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bem vindo e bem vinda. este é um labirinto herege: um desafio para medir a astúcia de quem me visita; um convite à exploração sem mapas e vista desarmada. aqui todas as direções se equivalem. as datas das postagens são irrelevantes. a novidade nada tem a ver com uma linha do tempo. sua estrutura é combinatória. pode começar de onde quiser. seja de uma imagem, de um texto, de um vídeo ou mesmo de uma música. há uma infinidade de escolhas, para iniciar a exploração, para explorar esse território e para finalizá-la. aproveite.

qUEImAndO mIssÕEs frAncEsAs – Um mItO InspIrAdO pOr gAbrIEl

lÉO pImEntEl – 2014

assim como o ezln (ejército zapatista de liberación nacional) se fez um exército que visa desaparecer, na leitura do texto “o que fazer das missões francesas” de gabriel antunes (http://fibral.blogspot.com.br/2014/05/o-que-fazer-das-missoes-francesas.html), me fiz um filósofo que visa desaparecer enquanto tal. já na escrita, me tornei filósofo desaparecido. analogamente à resposta dada por felipe quispe huanca, do egtk (ejército guerrillero tupak katari), ao lhe perguntarem em coletiva de imprensa, porque ele tornara-se “terrorista” “porque no quiero que mi hija sea su sirvienta, tampoco que mi hijo sea sua cargador de canastas”. desse modo, esta presente escrita, segue os passos de rebeldia nas montanhas e nas florestas.

§1. expedições francesas

chove. as nuvens carregadas cobrem são paulo. antecipam a noite. a arquitetura helênica greco-romana mal feita molhada convida a se conformar, a não reagir, a deixar acontecer. encharcado e com uma pequena bolsa trazendo a revolução francesa convertida em fonte abstrata de discursos sobre a liberdade, um galo abre as asas para chamar a atenção. bandeirantes paulistas abrem as portas e as janelas de sua mais famosa universidade para a ave entrar. o galo irritado com aquela chuva tropical esbraveja:

– a aristocracia tem a vantagem de concentrar a ação do governo nas mãos menos perigosas e menos inaptas que as de um povo ignorante. (1)

a nova classe urbano/industrial em ascensão sente-se orgulhosa, pois a questão religiosa e as fragilidades da primeira república brasileira demonstrava fraqueza frente à modernidade. a ave infla o peito e deposita sua pequena bolsa no chão molhado da usp (universidade de são paulo). soberba e já mais calma, ajeita suas penas e, em tom solene pergunta

– como um país “sem história” descobre sua historicidade?

de pronto, corujas brasileiras que foram estudar na europa responderam:

– simples! importando cultura além-mar; copiando leis a partir de modelos europeus, plagiando marcha militares e traduzindo versos para nosso hino nacional!

o antigo galo que em 1500 aqui chegou e, desde aí, com sua coroa, iniciou a condição sistemática da ocupação do território, agora dá espaço para o novo galo (2). este que chega fazendo aliança com a “elite esclarecida” para ser propulsor da realidade nacional. assim a antiga colonização, material, oligárquica e primitiva, adquire ares imateriais, modernizador e profissionalizante. 

§2. um aldeamento francês

os galos têm muitos instrumentos de ataque. agora, com o voo profissionalmente institucionalizado, suas filhas adotivas, as corujas paulistas, querem acabar com outras formas de vida; querem assassinar as memórias de araras-vermelhas, de flamingos, de uiarapurus, de mutuns, de curiós, de uiraçus, de inhumas, de tachãs, de jabirus, de seriemas, de quero-queros, de arapongas (3), assassinar as memórias que as fazem ser o que são. como animal doméstico de seu espírito, o galo e as corujas paulistas, passaram a ter uma mula; passaram a pensar desde um empacamento fundamental. 

a mula empacada, com uma pata enterrada na terra mole da usp, ouvia insistente questão do tuiuiú (4):

– como um país cuja identidade foi imposta desde fora pelos galos invasores, constrói sua própria identidade

irritada e mexendo a orelha, a mula gritava respondendo, tentando tirar a pata enterrada

– mediante o estudo do passado da filosofia europeia que se instaura o filosofar universal como identidade histórica brasileira!

no entanto, perto daquele aldeamento, entre a cruz de pedra que os jesuítas fizeram construir, e um montinho de sementes de abóbora, passava por ali, um antigo carcará que assistia a tudo. mais atrás havia um camaleão brincando com fogo. o carcará dividido, não sabia se ia até o galo, as corujas paulistas, cujos espíritos de mula empacara, e o tuiuiú que os desconfortava, ou se ia brincar com o fogo que o camaleão brincava. mas logo o camaleão lhe faz várias questões

– estamos aqui ou somos um espelho aquilo é nossa realidade ou é apenas um reflexo aquilo é uma luz ou é apenas um centelha é algum caminho ou são apenas alguns passos aquele galo e corujas são guias ou são apenas uma de tantas picadas que levam ao futuro do pretérito

§3. queimando missões francesas

mordicando, o céu arranca a aurora que já floresce na copa das palmeiras, dessa nossa pindorama colorida. distraído com a dança das nuvens, o céu que mordisca sussurrava aos rios voadores (5):

– o que fazer agora do que fizemos de nós querendo seguir às missões francesas mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis

sussurros úmidos desde a bacia amazônica. 

sussurros úmidos que faziam chover sobre a cidade de são paulo. 

– o que fazer agora do que fizemos de nós querendo seguir às missões francesas mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis

sussurros úmidos que encharcavam a cultura filosófica uspiana. 

– o que fazer agora do que fizemos de nós querendo seguir às missões francesas mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis mimeses ou poiesis

o camaleão ainda mantinha o fogo aceso. o carcará querendo comer carne cozida. alguns sapos mamelucos que estavam ali às voltas, tinham água na boca. vez ou outra, disfarçada e sorrateiramente, sopravam água no fogo. e sempre fugiam para a água. de lá coaxavam

– mimeses... mimeses... mimeses... mimeses... mimeses... mimeses... mimeses... mimeses...

e isso foi a noite toda. noite que ainda não terminou. 

mas conta-se que, quando a aurora tenta se levantar, ela é sempre impedida pelo chefe do galo e pelas suas subalternas corujas paulistas, mas que, mesmo assim, consegue sussurrar aos rios voadores para que levem a seguinte mensagem

– ou faz-se das missões francesas (e eventuais outras) ocasião de libertação do pensar ou rompe-se com elas.

e o camaleão em resposta segue cantando

– queimemos as missões francesas. e impedir com as brasas que a memória se apague. enquanto a noite não acabar pergunta e responde burn, baby, burn!

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notas: 

1. aforismo de napoleão bonaparte.
2. o animal símbolo, tanto de portugal quanto da frança, é o galo.
3. aves que são símbolos dos estados brasileiros.
4. ave símbolo do pantanal (mato grosso do sul), também conhecida como “jaburu”, representa a própria tristeza – (ver “a lenda dos tuiuiús”).
5. os rios voadores são “cursos de água atmosféricos”, formados por massas de ar carregadas de vapor de água, muitas vezes acompanhados por nuvens, e são propelidos pelos ventos. essas correntes de ar invisíveis passam em cima das nossas cabeças carregando umidade da bacia amazônica para o centro-oeste, sudeste e sul do brasil.
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para baixar o texto em pdf:

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