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bem vindo e bem vinda. este é um labirinto herege: um desafio para medir a astúcia de quem me visita; um convite à exploração sem mapas e vista desarmada. aqui todas as direções se equivalem. as datas das postagens são irrelevantes. a novidade nada tem a ver com uma linha do tempo. sua estrutura é combinatória. pode começar de onde quiser. seja de uma imagem, de um texto, de um vídeo ou mesmo de uma música. há uma infinidade de escolhas, para iniciar a exploração, para explorar esse território e para finalizá-la. aproveite.

universidades: novos aldeamentos e eu, para além de foucault





por foucault não ter tido a experiência cultural da colonização, como tivemos na américa-latina, esse filósofo acabou deixando de fora de suas pesquisas, sobre o modo de pensar e fazer política social, a questão dos aldeamentos, das reduções, das missões jesuítas. em seu “vigiar e punir” sua perspectiva é basicamente pensar a caracterização do delinquente a partir da noção de cidadão comum. a vigilância e a punição são as estruturas básicas encontradas em prisões, hospitais e escolas. claro que podemos pensar um aldeamento, uma redução, uma missão sob esta ótica, no entanto, teríamos que deixar muita coisa importante de lado, apenas para estar de acordo com as análises foucaultianas. como, por exemplo, a aculturação dirigida pelo regime tutelar. pois bem, de nossa perspectiva latino-americana podemos pensar que há mais elementos na estrutura de poder do que apenas vigiar e punir – atrair, territorializar e “proteger”. eu chamaria de “aldear e reduzir” – solidão e confinamento territorial. a gênesis da perspectiva “aldear e reduzir” parte da caracterização de uma particular forma de vida como selvagem e primitiva, a partir da caracterização de outra forma de vida como civilizada, moderna e cristã. da perspectiva da colonização, de nossa experiência indígena, saímos da condição ôntica da delinquência (foucault) e somos lançados à condição ontológica de selvagens e primitivos/as infantilizados/as que devem substituir suas atividades existenciais por tarefas tutelares.


um dos modos que os jesuítas utilizaram, na época da colonização, para tirar os/as nativos/as do ambiente das organizações sociais de floresta, “propícios aos maus costumes” (leia-se “toda e qualquer manifestação cultural indígena”) foi a criação dos aldeamentos – ora chamadas de reduções, ora chamadas de missões: ideologização de que é preciso proteger indígenas de uma dominação mais violenta ao custo de uma dominação mais “humana”. tal retirada tinha como propósito a constituição de comunidades cristãs sólidas e duradouras às custas da subordinação à aniquilação do culturalmente diferente. tal constituição tinha com base o delírio de se refundar a humanidade a partir do indígena, matéria-prima humana, orientada pelo cristianismo de seus primeiros tempos – inveja de que indígenas seriam mais cristãos/ãs que os/as próprios/as cristãos/ãs. como exemplo de uma dessas empreitadas foi a que os jesuítas chamaram de “república comunista-cristã guarani” (ou os povos das sete missões no sul do brasil, argentina e paraguai) mantida por mais de 150 anos (1610 a 1770) . a disposição espacial desses aldeamentos fixavam-se os/as indígenas em torno de uma igreja e isolam-se novos/as convertidos/as da “corrupção” dos colonialistas – cinismo das boas intenções que instaura uma “proteção” por rejeitar um tratamento horizontal ao culturalmente diferente.

o isolamento nos aldeamentos era justificado pelos padres como proteção da moralidade e da liberdade para com as tribos ainda não subjugadas. tal proteção significava  reduzir indígenas, torna-los/as sujeitos submetidos aos padres, ao rei e a deus fazendo-os/as “perceber” que seus atributos próprios são impuros e que tais deve se imaginar sem eles. indígenas que recusavam e não acreditavam nas promessas de “liberdade” dos missionários e de outros indígenas convertidos eram estigmatizados como selvagens, feiticeiros/as, possuídos/as pelo diabo e destituídos/as de coragem. deste modo, os aldeamentos, ou as reduções, eram bolsões de isolamento para o exercício da conquista espiritual, da tecnicalidade instrumental e a obtenção de resultados civilizatórios – tudo isso sob a perspectiva infantilizadora de que indígenas não sabem cuidar de si, devem ser educados, servidos e disciplinados, pois são semi-capazes e ingênuos. tudo o que estava fora (em seu lançar-se sobre seu desamparo e incompletude necessários) era a imoralidade, a poligamia, a embriaguez, o primitivismo, a selvageria, o ódio aos colonizadores, o laxismo e a feitiçaria – por monopolizar  acesso a bens, pessoas e relações. tudo o que estava fora era um atentado bárbaro contra a cultura – o dentro assim se tornava um fim em si mesmo. aldear e reduzir para um melhor vigiar e punir? não, eu diria que aldear e reduzir para que vigiar e punir não fossem necessários. o próprio olho que tudo vê não se daria a partir de uma arquitetura panóptica, mas sim a partir de um território panóptico em si mesmo.

