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bem vindo e bem vinda. este é um labirinto herege: um desafio para medir a astúcia de quem me visita; um convite à exploração sem mapas e vista desarmada. aqui todas as direções se equivalem. as datas das postagens são irrelevantes. a novidade nada tem a ver com uma linha do tempo. sua estrutura é combinatória. pode começar de onde quiser. seja de uma imagem, de um texto, de um vídeo ou mesmo de uma música. há uma infinidade de escolhas, para iniciar a exploração, para explorar esse território e para finalizá-la. aproveite.

resposta de wanderson flor ao jardim das notas que se trifurcam


oi, léo...


desculpe a demora em responder. entre viagens, doenças e atrasos com a agenda, o que é interessante foi deixado para o final.

eu gostei muito de teu texto e não sei se as muitas perguntas que você faz (muitas delas com respostas já sub-reptícias) eu tenha como responder. mas uma delas está martelando insistentemente em minha cabeça:

de fato, o ponto nevrálgico do texto é a relação entre ética e política. e eu não estou seguro da sabedoria política da ética negativa. embora eu siga paralisado, eu ainda penso que a ética negativa é anti-política. e aí seu silenciamento não é apenas um apontar para uma possibilidade política, mas uma suspensão de uma política (mesmo que negativa). eu não acredito que a ética negativa seja uma proposta da redução do tempo da imoralidade, pois o suicídio é apenas um dos atos que são possíveis diante do reconhecimento do desvalor da vida humana. há toda uma moralidade para aqueles que insistem em seguir vivos, a contrapelo da própria existência. e o que me encabula aí é exatamente a falta radical de espaços de negociação, já que esse desvalor da vida humana constrói uma série de valores não negociáveis, pois sustenta uma visão de mundo não negociável, monológica, estática. o lugar da estrutura (e sua condição 'álgica') deixa negociar o quê? que política é possível quando não há visões alternativas de mundo, quando não há mundos diversos que se enfrentem? há apenas duas possibilidades: um mundo autenticamente reconhecido como atravessado de uma vida sem valor ou sua ocultação. onde está a espiral? se há uma política possível através da ética negativa, eu não consigo entender o que se entende por política aí. eu tendo a perceber por política as negociações em torno de visões e projetos de mundo, de vida, distintos. só há política quando há desacordo, quando as diversas visões de mundo e de vida são igualmente legítimas. se alguém pensa que só há uma fenomenologia acurada do mundo e da vida humana (e esta atesta seu radical desvalor, sua condição mortal e sofrente), que negociações são possíveis? só é possível negociar com o inautêntico?

há uma perspectiva anti-política que implica em infantilizar ou considerar como alienada a postura dos outros olhares para afirmar que apenas meu olhar oferece uma descrição coerente do mundo. e esta perspectiva é anti-política porque não considera as outras perspectivas como válidas, mas apenas como enganos, ocultações, delírios de quem não suporta a 'crua verdade' do mundo. eu acho que essa perspectiva anti-política tem um motivo político que é a decisão sobre os olhares e condutas dos outros.

eu tendo a assumir um radical pluralismo sobre essa questão. os outros olhares são tão válidos como o meu. não são alienados e nem uma ocultação da 'verdade múltipla e aberta' daquilo que seria o mundo para a minha perspectiva. isso me impede de emitir juízos de valor universais ou universalizantes sobre a minha perspectiva ou as das outras pessoas. são diversas. e temos de fazer com que elas se encontrem para que uma conversa sobre o que fazer (já que política não se deveria fazer sozinho), frente aos diversos projetos e visões de mundo e vida. e, para a minha perspectiva a ética não pode ser outra coisa que não política, a não ser que assumamos a postura foucaultiana, para a qual a ética nada tem a ver com a relação com a alteridade, com os outros, a ética seria apenas a maneira como os indivíduos se constroem a si mesmos como sujeitos de uma conduta moral (e a moralidade seria pública e, portanto, política). a ética seria, então, uma estética de si. e apenas isso (e neste sentido a ética seria desligada da política, embora tenda a se projetar para ela na medida em que o sujeito produzido por esta estética de si seria automaticamente projetado para o mundo da política).

o que me fascina na ética negativa é que ela me apareça como mais um olhar entre outros. mas se ela se me aparece como a verdadeira descrição da ação humana, ela cairia na mesma monotonia de todas as outras éticas universalistas que sabem a verdade do que o mundo, a vida é. aí eu prefiro ficar com o teu olhar espiralizante da ética negativa, esperando que, quem saiba, ela assim o seja. mas a sabedoria política ainda me fica na espreita. quem sabe eu ainda não a tenha visto...

abraços,
wanderson flor

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ilustrações de fernando chamarelli [1] oferenda; [2] yansã; [3] guerreiro da lua.

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