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bem vindo e bem vinda. este é um labirinto herege: um desafio para medir a astúcia de quem me visita; um convite à exploração sem mapas e vista desarmada. aqui todas as direções se equivalem. as datas das postagens são irrelevantes. a novidade nada tem a ver com uma linha do tempo. sua estrutura é combinatória. pode começar de onde quiser. seja de uma imagem, de um texto, de um vídeo ou mesmo de uma música. há uma infinidade de escolhas, para iniciar a exploração, para explorar esse território e para finalizá-la. aproveite.

LUz, SOmbrAs E CUrvAs NO UnIvErsO DA IdEOgrAfIA ErÓtIcA de JUliA

NOTA: na postagem a baixo há apenas minha escrita sobre as fotos de julia filardis. para vê-las e melhor acompanhar melhor o que escrevo, leia o texto a partir desse link:




“el placer de los sentidos está siempre regido por la imaginación. 
el hombre no puede alcanzar la felicidad si no acata todos los caprichos de su mente.” 
(in. beauvoir, simone de. el marqués de sade, 1959, p.19)[i]


§1. preliminares

hoje nada é mais banal do que os corpos por trás da liberação do discurso dos mesmos. hoje nada mais banal que o desejo por trás da proliferação de seus modos de ser e agir. os corpos e os desejos estão por todas as partes, exceto no erotismo.

ausência por ambos terem sidos tragados para dentro da indústria do banal. indústria esta que produz uma infinidade de aparatos para microprocessá-los. não há mais signos, nem ritualística. há apenas performances, como acontece no esporte; há apenas sedução amena e pulverizada num cosmos social desnutrido, como acontece na urbanização e no paisagismo. 

corpos e desejos sem erotismo... sim. pois o erotismo é da ordem da polivalência difusa do gozo que transfigura todo o corpo pelo desejo. o erotismo é uma natureza desnaturalizada, ou seja, sem práticas naturais. pois estas, os discursos da anatomia como destino e os discursos da psicologia já se apropriaram. o erotismo é da ordem do artifício que opera como estranha coincidência com a própria natureza. o erotismo é ao mesmo tempo a constatação radical de sua prática artificial e sua única possibilidade de ultrapassa-la enquanto tal.

a natureza está morta. assim como nietzsche anunciou a morte de deus. eterna ironia erótica. sem deus e sem natureza, o erotismo se desbanaliza. sem ética e sem estética, o erotismo se desbanaliza. sem deus, o jogo mais banal do gozo como prêmio de consolação da procriação, torna-se inocência obscena do gozo da festa. sem natureza, a situação sexual original de violação e de violência, torna-se nudez sem verdade objetiva. sem ética, o medo de se estar seduzido/a, torna-se uma forma superior de intersubjetividade, imoralismo. sem estética, o fetichismo colecionador da paixão pela regra, torna-se aposta máxima da multiplicação de desafios sem origens e sem originais. erótica.


§2. ideografia erótica

uma ideografia erótica se dá em duplo caráter. por um lado é uma representação direta de pensamento sem nenhum elemento silábico ou fonético – ideograma. por outro é uma pura hipótese, espécie de exploração libidinal numa obscenidade radical, visível e de imaginação-artificial de um universo de signos cuja forma é a conjuração de uma ritualística de artifício e animalidade – erótica. 

para uma virtuosa prática de uma ideografia erótica é preciso uma caligrafia impecável, como a do shodō japonês (書道, "caminho da escritura"). no caso desta, os instrumentos são um pincel, um tinteiro e uma folha de arroz. e sua disposição filosófica, a própria vida. para o shodō toda a escritura é uma totalidade vital, não há possibilidade para se voltar atrás. escreve-se, como se vive. sem borrões ou falhas as pinceladas se alternam em força, delicadeza, e velocidade. trechos se intercalam em sutileza e intensidade. tanto o pincelado quanto o vazio fazem parte de um mesmo todo. 

pois bem, mas a ideografia aqui é mais que o shodō, é erótica. os instrumentos são outros; são uma máquina fotográfica, as curvas de corpos, as formas de objetos e um ambiente. seus trechos são intercalações entre luz e sombra que se intercalam em sutileza e intensidade. tanto a composição quanto o acaso da ambiência fazem parte de um mesmo todo. aqui o ultrapassar do shodō é realizado por julia filardi, cuja disposição filosófica de seu olhar é o próprio erotismo. fotografa-se, como se erotiza. sem sedução amena ou desejos microprocessados, seu olhar se compõe em suas fotografias em força, delicadeza e velocidade.


§3. aposta na polivalência difusa do gozo

um universo erótico jamais pode ser formulado com linguagem teórica. o símbolo, o mito, o ritual são a sua manifestação mais autêntica, pois expressam em planos diversos um complexo sistema de afirmações sobre a realidade. é um tipo de sistema que não é destino, tampouco política. constitui uma metafísica de aposta, de sortilégio e de vertigem. 

ao penetrar no autêntico significado de um símbolo, mito ou ritual, o universo representado está presente. presença mostrada, revelada. cada coisa adquire um valor de realidade que a transcende. no caso do universo erótico das fotografias de julia, a luz, as sombras, as curvas dos corpos, as formas dos objetos e sua ambiência se dão com uma fluidez que, de modo algum, podem ser contemplados com a rigidez dos sistemas ontológicos fornecidos pela tradição filosófica. pois, sua contemplação não deve dividir seus elementos em imaginários, reais e ideias. tais coordenadas não lhes servem, porque de forma alguma reflete o erotismo desse universo. 