pois bem, mesmo após séculos dos jesuítas terem sidos expulsos de suas reduções (primeira metade do século xix), tal forma de isolamento (aldear e reduzir) ainda persiste até os dias de hoje (século xxi) se infiltrando no modo de ser das instituições brasileiras. podemos tomar qualquer uma delas como exemplo para tentar trazer à tona como elas operam enquanto aldeamento. peguemos aqui as universidades. estas também separam o fora e o dentro para além do vigiar e punir. o fora é tudo o que é diletante, improvisado, e conhecimento falsamente autossuficiente – estas não necessitam de vigilância nem de punição. o dentro é o virtuoso domínio da literatura, a sobriedade argumentativa e diligente obtenção de resultados – aldeado/a e reduzido/a conduzido/a ao automático sua conduta já que se decidiu estar dentro (interiorização). seu próprio significado etimológico nos mostra sua origem de aldeamento/redução/missão: universidade, do latim universitate, que significa totalidade, conjunto, companhia, corporação, comunidade. um universo, sim, com cara de ilha, pois exclui todo o pluriverso em expansão. tal exclusão não se dá porque falte algum valor ao que está fora, e sim porque tudo o que está dentro desta ilha já foi subjugado, reduzido, tornado sujeitos submetidos aos padres (professores/as e pesquisadores/as), ao rei (o estado) e a deus (o conhecimento profissional direcionado ao mercado de trabalho). tantos os aldeamentos quanto as universidade representam uma instituição crucial para a boa ordem do sistema colonial: a pacificação por persuasão, influência, atração e sedução. ambas cumprem a função de “civilizar”, via a lógica da tutela, nós, indígenas, selvagens e primitivos/as, e tornar-nos obedientes vassalos da coroa em liberdade vigiada e em vida autorizada.

tal qual os refugiados e refugiadas indígenas, seja ainda no mato como “isolados” (sobreviventes do genocídio pelos bandeirantes), seja como “tutelados” em reservas indígenas (confinados/as em simulacros de terra indígena), seja nas periferias e favelas das cidades como “pobres” e “indigentes” (“integrados/as”) que se viram obrigados/as a refazerem suas culturas uma infinidade de vezes na ausência de suas organizações sociais em floresta; os anciãos das aldeias; os velhos guerreiros de “corpos riscados” (que já mataram e comeram inimigos); as anciãs “feiticeiras” (que já mascaram muita mandioca ou milho e fabricaram muito cauim), aqui estou – amante da heresia. fora do aldeamento. fora das reduções. fora da universidade. desconfiado e sem qualquer interesse em estar dentro, “vigiando do alto dos morros a movimentação dos brancos”. pondo-me a rir com um comportamento de fachada e sem controle, jocosamente desrespeitando toda autoridade que me observa, que me censura e que tenta me seduzir. nenhuma moderação grega, nem romana, muito menos temperança pós-tomista alguma. estar fora significa não ter conhecimento nem de deus nem de ídolos. ao mesmo tempo em que não se é tábula rasa, em que não falta nada, nem que há um vácuo simbólico e epistêmico. na produção de conhecimento não aldeado, não reduzido, portanto, na produção de conhecimento de modo amador (por aquele que se erotiza como livre personalidade – soberania de caráter não adestrado), de modo que o saber teórico morra (sufocado pela nossa ancestralidade indisciplinada) e renasça como vontade louca (a pedagogia sem relação alguma com a ideia de civilizar), não só realizo um ato contrário à boa ordem civilizacional, como também cometo uma falha grave enquanto ausente da comunidade civilizada. já que não há nenhum tipo de abstinência, sobriedade nem castidade em meu tipo de epistemologia. 

portanto, carpe dien, seja indígena! 

léo pimentel, 
enthūsiasmado por uma uainuy 
(anciã antropofágica tupinambá) 





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