2012

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