as fotografias de julia são superfícies significativas que devem ser percorridas como que pelas pontas dos dedos. não são imagens objetivas. pois o objetivo fala apenas aos discursos de poder engajados em processos visíveis; ao banal; à indústria produtora de banalidades. o processo aqui é o da imagem para ser imaginada. é abstração realizada. são tão profundas quanto mais superficiais. superficialidade liberta do concreto. por exemplo, os dedos que percorrem a serra dentada ou as curvas dos corpos podem tanto cortar quanto deliciar. ambos podem ser profundos, irreversíveis, ou seja, ambos os cortes podem estar libertos da superficialidade banal e alcançar a superficialidade extraordinária. tal qual uma bela tatuagem realizada por escarificação. isso tudo ocorre tanto à luz, quanto às sombras. como eu disse antes, nelas não deve se dividem, seus elementos, em imaginários, reais e ideias.

fotografia tátil de um universo que convida ao toque. mas não a qualquer toque; aquele cuja realidade é atribuída fora da participação simbólica. mas sim um toque que se possa arriscar-se na aposta da polivalência difusa do gozo que transfigura todo o corpo pelo desejo. um toque enquanto ritualística e gestos profanos significativos que materializa esses significados. um toque que projeta a superfície da fotografia para a presença de quem a toca.


§4. erotismo, somente se imaginístico

quem imagina, recria o imaginado. quem deseja, recria o que deseja. a presença do corpo recria o próprio corpo. assim, a imaginação de julia em suas imagens abre um universo a mim: sua imaginação torna suas imagens imaginável para mim; recria todo um outro universo: o universo do erotismo da luz e das sombras. a fluidez de ambas se realiza quando imagino que seus respetivos sentidos se dão a posteriori. a fluidez entre ambas não são servas das significações, as imagens de julia desvendam o segredo do futuro formado pelo verbo “haver”. não há erotismo algum se não houver prática e vivência em outra pessoa. 

erotismo é troca autêntica; é dialética sem síntese. somente nessa troca algo se torna real; algo se realiza. tal qual o imaginado. nessa troca se dá um universo-acidente. já que imaginar é desmistificar; é ato desmistificador que nega toda criação a partir do nada. a imaginadora, no caso, nos desafia a imaginar com ela o máximo de imaginalidades: universos acidentais e sinuosos. cada elemento de sua composição é uma metáfora. substituem, apontam, procuram.

cada luz, sombra, corpo e ambiência é uma curva, uma curvatura que dobra todo o espaço à nossa volta; dobradura cujas reentrâncias nos são portais de acesso ao desconhecido que se abrem quando, com os olhos, estes dedos imaginativos, percorremos sensualmente as curvas das fotografias de julia. cada luz, sombra, corpo e ambiência são símbolos que apontam para o nada, o inarticulável, o silêncio, no entanto transbordando de imaginação, a própria articulação, a música. um nada que forma e informa nosso erotismo; matéria-prima do nosso erotismo: imaginação que em seu ato ultrapassa-se.

as imagens de julia erotizam: traduzem os apontamentos ao nada em silêncio encantado, para, assim, apreende-los. e a imaginação apreendida nesse silêncio é o reagrupamento, a composição, como na música, dos encantos da luz, das sombras, das curvas sinuosas dos corpos e da ambiência, para serem aprendidas enquanto ideografia erótica.


§5. relações sensuais

a ideografia erótica de julia possui dois níveis de sensualidade paralelos: o fotografado em composição e o ideograma imaginado. 

o fotografado em composição corresponde à sensualidade in-formada subjacente: mãos artesãs do poder-ser; seios que observam o horizonte das potencialidades que haverão de realizar-se; coxas prestes a expandir o território de sua realidade; pele que nos quer arrancar algo das profundezas do inarticulado, serra redonda, dentada e enferrujada que trás consigo o perigo da exposição do corpo ao influxo imediato da dor, a ambiência cuja textura é o próprio caos dos instintos, das vivências inarticuladas, das impressões sensuais que surgem à tona; as sombras que revelam o horizonte invisível do visível e; luz como extrema articulação através da qual o indizível é abordado.

o ideograma imaginado corresponde à sensualidade com-posta aparente: é a superfície significante, o corpo expressivo de toda a fotografia. por intermédio desse nível da sensualidade, quem vê a imagem e a imagina conhece a composição do erotismo e pode agir eroticamente sobre ele. quando os elementos fotografados em composição agem uns sobre os outros, enviam-se sensualidades e modificam seus estados internos, assim vemos ideogramas imaginados que se transformam mutuamente. o ideograma imaginado manifesta o conjunto de diferentes imaginações do fotografado em composição e exprimem sensualmente a realidade erótica do desejo e dos corpos presentes: o olhar-desejo de julia que compõe; o corpo-seduzido da fotografia com o olhar-desejo de quem o vê; a serra-perigo seduzida por ambos os corpos; a ambiência-caos que faz fundo-subconsciente a todos os corpos presentes.

o fotografado em composição e o ideograma imaginado sustentam relações sensuais complexas: desejo para com o fotografado e corpo expressivo para o ideograma. o erótico é a vivência das fotografias de julia. nossos intelectos as sentem, e para realizar-se plenamente, precisam superar-se, aniquilando-se voluntariamente em relações sensuais, relações libidinais.



lÉo pImEntEl

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[i] beauvoir, simone de. (1956), el marqués de sade. libro de edición argentina. ediciones leviatan. (in. www.elortiba.org).

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